
Ventiladores ligados durante todo o dia, banhos frequentes e a garrafa de água sempre por perto passaram a fazer parte da rotina da dona de casa Elen Lopes, moradora do bairro Base, em Rio Branco. O calor intenso, que parece aumentar a cada ano, é apenas um dos efeitos provocados pelas mudanças climáticas e por fenômenos como o El Niño.
Neste 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, especialistas alertam que esses impactos reforçam a necessidade de atenção aos desafios ambientais vivenciados na Amazônia.
Moradora do bairro Base há 38 anos, a dona de casa Elen Lopes afirma que as mudanças climáticas têm sido percebidas de forma cada vez mais intensa pela população.
“Com certeza tem sido mais quente, o clima a cada ano e estação são diferentes. Às vezes nem sabemos quando estamos no inverno ou no verão. As coisas mudam muito de um ano para o outro”, relata.
Segundo ela, o principal desafio continua sendo enfrentar o calor extremo. “Temos que nos refrescar o tempo todo e tomar bastante água.
Elen conta que recorre aos ventiladores, ar-condicionado, e vários banhos ao longo do dia, além de reforçar a hidratação com garrafas de água, para amenizar a situação vivenciada pelas mudanças climáticas.
O aumento da sensação térmica também é uma tendência observada pelos especialistas. Em análise divulgada no portal O Tempo Aqui, o meteorologista Davi Friale destaca que o centro de Rio Branco poderá ficar ainda mais quente nos próximos anos. A estimativa é de aumento de até 2°C na temperatura real e de até 4°C na sensação térmica em dias de forte insolação e pouca ventilação.
De acordo com o pesquisador, o fenômeno é provocado pelas chamadas “ilhas de calor”, comuns em áreas urbanas. “Quanto maior a cidade, maior será a diferença de temperatura entre o centro e os bairros mais afastados. O asfalto e outras superfícies escuras absorvem grande parte da radiação solar e transferem esse calor para o ar, elevando as temperaturas nas regiões mais urbanizadas”, explica.
El Niño favorece seca e aumento das temperaturas
A equipe técnica da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) explica que o El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica e afeta o regime de chuvas em diversas regiões do planeta.
No Acre, os reflexos costumam ser sentidos principalmente pela redução das chuvas e pelo aumento das temperaturas. Segundo os técnicos, a combinação desses fatores contribui para a intensificação das secas e pode provocar impactos em rios, abastecimento de água, transporte fluvial, pesca e acesso de comunidades isoladas a serviços essenciais.
“A experiência de 2024 serve de alerta. Naquele ano, diversos rios registraram níveis críticos. Diante da possibilidade de uma nova atuação do fenômeno, o Governo do Estado já iniciou reuniões estratégicas por meio do Gabinete de Crise Hídrica para planejar ações preventivas e reduzir possíveis impactos sociais, ambientais e econômicos previstos para o segundo semestre de 2026”, relata a equipe técnica da Sema.
Queimadas e escassez hídrica
Para o coordenador da Defesa Civil Municipal de Rio Branco, tenente-coronel Cláudio Falcão, o El Niño cria um cenário favorável para eventos extremos.
“O fenômeno faz com que tenhamos menos chuva na região amazônica. Com as chuvas abaixo da média, as temperaturas aumentam e a umidade relativa do ar cai, podendo atingir níveis críticos”, explica.
Segundo ele, essa combinação eleva significativamente os riscos de queimadas e de escassez hídrica. “Tanto a falta de água quanto as queimadas tendem a aumentar à medida que chove menos, as temperaturas sobem e a umidade do ar diminui”, ressalta.
Para enfrentar os possíveis impactos, a Defesa Civil já prepara a execução de três planos de contingência: seca, estiagem e combate às queimadas. As ações incluem o monitoramento de rios, igarapés, poços e reservatórios, além do acompanhamento das temperaturas e da umidade do ar.
Falcão explica que, em caso de agravamento da estiagem, caminhões-pipa poderão ser utilizados para abastecer produtores rurais e comunidades afetadas. O trabalho também contará com apoio de órgãos como as secretarias de Saúde e Agricultura.
Queda nos focos de calor
Apesar das preocupações com o período seco, os dados mais recentes apontam avanços no combate às queimadas. Conforme levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), citado pela Sema, o Acre registrou apenas 21 focos de calor entre janeiro e maio de 2026, o menor número entre os estados brasileiros.
O resultado representa uma redução de aproximadamente 58% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizados 51 focos.
A equipe técnica destaca que o fogo tem se consolidado como um dos principais vetores da degradação ambiental na Amazônia. Com menos chuvas e temperaturas mais elevadas durante os eventos de El Niño, a vegetação fica mais seca e suscetível à propagação de incêndios florestais.
Para reforçar a prevenção, o governo estadual mantém em andamento a Operação Amburana, que reúne a Sema, o Batalhão de Policiamento Ambiental (BPA), o Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer) e o Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) em ações de monitoramento e fiscalização.
Recomendações à população
Diante da previsão de temperaturas elevadas e baixa umidade do ar, a Defesa Civil orienta a população a adotar medidas de autocuidado. Entre as recomendações estão evitar atividades físicas entre 10h e 16h, reforçar a hidratação, utilizar protetor solar, chapéus e roupas adequadas para exposição ao sol e evitar desperdício de água.
“É importante não realizar queimadas e buscar formas de manter os ambientes mais úmidos dentro de casa, especialmente durante os períodos mais secos do ano”, relata o coronel Falcão.
Enquanto autoridades e especialistas monitoram os efeitos do fenômeno climático, moradores como Elen Lopes seguem tendo que se reinventar e adaptar à nova realidade do calor intenso e das temperaturas cada vez mais altas.



