Itália abre investigação sobre suposto ‘safári humano’

Promotores de Milão, na Itália, apuram a possível participação de um idoso italiano, de 80 anos, em viagens organizadas para atirar contra civis durante o cerco a Sarajevo, episódio marcante da Guerra da Bósnia (1992-1996).

A investigação foi aberta em novembro de 2025, pelo Ministério Público italiano após surgirem relatos de que cidadãos do país teriam desembolsado dinheiro para ir até a capital Bósnia com o objetivo de disparar contra moradores sitiados, em ações descritas como motivadas “por diversão”.

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De acordo com a imprensa local, o investigado é um caminhoneiro aposentado que vive na província de Pordenone, no norte italiano. A identidade dele não foi revelada. As suspeitas envolvem crimes de homicídio premeditado com agravantes relacionados à motivação.

Até o momento, não há confirmação se o homem teria participado diretamente dos ataques ou se teria atuado na parte logística, como transporte e apoio aos envolvidos. Ele responde às investigações em liberdade.

Jornalista revela suspeitas

O jornalista Ezio Gavazzeni, responsável por divulgar as suspeitas, afirmou que o procurador Alessandro Gobbis já identificou um dos investigados e determinou que ele preste depoimento nos próximos dias. A convocação, segundo o jornalista, faz parte dos procedimentos iniciais e não representa, por si só, comprovação de culpa.

A investigação conduzida pela Procuradoria de Milão, liderada por Marcello Viola, teve início após reportagens de Gavazzeni levantarem dúvidas sobre a participação de italianos em deslocamentos até Sarajevo durante a Guerra da Bósnia, entre 1992 e 1995.

De acordo com a apuração jornalística, durante o longo cerco à capital Bósnia, que manteve milhares de civis sob constante ameaça de ataques, estrangeiros teriam se juntado às forças sitiantes para realizar disparos contra moradores.

Esses indivíduos atuariam como franco-atiradores posicionados em áreas elevadas ao redor da cidade. Uma via da capital chegou a ficar conhecida como “rua dos snipers” devido à frequência dos tiros.

As investigações também apontam que esses participantes teriam desembolsado quantias elevadas para milícias locais, com valores estimados entre 80 mil e 100 mil euros, cerca de (R$ 496 mil e R$ 621 mil), em troca da possibilidade de realizar os disparos contra civis.

Documentário reacende investigação sobre “turismo de guerra”

O jornalista afirma que aprofundou as apurações sobre o chamado “turismo de guerra” após assistir ao documentário Sarajevo Safari (2022), dirigido pelo esloveno Miran Zupanic. A produção reúne relatos e indícios de que estrangeiros teriam viajado à região dos Bálcãs durante o conflito para participar de ações armadas.

Segundo Gavazzeni, parte dos suspeitos italianos se reunia em Trieste antes de seguir para Belgrado. De lá, com apoio de forças sérvias da Bósnia, alguns teriam sido levados a áreas elevadas ao redor de Sarajevo, de onde seria possível visualizar a cidade sitiada.

O cerco de Sarajevo, um dos episódios mais marcantes da Guerra da Bósnia (1992–1996), resultou em cerca de 11,5 mil mortes e mais de 60 mil feridos. O período ficou conhecido pelos ataques frequentes de franco-atiradores contra civis, que viviam sob risco constante. Posicionados em pontos estratégicos, esses atiradores realizavam disparos contra a população de forma imprevisível, ampliando o clima de terror.

As autoridades italianas investigam se, entre esses atiradores, havia estrangeiros motivados por fascínio por armas ou ligados a grupos extremistas. A abertura de inquéritos reacendeu a expectativa de sobreviventes por responsabilização judicial.

Gavazzeni também anunciou o lançamento de um livro sobre o tema, previsto para março, no qual promete apresentar novas informações e possíveis envolvidos. De acordo com ele, as revelações podem ampliar o alcance das investigações e trazer novos desdobramentos ao caso.

Denúncia em Milão cita presidente da Sérvia

Uma denúncia protocolada na promotoria de Milão colocou o nome do presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, no centro de novas apurações relacionadas ao cerco de Sarajevo, durante a Guerra da Bósnia. Vucic teria integrado o Novo Destacamento Chetnik de Sarajevo, liderado pelo comandante Slavko Aleksic.

O jornalista croata Domagoj Margetic afirma ter encaminhado às autoridades italianas documentos, depoimentos e registros audiovisuais que, segundo ele, indicariam a presença de Vucic ao lado de forças sérvias no período do conflito.

De acordo com a acusação, Vucic teria atuado como voluntário em uma unidade associada a grupos sérvios posicionados em áreas estratégicas da capital Bósnia, locais de onde partiam disparos de atiradores contra a cidade sitiada. Margetic sustenta que um vídeo de 1993 mostraria o então jovem político, à época com 23 anos, próximo a homens armados e portando equipamento de precisão.

Na comunicação enviada aos procuradores, o jornalista também alega que Vucic teria desempenhado funções de apoio, como intermediação linguística para estrangeiros que se deslocavam à região.

As afirmações integram o conjunto de materiais apresentados para análise das autoridades, que avaliam o conteúdo dentro das investigações em andamento. Até o momento, as alegações fazem parte de denúncias e apurações jornalísticas, e não representam conclusões judiciais.

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