A morte do cão comunitário Orelha, ocorrida na Praia Brava, área nobre e turística de Florianópolis, continua gerando questionamentos mesmo após a conclusão do inquérito policial. A investigação, encerrada nesta semana, apontou um adolescente como responsável pelas agressões que levaram à morte do animal, mas o processo foi marcado por lacunas, contradições e mudanças de versões ao longo do tempo.
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Segundo a Polícia Civil, Orelha sofreu uma pancada forte na cabeça, possivelmente causada por um chute ou por um objeto rígido, como um pedaço de madeira ou uma garrafa. O cachorro foi resgatado por populares no dia seguinte e morreu em uma clínica veterinária devido ao agravamento da lesão. A corporação reforçou que não existem imagens do momento exato da agressão.
Inicialmente, a polícia chegou a informar que o animal teria passado por eutanásia, hipótese posteriormente descartada após a conclusão do laudo da Polícia Científica, que confirmou a morte causada pelo trauma craniano.
Mudanças de horários e imagens sem registro da agressão
Um dos principais pontos de controvérsia envolve os horários divulgados pela própria Polícia Civil. Em um primeiro momento, a corporação informou que imagens de câmeras de segurança mostravam o adolescente saindo de um condomínio às 5h25 e retornando às 5h58 do dia 4 de janeiro, intervalo em que as agressões teriam ocorrido, por volta das 5h30.
No entanto, posteriormente, a polícia esclareceu que os registros divulgados indicavam, na verdade, a saída do adolescente às 6h35 e o retorno às 6h37. As imagens apresentadas foram classificadas como “ilustrativas”, já que não registram o momento da agressão nem mostram o contato do suspeito com o animal.
De acordo com a delegada Mardjoli Valcareggi, da Delegacia de Proteção Animal (DPA), a autoria foi apontada a partir do cruzamento de dados obtidos na análise de mais de mil horas de imagens de câmeras de monitoramento da região, além de depoimentos de testemunhas e contradições no relato do adolescente.
Contradições no depoimento
Segundo o delegado Renan Balbino, da Delegacia Especializada no Atendimento de Adolescentes em Conflito com a Lei, o jovem apresentou versões inconsistentes durante a oitiva. Ele afirmou que permaneceu dentro do condomínio durante todo o período, mas imagens, testemunhas e registros indicam que ele esteve na praia no intervalo investigado.
“O adolescente se contradisse em diversos momentos e omitiu fatos importantes para a investigação”, afirmou Balbino. Ainda segundo o delegado, é possível que apenas uma pessoa tenha causado os ferimentos que levaram à morte do animal.
Internação provisória e outros indiciamentos
A Polícia Civil representou o adolescente por ato infracional análogo ao crime de maus-tratos e solicitou a internação provisória. Segundo Balbino, o pedido se baseia na gravidade do caso, na repercussão social e no histórico do jovem, que já teria sido apontado como autor de outros atos infracionais, como furto, dano, injúria e ameaça.
Além disso, três adultos — pais e um tio de adolescentes investigados — foram indiciados por suspeita de coação a uma testemunha. O crime teria sido cometido contra o vigilante de um condomínio que possuía uma imagem considerada relevante para a apuração.
Menina flagrada em vídeo não presenciou agressões
A Polícia Civil também esclareceu que a menina que aparece em um dos vídeos ao lado do adolescente não presenciou as agressões. Segundo a delegada Mardjoli Valcareggi, ela foi ouvida e teve seu envolvimento descartado após a análise detalhada das imagens e dos depoimentos.
Defesa contesta investigação
A defesa do adolescente, representada pelo advogado Alexandre Kale, afirma que há fragilidade nos indícios apresentados pela polícia. Segundo ele, não existem imagens do momento da agressão nem testemunhas diretas que comprovem a autoria do ato.
Apesar da conclusão do inquérito, o caso segue gerando debate público e questionamentos sobre a condução da investigação, especialmente diante das revisões de informações divulgadas ao longo do processo.
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