“Foi uma vez na vida”: mãe relata saída rápida e nega abandono de filho com deficiência

Ele foi encontrado no sábado (10) em estado crítico, apresentando sinais evidentes de desnutrição e desidratação, além de estar sujo de urina e fezes

Um episódio ocorrido no último fim de semana, em Rio Branco, provocou forte repercussão social após o resgate de uma criança de 12 anos com paralisia cerebral em condições extremamente graves. O caso foi registrado em uma residência localizada no Ramal do Canil, no bairro Vila Acre, área do Segundo Distrito da capital acreana.

O menino, diagnosticado com encefalopatia crônica, não possui mobilidade, permanece acamado e depende de assistência permanente. Ele foi encontrado no sábado (10) em estado crítico, apresentando sinais evidentes de desnutrição e desidratação, além de estar sujo de urina e fezes. Uma lesão extensa foi identificada na região das costas, o que agravou ainda mais o quadro clínico.

Geriane de Souza Lima, de 33 anos, contestou a acusação de abandono: | Foto: TV 5

A situação chegou às autoridades após denúncia feita pelo pai da criança, Cleber Wellington Cavalcante de Souza. Ele relatou que vizinhos o alertaram sobre a ausência prolongada da mãe no imóvel. Ao ir até o local, afirmou ter encontrado o filho sem os cuidados necessários e acionou imediatamente os órgãos competentes. Cleber também informou que já havia registrado anteriormente uma denúncia por abandono junto ao Ministério Público e disse confiar na atuação da Justiça.

Mãe nega abandono e relata dificuldades

Em entrevista concedida à TV 5, a mãe do menino, Geriane de Souza Lima, de 33 anos, contestou a acusação de abandono. Segundo ela, a situação ocorreu após uma saída pontual e não representa sua rotina diária de cuidados com o filho. Geriane afirmou que havia se ausentado por pouco tempo para jantar e comprar um energético e, ao retornar, encontrou a presença da polícia no local.

Ela reconheceu que, naquele momento, o filho não estava em condições adequadas, mas destacou que as lesões mencionadas surgiram recentemente e não são fruto de negligência contínua.

O menino, diagnosticado com encefalopatia crônica, não possui mobilidade, permanece acamado e depende de assistência permanente| Foto: ContilNet

“Então, na noite de ontem, né, eu saí, uma vez na vida, saí pra jantar, difícil eu sair, difícil porque eu não tenho como tá saindo sempre, porque a gente que é mãe, a gente sabe a dificuldade. Então eu saí, parei em uma distribuidora pra comprar um energético, e aí quando deu alguns minutos que eu iria pra casa, cheguei em frente da casa, já estava lá a polícia e tudo lá. Não vou dizer que eu negligenciei, meu filho não estava em situação adequada. Mas nós, como mães de crianças especiais, ainda mais eu que tenho quatro filhos, o Nicolas tem mais duas pequenas e tem uma de 14 anos, não é fácil. E ser mãe solteira, principalmente”, disse.

Acusações ao pai e relato de sobrecarga emocional

Geriane também afirmou que enfrenta uma rotina extremamente desgastante por cuidar sozinha de quatro filhos, sendo um deles com deficiência severa. Segundo ela, o pai da criança jamais ofereceu auxílio efetivo nos cuidados diários.

“Ele [o pai] nunca chegou pra mim para dizer: vou aí te ajudar a dar um banho. Estou psicologicamente abalada há muito tempo, desde a minha separação. Porque eu dediquei a minha vida a ele. Até hoje, meus filhos só não morrem de fome por conta da minha família. Eu sei o que eu batalhei por ele (o filho). Eu sei as noites que eu passei de sono cuidando dele, que ele nunca cuidou. O pai agora apareceu aí querendo ser o paizão que nunca cuidou. Nunca passou a noite acordado com ele no hospital. Eu carreguei nove meses, eu que passei por cirurgia. Então agora é um erro que a gente comete um dia, anula toda a nossa trajetória de mãe?”, indagou.

Ela também relatou que o desgaste emocional tem sido constante, agravado pela ausência de apoio paterno.

“Tem dias que eu não tinha força nem pra me levantar da cama. Tem dias que a gente se encontra assim, debilitada, é muito trabalho. E você olhar pra um lado e para o outro, você sozinha, entendeu? Sem um apoio do pai, sem nada Agora ele nunca deu apoio, a gente separou, tá com um ano, ele nunca foi visitar os filhos, agora ele vem dizer que é um pai presente?”, desabafou.

Atendimento e investigação

Após a denúncia, policiais do 2º Batalhão da Polícia Militar foram acionados e, ao constatarem a gravidade da situação, solicitaram o apoio do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). A criança foi levada ao Pronto-Socorro de Rio Branco e, posteriormente, transferida para o Hospital da Criança, onde permanece internada sob cuidados médicos.

O caso será formalmente registrado na Delegacia da Criança e do Adolescente. Um inquérito policial será instaurado para apurar os fatos, ouvir as partes envolvidas e definir eventuais responsabilidades legais.