
“Ela tinha todos os trejeitos de criança, a voz doce e bem meiga.” O relato da responsável por uma casa de acolhimento em Montes Claros (MG) ajuda a explicar como Amanda Maria Souza de Oliveira, de 37 anos, conseguiu convencer pessoas de que era uma adolescente. Presa após ser descoberta, ela chamava atenção pelo comportamento infantil, pelos pedidos de colo e por histórias dramáticas que sensibilizavam quem cruzava seu caminho.
Antes de ganhar repercussão nacional ao ser acusada de enganar uma família em Joinville (SC) ao fingir ter 12 anos, Amanda já havia passado por Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, onde viveu por um período em uma instituição de acolhimento para pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Segundo Mychelle Alencar, responsável pela Casa de Acolhimento Rosa Mística, Amanda chegou ao local contando uma história que emocionou funcionários e acolhidos. Ela dizia ter sido adotada por um casal e relatava supostos abusos e participação forçada em rituais de magia negra.
“Ela até mostrava no corpo muitas marcas de cigarros e agulhas que ele colocava nela. Chorava muito. Era uma história muito real e sensibilizou toda a casa”, contou Mychelle ao g1.
Inicialmente, Amanda afirmou ter 18 anos. Com o passar dos dias, porém, passou a dizer que tinha apenas 13 anos. Diante da nova versão, a direção da instituição informou que acionaria o Conselho Tutelar e buscaria atendimento médico para verificar a situação da suposta adolescente.
Foi nesse momento que surgiram os primeiros sinais de contradição.
De acordo com a responsável pela casa, Amanda reagiu de forma inesperada ao saber das providências. Ela teria demonstrado incômodo com a possibilidade de ser encaminhada para os órgãos de proteção e decidiu deixar o local.
“Ela mencionou que queria ir embora, que não ia ficar, que estava sendo pressionada. Disse que era uma criança e que a gente não estava respeitando ela”, relatou.
Além da voz considerada infantil, Amanda mantinha comportamentos típicos de uma criança. Segundo Mychelle, ela gostava de alimentos associados ao público infantil e frequentemente pedia colo aos funcionários da instituição.
“Ela tinha todos os trejeitos de criança. Até para comer, só queria coisas infantis”, afirmou.
As suspeitas aumentaram quando uma das pessoas acolhidas encontrou reportagens antigas sobre Amanda na internet. A descoberta levou a instituição a acionar a Polícia Militar.
No dia 27 de dezembro de 2024, após deixar a casa de acolhimento, Amanda foi localizada pelos policiais nas proximidades do local. Durante a abordagem, os militares identificaram registros anteriores por falsidade ideológica, estelionato e difamação nos estados de Goiás e Rio de Janeiro.
Segundo a polícia, ela também havia registrado um boletim de ocorrência informando a perda dos documentos, estratégia que teria sido utilizada para ocultar sua verdadeira identidade.
Durante as investigações, os policiais descobriram que Amanda já havia recebido ajuda de diversas pessoas e instituições que acreditaram nas histórias contadas por ela.
Questionada pelos militares, ela admitiu que costumava mentir.
“Ao ser perguntada sobre os fatos, disse que tinha o costume de mentir”, informou a Polícia Militar à época.
Amanda foi presa em flagrante por falsidade ideológica e encaminhada para a delegacia. Atualmente, ela permanece à disposição da Justiça após ter a prisão convertida em preventiva.
A defesa informou que solicitou a realização de um exame de sanidade mental, pedido que foi aceito pela Justiça.
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