
Um hábito tradicional e rotineiro entre famílias que praticam a caça de subsistência na Amazônia Ocidental tem funcionado como uma ponte para a transmissão de uma doença grave, crônica e potencialmente fatal para os seres humanos. Um estudo científico conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Acre (Ufac), da Fundação Hospital Estadual do Acre (Fundhacre) e do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) identificou que o costume de alimentar cães domésticos com as vísceras cruas da paca (Cuniculus paca) insere os animais de estimação no ciclo de transmissão do parasita Echinococcus vogeli, causador da equinococose policística neotropical — popularmente conhecida na região como “doença da paca”.
Análises laboratoriais realizadas em fígados de pacas abatidas por caçadores nos municípios de Rio Branco e Sena Madureira revelaram que 48% das amostras continham cistos característicos do verme. A confirmação foi obtida por meio de testes moleculares de reação em cadeia da polimerase (PCR), que identificaram dois perfis genéticos específicos (haplótipos Hap_1 e Hap_2), atestando que a infecção é endêmica na floresta acreana.

Pesquisadores pedem programas de vermifugação e alertas sobre os riscos de alimentar cães com carne de caça crua/ Foto: Reprodução
No ecossistema natural, o parasita circula de forma restrita entre animais silvestres. O hospedeiro definitivo original é o cachorro-do-mato (Speothos venaticus), em cujo intestino o verme se reproduz, liberando ovos que são expelidos por meio das fezes na mata. A paca atua como hospedeiro intermediário: ao ingerir vegetação ou água contaminada por esses ovos, desenvolve cistos hidáticos, principalmente no fígado. Na natureza, o ciclo se fecha quando um cachorro-do-mato devora uma paca infectada.
A pesquisa, desenvolvida entre maio de 2022 e dezembro de 2023, mapeou o comportamento social de 78 famílias residentes em cinco comunidades tradicionais do Acre: Cazumbá-Iracema, Novo Amparo, Joaquim José de Matos e São José (em Sena Madureira), além de Vila Verde (em Rio Branco). Do total de entrevistados, 78% declararam depender da caça para o consumo de proteína animal ao longo do ano.
O cruzamento de dados socioculturais revelou o mecanismo de vulnerabilidade:
-
Presença de animais: Todas as propriedades rurais monitoradas possuíam cães, totalizando 194 animais (média de até oito por residência);
-
Atividade de campo: A grande maioria dos cães (83%) acompanhava ativamente seus proprietários nas incursões de caça pelas matas;
-
Alimentação de risco: Cerca de 80% dos cachorros consumiam de forma habitual as vísceras cruas dos animais abatidos, com predileção pelo fígado das pacas.
Ao ingerir o órgão contaminado, o cão doméstico assume o papel que cabia ao cachorro-do-mato, tornando-se o novo hospedeiro definitivo. O cão passa a eliminar os ovos do parasita em suas fezes no quintal das residências, abrindo caminho para que o ser humano seja infectado acidentalmente por meio do contato com as mãos, objetos ou alimentos contaminados.
A equinococose policística em humanos é descrita como uma patologia de evolução lenta e extremamente silenciosa. Os sintomas clínicos iniciais que englobam febre, dores na parte superior direita do abdômen, episódios de náusea e perda de peso progressiva demoram meses ou anos para se manifestarem após a contaminação. Pelo caráter vago e inespecífico, o quadro é rotineiramente confundido por equipes médicas com gastrite, hepatite ou cálculos na vesícula biliar, fator que retarda o início do tratamento adequado.
Com o crescimento contínuo dos cistos no organismo humano, o tecido parasitário passa a comprimir os canais biliares, desencadeando icterícia persistente (pele e olhos amarelados). Em aproximadamente 25% dos pacientes infectados, a doença evolui para quadros de hipertensão portal e hemorragias digestivas severas que podem levar ao óbito. Em situações mais graves e invasivas, as estruturas do parasita rompem a barreira do diafragma, migrando e infiltrando-se na cavidade torácica.
O diagnóstico preciso na rede de saúde baseia-se em exames de imagem, como ultrassonografia e tomografia computadorizada, que detectam um padrão quase patognomônico (exclusivo) de lesões císticas com bordas irregulares e pontos de calcificação. O protocolo terapêutico de cura, conforme validado pelos históricos clínicos, exige a combinação de intervenção cirúrgica para a remoção dos cistos associada a ciclos do medicamento antiparasitário albendazol. Os médicos ressaltam que os medicamentos devem ser introduzidos, preferencialmente, antes que os cistos sofram calcificação total, estágio que os torna impermeáveis aos fármacos.
