Lula veta ida à Marcha para Jesus e recusa tirar “proveito político de coisa sagrada”

Em telefonema a Estevam Hernandes, presidente justifica ausência em ato dominado pela oposição

Em conversa com Estevam Hernandes gravada por Jorge Messias, petista afirma que evita misturar religião e campanha eleitoral/ Foto: Reprodução

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recorreu a um telefonema direto ao apóstolo Estevam Hernandes, fundador da Igreja Renascer em Cristo e presidente da Marcha para Jesus, para detalhar os motivos de sua ausência na 34ª edição do evento, realizada nesta quinta-feira (4) em São Paulo. O posicionamento do chefe do Executivo ocorre em um momento em que o ato religioso consolidou-se como um palanque estratégico para lideranças da oposição, reunindo potenciais candidatos à sucessão presidencial de 2026.

Durante a conversa, intermediada pelo advogado-geral da União, Jorge Messias, o mandatário brasileiro enfatizou a necessidade de dissociar rituais de fé das disputas partidárias que antecedem as eleições.

“Eu vou lhe contar por que eu não vou, apóstolo. Eu não participo de nada religioso em época de eleição porque não quero passar a ideia de que estou tentando tirar proveito político de uma coisa sagrada”, justificou Lula ao líder evangélico, que assentiu e declarou compreender a decisão do petista.

O vídeo com o registro do diálogo foi veiculado nas redes sociais de Jorge Messias. O ministro da AGU, que atua como diácono na Igreja Batista Cristã de Brasília desde a infância, figurou como a única autoridade oficial do governo federal no evento deste ano. Em 2023, Messias também foi escalado para representar Lula na mesma marcha, ocasião em que foi alvo de vaias do público presente. A agenda atual ocorre semanas após o plenário do Senado Federal rejeitar a indicação do advogado-geral para uma vaga de ministro no Supremo Tribunal Federal (STF).

No decorrer do telefonema, o presidente Lula agradeceu o acolhimento dispensado a Jorge Messias e relembrou seu histórico de relacionamento com os organizadores, destacando ter sido o responsável por chancelar a Lei Federal nº 12.025/2009. A legislação, originada de uma proposta apresentada em 2008 pelo então senador Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), oficializou o Dia Nacional da Marcha para Jesus no calendário brasileiro, fixando a celebração para o primeiro sábado após o intervalo de 60 dias do domingo de Páscoa.

“Deixa eu lhe falar, estou muito feliz porque é uma coisa que eu sancionei há bastante tempo atrás, e ver o sucesso que está tendo a Marcha para Jesus é uma coisa muito importante”, afirmou o presidente. Em resposta, o apóstolo Estevam Hernandes externou o reconhecimento ao gesto histórico do chefe de Estado. “Quero que o senhor saiba que sou muito grato pela assinatura da lei, foi um dia muito especial. Isso estará sempre no nosso coração. Obrigado, presidente”, declarou.

Apesar da cordialidade institucional mantida com o Palácio do Planalto, Hernandes tem se movimentado nos bastidores da direita. Em entrevistas recentes à imprensa, o religioso manifestou simpatia por uma eventual composição de chapa presidencial encabeçada pelo governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao lado da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL). Embora avalie o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), como um “excelente candidato”, o apóstolo projeta que o eleitorado evangélico deve marchar ao lado do senador Flávio Bolsonaro (PL) em âmbito nacional, mitigando polêmicas em torno do congressista.

Contrastando com a postura de distanciamento adotada por Lula, a ala conservadora utilizou a manifestação paulista para inflamar discursos políticos voltados ao seu núcleo eleitoral. Pré-candidato ao Planalto, o senador Flávio Bolsonaro (PL) subiu ao palco para reforçar a tese de embate metafísico e atacar a gestão petista. “Esta guerra é espiritual, e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal, que vai ser expulso do governo desse Brasil esse ano”, bradou o parlamentar.

O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro lamentou o fato de o pai não poder comparecer, uma vez que cumpre pena de prisão domiciliar em Brasília após condenação penal emitida pelo STF por tentativa de golpe de Estado. Aos jornalistas, Flávio classificou a própria família como alvo de “maldade, injustiça e perseguição”, afirmando que o apoio popular nas ruas renova suas perspectivas políticas.

O senador concluiu o pronunciamento em tom de provocação aos adversários da esquerda, sugerindo que a expressiva aglomeração conservadora gera desconforto em Brasília. “Aqui não vai ter censura. Nesse ato, eu tenho certeza que pode até estar irritando muita gente do lado de lá. Mas vão ter que aturar, porque isso aqui é a prova que o Brasil tem fé, que o Brasil tem futuro”, encerrou.

Veja o vídeo: