Ex-sócio de Vorcaro transferiu obras de luxo para antiga Odebrecht antes de prisão

Ex-controlador do Banco Pleno e do CredCesta foi preso em novembro de 2025 e é casado com ex-ministra do governo Bolsonaro

Investigado na Compliance Zero transferiu obras de luxo em Salvador para antiga Odebrecht/ Foto: Reprodução

O avanço da crise financeira e jurídica que culminou na derrocada do Banco Master e do Banco Pleno provocou movimentações estratégicas no mercado imobiliário de alto padrão na Bahia. Em outubro de 2025, o empresário Augusto Lima transferiu a execução e o suporte comercial de pelo menos dois projetos residenciais de luxo em Salvador para a OR, braço imobiliário do grupo Novonor (antiga Odebrecht).

Os ativos pertencem à holding do empresário, a Terra Firme Realty S.A., e foram repassados no momento em que o Banco Master caminhava para o colapso definitivo, meses após o Banco Central vetar a venda da instituição ao BRB e semanas antes de sua liquidação jurídica.

No cenário empresarial baiano, a operação estruturada por Augusto Lima — conhecido no meio corporativo como “Guga” foi interpretada como uma tentativa de reorganização patrimonial e blindagem de ativos. Naquela época, o investidor já sofria os impactos financeiros que antecederam o decreto de liquidação extrajudicial do Banco Pleno, instituição sob seu controle técnico.

Os contratos firmados transferiram para a antiga Odebrecht a gestão operacional de canteiros de obras situados na Barra, uma das áreas litorâneas com o metro quadrado mais valorizado da capital baiana:

  • Amarama Barra: O projeto de alto padrão é voltado para famílias de alta renda e investidores do segmento de locação por temporada. O edifício dispõe de infraestrutura com piscina privativa, deck, hidromassagem e vista linear para o Oceano Atlântico. Ao todo, são 203 unidades com preços de tabela que oscilam entre R$ 374 mil e R$ 1,35 milhão. O condomínio é de responsabilidade da Gavazza Empreendimentos Imobiliários Ltda., empresa que possui a Terra Firme como sócia.

  • One: Também edificado nas proximidades da praia da Barra, o residencial de luxo oferece coberturas, piscina, espaço gourmet, além de áreas de convivência como academia, coworking e espaço pet. As unidades residenciais têm valores comerciais que variam de R$ 499 mil a R$ 650 mil, podendo atingir a marca de R$ 1,2 milhão a depender das opções de acabamento interno. O controle do One pertence à Morro da Barra Empreendimento SPE Ltda., cuja única acionista cadastrada é a holding de Augusto Lima.

Acionada para prestar esclarecimentos sobre a natureza dos contratos de transferência de ativos, a equipe de defesa jurídica de Augusto Lima optou por não se manifestar sobre o tema.

Por outro lado, a direção executiva da OR emitiu uma nota oficial detalhando que a sua participação nos projetos imobiliários restringe-se ao cumprimento de obrigações de engenharia e suporte logístico de vendas, sem qualquer vinculação societária com o conglomerado de Lima.

“A OR esclarece que foi contratada, na qualidade exclusiva de prestadora de serviços, para atuar na construção e no apoio à comercialização das unidades dos empreendimentos Amarama e One, ambos localizados no bairro da Barra, em Salvador (BA), que têm como proprietárias as empresas Morro da Barra Empreendimentos SPE Ltda. e Gavazza Empreendimentos Imobiliários Ltda., respectivamente. Em nenhuma dessas empresas a OR teve ou tem participação societária. Os projetos foram originalmente lançados entre 2023 e 2024, enquanto a OR passou a prestar os serviços apenas em outubro de 2025, quando as obras de ambos os empreendimentos já estavam em andamento. Como é comum em projetos dessa natureza, a OR não possui qualquer responsabilidade pela incorporação dos empreendimentos”, destacou o comunicado técnico da construtora.

A trajetória recente de Augusto Lima é marcada por forte trânsito político e pelo monitoramento das autoridades de controle federal. O investidor é casado com Flávia Péres, que ocupou cargo de ministra de Estado durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro. No âmbito de negócios estaduais, Lima venceu o processo de licitação pública que garantiu o direito de exploração do CredCesta, um cartão de benefícios voltado a servidores do Estado da Bahia com desconto em folha, lançado durante o governo de Rui Costa — atual chefe da Casa Civil do presidente Lula. O fluxo desse contrato impulsionou o Banco Master no mercado regional.

No final de 2025, o empresário tornou-se alvo central da primeira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pelas forças policiais. Lima chegou a ser detido preventivamente, permanecendo encarcerado pelo período de 11 dias, entre 18 e 29 de novembro.

A soltura do réu foi referendada por uma ordem judicial emitida pelos desembargadores do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Atualmente, o controlador cumpre medidas restritivas de liberdade e permanece monitorado em tempo real por meio de tornozeleira eletrônica, enquanto o Banco Central oficializou a liquidação do Banco Pleno em fevereiro deste ano.