O sucesso de O Agente Secreto ultrapassou as telas e as premiações internacionais. Durante o Carnaval — uma das festas mais aguardadas do ano no Brasil — o orgulho pelo cinema nacional ganhou as ruas em fantasias e temas de blocos inspirados no longa de Kleber Mendonça Filho.
É o caso do bloco A Gente é Secreto, que desfilou em 11 de fevereiro, na Lapa, em São Paulo, reunindo fãs do filme e celebrando a produção brasileira. O cortejo contou com adesivos dos personagens, referências à “perna cabeluda” e citações marcantes do roteiro, ambientado no Recife de 1977, em meio à ditadura.
Em Brasília, o bloco Aves Migratórias levou às ruas foliões caracterizados como Dona Sebastiana, personagem icônica interpretada por Tânia Maria; Marcelo, protagonista vivido por Wagner Moura, e até mesmo de “perna cabeluda” gigante.
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Danilo Castro se vestiu de Dona Sebastiana
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Foliões se vestem de Marcelo, Perna Cabeluda e Dona Sebastiana em bloco do DF
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Foliã se fantasia de Liza e Elis no Carnaval
Ao Metrópoles, o ator Danilo Castro explicou a escolha da homenagem. “Em tão pouco tempo ela se tornou uma figura icônica do cinema nacional, carismática e capaz de nos fazer apaixonar ainda mais pelo nosso povo e pela nossa cultura. Por isso, resolvi homenageá-la em sua essência e irreverência”, explicou.
No tradicional Bloco das Carmelitas, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, uma foliã foi além e se fantasiou de Liza e Elis, a emblemática gata de duas cabeças do filme. A caracterização fez tanto sucesso que foi compartilhada pelo próprio Kleber Mendonça Filho nas redes sociais. “Meu Instagram vai virar galeria de foto de Carnaval. São muito bons”, elogiou o cineasta.
Cinema brasileiro como enredo de Carnaval de rua
Desfilando desde 2010, o bloco carioca Butano na Bureta transformou o cinema nacional em enredo do Carnaval 2026. O cortejo foi às ruas no dia 7 de fevereiro, no sábado que antecedeu oficialmente o Carnaval do Rio de Janeiro, com o tema “O Oscar vai para o Brasil”.
Além de O Agente Secreto, indicado em quatro categorias ao Oscar, o enredo também reverenciou Ainda Estou Aqui, que brilhou na cerimônia de 2025 ao conquistar o histórico prêmio de Melhor Filme Internacional.
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“[O enredo] surgiu a partir da percepção de que o cinema brasileiro vive um momento de grande orgulho coletivo e reconhecimento internacional, com filmes e artistas circulando em grandes festivais e premiações. O Carnaval de rua sempre dialogou com o presente, com o que está em ebulição no imaginário popular, e entendemos que esse entusiasmo já fazia parte das conversas nas ruas”, explicou Rafael França, co-fundador e um dos produtores do bloco.
O bloco nasceu vinculado ao Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), criado por ex-alunos e servidores, e mantém até hoje uma relação direta com a educação pública. Segundo Rafael, levar o tema para as ruas “é uma forma de reforçar esse compromisso com a formação cultural e com o acesso”. “Acreditamos que arte e conhecimento devem circular no espaço público.”

Ele também destaca que o cinema brasileiro é fruto de políticas públicas e de resistência de artistas. Por isso, considera que celebrar a produção nacional nas ruas é um gesto político, visto que o Carnaval ocupa um espaço público e popular.
“É também afirmar que a cultura não deve ser restrita às elites ou a espaços fechados. Quando levamos o cinema para a rua, estamos dizendo que essas histórias pertencem a todo mundo“, ressalta.
Boom do cinema no Carnaval
Para a especialista em comportamento humano Ana Beatriz Dias Pinto, professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o aumento das homenagens ao cinema brasileiro no Carnaval reflete uma mudança simbólica importante na forma como o país enxerga a própria produção cultural.
Segundo ela, quando filmes nacionais passam a ser celebrados em desfiles e blocos, isso indica que as narrativas criadas por diretores brasileiros encontraram na festa popular um território de amplificação — ou seja, o cinema passou a ocupar um espaço mais amplo no imaginário social. A professora avalia ainda que esse movimento está ligado a uma transformação na construção da autoestima nacional.

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Bloco Butano na Bureta
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Bloco Butano na Bureta celebrou O Agente Secreto em 2026
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Bloco Butano na Bureta
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Bloco Butano na Bureta celebrou O Agente Secreto em 2026
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“O que ocorre agora é uma convergência entre prestígio externo e apropriação interna. O público brasileiro está redescobrindo o próprio cinema. Quando o Carnaval homenageia um filme, ele legitima essa revalorização. Ele diz, simbolicamente: ‘essa história é nossa e temos orgulho do que é produzido pela nossa gente’”, afirma.
Ana Beatriz ressalta que a escolha de homenagear obras como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto tem relação com a “memória e história” do país. “Nosso Carnaval sempre foi político-social, nunca foi uma festa neutra. Desde sua estruturação nas ruas, ocorrida por exclusão social, os primeiros enredos denunciavam desigualdades. Passamos por diversas fases de crítica social. O que ocorre agora é uma politização mediada pelo cinema”, conta.
“Essas recentes obras homenageadas tratam de temas fortes, que remetem à nossa memória histórica, à violência estatal, à desigualdade, aos conflitos urbanos. Então, essa aproximação entre cinema e o Carnaval intensifica debates sobre nossa história de forma popular e performática, com o viés da alegria, da música, da brincadeira, mas também entregando nuances reflexivas quanto a temas de impacto social, como é o caso da ditadura”, completa.
