A crescente visibilidade internacional do cinema brasileiro nos últimos dois anos, impulsionada por filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, tem rendido prêmios relevantes da indústria cinematográfica e reacendeu o debate sobre os impactos dessas conquistas para o país.
Este movimento ficou ainda mais em evidência com a campanha de Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, que conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional e o Globo de Ouro de Melhor Atriz, prêmio entregue a Fernanda Torres em 2025.
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Já em 2026, vieram novas conquistas: O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, venceu duas categorias no Globo de Ouro e está bem posicionado nas temporadas de premiações para receber algumas indicações ao Oscar, de acordo com veículos internacionais especializados como a revista Variety ou o site Gold Derby.
A evidência em premiações desse porte, no entanto, vai além do prestígio artístico e da comemoração nas redes sociais. O reconhecimento internacional movimenta toda a cadeia da produção audiovisual brasileira e amplia a visibilidade do Brasil como polo criativo, abrindo espaço para novos investimentos estrangeiros e parcerias internacionais.

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Equipe de O Agente Secreto durante o Globo de Ouro
Michael Buckner/2026GG/Penske Media via Getty Images

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Selton Mello com a estatueta do Globo de Ouro em 2025
Reprodução/Instagram

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Wagner Moura ganhou como Melhor Ator de Drama no Globo de Ouro 2026
Rich Polk/2026GG/Penske Media via Getty Images

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Walter Salles segundo o Oscar brasileiro de Melhor Filme Internacional por Ainda Estou Aqui
Jeff Kravitz/FilmMagic

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Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura na 83ª edição anual do Globo de Ouro
Rich Polk/2026GG/Penske Media via Getty Images

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Wagner Moura e a esposa, Sandra Delgado, no Globo de Ouro 2026
Christina House/Los Angeles Times via Getty Images

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Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho no Critics Choice Awards
Kevin Winter/Getty Images for Critics Choice Association
Investimento estrangeiro
Segundo o crítico de cinema Marcio Sallem, o Brasil tem aproveitado, já nos últimos anos, a abertura de mercados internacionais para o audiovisual brasileiro.
“Isso pode ser percebido na pluralidade de cineastas brasileiros que fazem produções ou coproduções internacionais. Eles financiam seus filmes não apenas através das leis de incentivo nacionais, mas também através de fundos e parcerias fora do Brasil”, explica.
Os efeitos dessa projeção já aparecem nos números da indústria cultural. Dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine) indicam crescimento significativo nos pedidos de Reconhecimento Provisório de Coprodução Internacional feitos por produtoras brasileiras independentes.
Foram registrados 56 pedidos em 2023, número que saltou para 119 em 2024 e chegou a 140 solicitações em 2025, evidenciando o fortalecimento das parcerias internacionais no setor audiovisual.

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Cena do filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
Divulgação

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Cena de Wagner Moura no filme O Agente Secreto
Victor Jucá/Divulgação

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Wagner Moura e Kleber Mendonça nos bastidores de O Agente Secreto

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Wagner Moura em O Agente Secreto
Divulgação

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Wagner Moura em O Agente Secreto
Divulgação

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Alice Carvalho como Fátima em O Agente Secreto
Foto: Divulgação

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Alice Carvalho como Fátima e Wagner Moura como Marcelo em O Agente Secreto
Foto: Victor Juca/Divulgação

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Sebastiana, de O Agente Secreto
Foto: Reprodução/O Agente Secreto

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Wagner Moura em cena do filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
Divulgação

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Maria Fernanda Candido em O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
Cinema Scopio/Divulgação

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O Agente Secreto
Divulgação
As próprias produções premiadas refletem esse modelo de cooperação. Ainda Estou Aqui é uma coprodução entre Brasil e França, enquanto O Agente Secreto foi realizado em parceria com Alemanha, França e Holanda, reforçando a inserção do cinema nacional no circuito global.
Para a crítica de cinema Fabiana Lima, o Brasil também tem ampliado a presença em mercados internacionais, como o Marché du film (Mercado do Filme, em tradução para português) de Cannes, em 2024.
“Em 2024, nós tínhamos o maior estande de todos (no festival) e isso é muito importante porque esses espaços atraem as coproduções. As empresas vão lá e se interessam não apenas por coproduzir filmes nacionais, mas também por filmar no Brasil”, refletiu.
Segundo a especialista, existem vantagens fiscais para filmar no Brasil, o que pode ajudar a movimentar ainda mais a economia industrial audiovisual do país. Como exemplo, ela cita o que vem ocorrendo no Reino Unido e a filmagem de grandes produções.
“[Eles] facilitam a filmagem de produções gigantescas, de altos orçamentos, em seus países e isso movimenta a economia industrial audiovisual local”, frisou Fabiana.
Além deles, Miriam Spritzer, integrante da Hollywood Creative Alliance,organizadora do Astra Awards, complementa o pensamento de que o reconhecimento internacional se traduz em vendas e parcerias internacionais. Para ela, isso acaba tornando o cinema um produto lucrativo e atraente para investidores e indústrias paralelas.
Entre os exemplos citados, ela menciona a parceria cultural recorrente entre Brasil e França, que envolveu desde festivais de cinema a até mesmo ações de turismo.
Ela exemplifica ao citar a Coréia do Sul, que fez um longo trabalho de e investimento que é colhido hoje com sucesso como o Guerreiras do K-pop, parceria do país asiático com os Estados Unidos, e o fenômeno de outras produções como Round 6 e Parasita.

“Hoje a gente tem uma visão da Coreia do Sul muito diferente do que a gente teria há 20 anos atrás”, destaca. Para ela, o cinema pode fazer um caminho semelhante à propaganda, incentivando as pessoas a conhecer determinado país e determinadas culturas.
Futuro da indústria
A grande repercussão de prêmios e conquistas que o cinema brasileiro vem alcançando também pode ser vista como um combustível essencial para o futuro da indústria, de acordo com Fabiana. Para ela, essa visibilidade abre espaço para que o audiovisual seja uma possibilidade para uma nova geração de talentos.
“Esse tipo de prêmio também traz um gás para esses jovens, que estão querendo trabalhar com o cinema no Brasil e que sabem que é uma profissão desafiadora, para dizer o mínimo”, analisa.

A projeção de obras nacionais também contribui para a geração de empregos e para a movimentação das salas de cinema, dentro e fora do Brasil.
O Agente Secreto, lançado em novembro de 2025, arrecadou cerca de R$ 27 milhões em exibições internacionais, segundo dados do Box Office Mojo. Já Ainda Estou Aqui tornou-se a terceira maior bilheteria global de um filme brasileiro na história, com aproximadamente R$ 200 milhões arrecadados.
Além do impacto econômico, a visibilidade internacional tem potencial para transformar a percepção do público no próprio país. Mirian, que vive fora do Brasil, avalia que a força da cultura nacional ainda precisa ser mais reconhecida pelos próprios brasileiros, para além de grandes produções premiadas.
“Eu sempre brinquei que eu escutei mais Bossa Nova morando em Nova York do que morando no Brasil. Isso é um exemplo básico”, relata.
“Às vezes, eu noto isso também, que o cinéfilo americano, cinéfilo europeu, ele conhece os diretores brasileiros e muitas vezes nós não conhecemos os nossos diretores”, completa.
