“Mancha fria” no Atlântico Norte acende alerta sobre correntes oceânicas

Um artigo publicado na revista Geophysical Research Letters traz novas evidências sobre um dos fenômenos mais intrigantes do clima atual. Enquanto a temperatura média da atmosfera e dos oceanos da Terra vem aumentando desde o século XIX, uma área específica do Atlântico Norte segue na direção oposta, registrando resfriamento ao longo dos últimos 150 anos.

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Essa região, localizada ao sul da Groenlândia e da Islândia, ficou conhecida entre os cientistas como a “mancha fria” do Atlântico Norte. O comportamento incomum chama a atenção porque ocorre justamente em um planeta que enfrenta um aquecimento global cada vez mais intenso.

Segundo o estudo, a explicação mais provável para esse fenômeno está ligada ao enfraquecimento da Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês). Trata-se de um enorme sistema de correntes oceânicas responsável por transportar calor, carbono e nutrientes ao longo do Oceano Atlântico.

Tendência linear da temperatura da superfície do mar (°C) de 1880 a 2025. Aquela área azul logo abaixo da Groenlândia, no Atlântico Norte é a “mancha fria”. – Crédito: NASA / dados GISTEMP

O que é a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico – AMOC

A AMOC funciona como uma espécie de esteira transportadora natural que leva águas quentes e salgadas das regiões tropicais em direção ao norte do Atlântico. Ao chegar às áreas mais frias próximas ao Ártico, essa água perde calor, torna-se mais densa, afunda e retorna para o sul pelas profundezas do oceano.

Nos últimos anos, diversos estudos apontaram sinais de que esse sistema pode estar perdendo força. Uma das principais razões seria o aumento do derretimento das geleiras da Groenlândia, provocado pelo aquecimento global causado pelas atividades humanas.

O derretimento libera grandes quantidades de água doce no Atlântico Norte. Isso altera a salinidade da região e interfere no delicado equilíbrio que permite o funcionamento normal das correntes oceânicas. Como a densidade da água depende da temperatura e da quantidade de sal, mudanças nesses fatores podem afetar toda a circulação.

Mapa topográfico da circulação esquemática das correntes superficiais (curvas sólidas) e profundas (curvas tracejadas) do Oceano Atlântico, que formam uma porção da Circulação Meridional do Atlântico (AMOC). As cores das curvas indicam temperaturas aproximadas. – Crédito: Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

Para investigar melhor a situação, pesquisadores do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático, na Alemanha, analisaram dados obtidos por satélites, boias oceânicas e embarcações. As observações foram comparadas com modelos climáticos utilizados pela comunidade científica para entender o comportamento dos oceanos.

Os resultados mostraram que o resfriamento não está restrito à superfície do mar. O fenômeno também foi identificado em profundidades de até mil metros. Essa descoberta é considerada importante porque indica que a perda de calor para a atmosfera não é suficiente para explicar o que está acontecendo.

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Segundo os autores, a causa mais provável é uma redução no transporte de calor realizado pelas correntes oceânicas. Em outras palavras, menos calor estaria chegando à região, o que reforça a hipótese de um enfraquecimento da AMOC.

Os pesquisadores afirmam que a existência da “mancha fria” pode ser interpretada como um sinal desse processo. Embora o estudo não determine exatamente quão próximo o sistema estaria de um ponto crítico, os resultados se somam a outras pesquisas que apontam mudanças importantes na circulação do Atlântico.

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O Dia Depois de Amanhã

A possibilidade de um colapso da AMOC ficou famosa no cinema com o filme O Dia Depois de Amanhã, estrelado por Dennis Quaid, Jake Gyllenhaal, Emmy Rossum, Ian Holm e Sela Ward. Na produção, uma interrupção abrupta das correntes oceânicas provoca uma nova era glacial em poucos dias. Apesar de a história exagerar bastante a velocidade dos acontecimentos, a ideia central tem base em preocupações científicas reais.

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Caso um enfraquecimento extremo ou um colapso da circulação ocorra no futuro, os impactos poderiam ser significativos. Entre as possíveis consequências estão o resfriamento de partes da Europa, alterações nos regimes de chuva em várias regiões do planeta e a elevação do nível do mar ao longo da costa leste dos Estados Unidos.

Os cientistas ainda debatem a velocidade dessas mudanças e a proximidade de um eventual ponto de inflexão. No entanto, o novo estudo reforça a percepção de que transformações importantes estão ocorrendo no Atlântico Norte. Para os autores, as evidências de enfraquecimento da AMOC representam um alerta que merece atenção da comunidade científica, dos governos e dos responsáveis por políticas climáticas em todo o mundo.

Flavia Correia

Flávia Correia é jornalista do Olhar Digital, cobrindo Ciência e Espaço.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: Olhar Digital por Flavia Correia