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“Sons” do Sol revelam comportamento inesperado

Um estudo publicado nesta terça-feira (2) na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society traz uma nova visão sobre o comportamento do Sol e sugere que ele pode estar muito mais ativo do que indicam as observações feitas em sua superfície. 

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A descoberta foi possível graças à análise de quase quatro décadas de dados coletados por uma rede internacional de telescópios que monitora o interior solar por meio de ondas sonoras.

Sobre os ciclos de atividade do Sol:

O Sol passa por ciclos de atividade que duram cerca de 11 anos;

Durante esses períodos, a quantidade de manchas solares aumenta e diminui conforme variam os campos magnéticos da estrela;

Essas manchas, que aparecem como regiões mais escuras na superfície, são utilizadas há séculos como um dos principais indicadores da intensidade da atividade solar;

O Ciclo Solar 25 (atual) havia sido previsto como relativamente moderado;

A contagem de manchas solares confirmou essa expectativa, mostrando números inferiores aos observados em alguns dos ciclos mais intensos registrados entre o fim dos anos 1980 e o início dos anos 1990;

Por isso, muitos especialistas consideravam que o Sol atravessava uma fase menos ativa;

Mas a superfície não revela tudo o que acontece dentro da estrela. 
Imagem dividida mostrando um Sol ativo durante o máximo solar (à esquerda, em 2014) e um Sol calmo durante o mínimo solar (à direita, em 2019) – Crédito: SDO/NASA

Para investigar as regiões internas do Sol, os pesquisadores utilizaram a heliossismologia, técnica que estuda as ondas sonoras que percorrem seu interior. Essas vibrações funcionam de maneira semelhante às ondas sísmicas usadas para estudar a estrutura interna da Terra.

À medida que atravessam diferentes camadas do Sol, as ondas sofrem alterações que refletem as condições físicas e magnéticas encontradas pelo caminho. Ao analisar essas mudanças, os cientistas conseguem obter informações sobre regiões que não podem ser observadas diretamente por telescópios convencionais.

Liderada pelo professor Bill Chaplin, da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, a equipe utilizou observações realizadas entre 1987 e 2025 pela rede BiSON (sigla para Rede de Oscilações Solares de Birmingham), composta por seis telescópios distribuídos em diferentes partes do planeta. Juntos, esses instrumentos registraram quatro ciclos solares completos.

Ondas sonoras do Sol foram divididas em frequências

Para entender melhor os dados, os pesquisadores dividiram as ondas sonoras em diferentes frequências. As ondas de baixa frequência conseguem alcançar regiões mais profundas do interior solar, enquanto as de alta frequência fornecem informações sobre camadas localizadas mais próximas da superfície.

As primeiras pistas de que algo incomum estava acontecendo surgiram nas ondas de baixa frequência. Desde meados dos anos 2000, elas passaram a apresentar um comportamento que não acompanhava mais a evolução observada na contagem de manchas solares. Essa discrepância já havia sido notada anteriormente, mas ainda despertava dúvidas entre os especialistas.

A maior surpresa veio das ondas de alta frequência. Os resultados mostraram que, durante os períodos de maior atividade do Ciclo Solar 25, o interior do Sol apresentou sinais comparáveis aos observados em alguns dos ciclos mais fortes das últimas décadas. Isso contrasta com a imagem transmitida pelas observações da superfície.

Continua após a publicidadeAnálise das ondas sonoras indica que o Sol parece muito mais ativo internamente do que as manchas solares visíveis sugerem – Crédito: Imagem gerada por IA/Gemini

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Atividade solar é maior do que sugerem as manchas

Na prática, os dados indicam que o Sol parece muito mais ativo internamente do que sugerem as manchas solares visíveis. Segundo os pesquisadores, esta é a primeira vez que um padrão desse tipo é identificado de forma tão clara. A descoberta só foi possível graças ao longo histórico de observações acumulado pela rede BiSON.

Os resultados também sugerem uma mudança na forma como a atividade magnética está distribuída dentro da estrela. As evidências apontam que os processos associados aos ciclos solares estão se concentrando cada vez mais perto da superfície. No passado, essa atividade parecia ocorrer em regiões mais profundas.

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As ondas de alta frequência analisam uma camada localizada a cerca de 965 km abaixo da superfície solar. Já as ondas mais graves conseguem investigar áreas muito mais profundas. A diferença observada entre os dois grupos de sinais indica uma reorganização interna do magnetismo solar.

Segundo a pesquisadora Sarbani Basu, da Universidade de Yale, EUA, essa tendência não pode ser explicada apenas por uma redução na intensidade dos campos magnéticos. Para ela, os dados sugerem que o Sol está alterando a forma como armazena e distribui sua atividade magnética em seu interior.

Conceito visual de uma forte erupção solar atingindo a Terra – Crédito: DALL-E/Olhar Digital

A descoberta pode ajudar a melhorar as previsões do chamado clima espacial. Grandes erupções solares lançam partículas carregadas em direção ao espaço e podem afetar satélites, sistemas de comunicação, GPS e até redes elétricas na Terra. Compreender melhor o que acontece abaixo da superfície solar pode tornar esses alertas mais precisos.

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Agora, os cientistas pretendem continuar acompanhando os próximos ciclos solares para descobrir se essa mudança representa apenas uma fase temporária ou uma transformação duradoura. Se a tendência for confirmada, o Sol poderá estar entrando em um novo padrão de comportamento, revelado não pelas manchas visíveis em sua superfície, mas pelas ondas sonoras que atravessam seu interior.

Flavia Correia

Flávia Correia é jornalista do Olhar Digital, cobrindo Ciência e Espaço.

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Tags:
atividade solar
clima espacial
ondas sonoras


Conteúdo reproduzido originalmente em: Olhar Digital por Flavia Correia

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