O degelo do permafrost torna o solo entre 25 e 100 vezes mais permeável, o que facilita o escape acelerado de gases do efeito estufa para a atmosfera. É o que pesquisadores da Universidade de Leeds (Reino Unido) demonstraram num estudo publicado na edição de março da revista Earth’s Future.
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O permafrost é um tipo de solo que permanece completamente congelado por ao menos dois anos consecutivos. Ele não é composto apenas de gelo, mas sim por uma mistura de terra, pedras e areia, unidos por água congelada.
Além disso, o permafrost armazena cerca de 1.700 bilhões de toneladas de carbono (três vezes a quantidade presente na atmosfera hoje em dia).
Como o Ártico aquece quatro vezes mais rápido que o restante do planeta, a liberação desse estoque em forma de dióxido de carbono e metano pode criar um ciclo de retroalimentação. Nele, o calor acelera o degelo, que por sua vez libera mais gases aceleradores do efeito estufa.
“A liberação de enormes quantidades de carbono armazenadas em solos previamente congelados, predominantemente no Ártico, representa um perigo muito real”, alertou o líder da equipe de pesquisadores, professor Paul Glover, em comunicado publicado na terça-feira (31).
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Os experimentos conduzidos no Laboratório de Petrofísica de Leeds revelaram que a maior alteração na permeabilidade não é linear. Ela ocorre predominantemente na faixa de -5ºC a -1ºC.
Esse intervalo representa a zona na qual o solo congelado começa a amolecer e se reorganizar internamente. Isso permite que os gases fluam com muito mais facilidade através dos poros antes obstruídos pelo gelo.
Para alcançar esses resultados, a equipe liderada pelo professor Glover utilizou um picno-permeômetro e metodologias originalmente desenvolvidas pela indústria de combustíveis fósseis para estudar o movimento de fluidos em rochas reservatórias.
A adaptação dessas ferramentas permitiu medir com precisão a fração e a condutividade dos gases em amostras de permafrost sintético submetidas a variações térmicas controladas entre -18ºC e 5ºC.
Permafrost não é composto apenas de gelo, mas sim por uma mistura de terra, pedras e areia, unidos por água congelada – Imagem: Einar Magnus Magnusson/Shutterstock
Além dos impactos climáticos, o aumento da porosidade do solo apresenta riscos diretos à saúde humana devido à liberação de radônio, gás radioativo de ocorrência natural associado ao câncer.
O estudo alerta que a maior permeabilidade facilita o escape deste gás para comunidades do norte, o que pode representar um risco ambiental significativo para as populações que habitam regiões árticas e subárticas.
Estatísticas indicam que a Região de Permafrost Circumpolar Ártica (ACPR) deve sofrer uma perda de 42% de sua extensão até 2050 devido ao aquecimento global.
Historicamente, essa camada de solo congelado funcionou como uma “tampa” para o carbono acumulado. Mas as novas projeções sugerem que o Ártico pode se tornar uma fonte maior (e mais rápida) de emissões. Isso teria impactos irreversíveis.
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(Essa matéria usou informações de Earth’s Future e Universidade de Leeds.)
Pedro Spadoni
Pedro Spadoni é jornalista formado pela Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep). Já escreveu para sites, revistas e até um jornal. No Olhar Digital, escreve sobre (quase) tudo.
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Fonte: Olhar Digital
