Cientistas liderados pela Universidade Memorial de Newfoundland, no Canadá, descobriram que fragmentos de tecidos removidos de uma espécie de pepino-do-mar chamada Psolus fabricii conseguem sobreviver, se regenerar e crescer de forma independente por mais de três anos em água do mar natural. O estudo, publicado na revista científica Science Advances nesta semana, desafia os conceitos biológicos tradicionais sobre a mortalidade de tecidos descartados.
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Batizados pelos pesquisadores de LiPfe, esses fragmentos representam o primeiro registro na ciência de tecidos animais que mantêm viabilidade de longo prazo e crescimento fora de um ambiente de laboratório estéril. A descoberta abre frentes na biomedicina, com potencial de aplicação em engenharia de tecidos, regeneração biológica e tratamentos de cicatrização antimicrobiana.
Células se alimentam da água do mar e criam modelo de resiliência biológica
Durante os experimentos feitos com amostras retiradas dos pés tubulares, do corpo principal e dos tentáculos de três indivíduos da espécie de águas frias, os pesquisadores constataram a ocorrência de atividade imunológica, ciclo celular e reorganização tecidual.
Devido à óbvia ausência de uma boca nos fragmentos isolados, as células demonstraram a capacidade de extrair energia do ambiente por meio da absorção de aminoácidos dissolvidos diretamente na água marinha.
Evolução do tecido do pepino-do-mar após o corte: as imagens da esquerda (um ano) e direita (vários anos) mostram a ferida cicatrizando com o tempo (mudança da cor vermelha para tons claros indica o surgimento de tecido saudável) – Imagem: Sara Jobson
O comportamento rompe com o padrão histórico das linhagens de células imortais utilizadas na ciência desde meados do século 20, como as células HeLa, que exigem meios rigorosamente controlados, artificiais e totalmente livres de bactérias para não apodrecerem.
“A água do mar natural é praticamente a abordagem experimental menos limpa e biologicamente mais diversa que poderíamos adotar. Ainda assim, esse ambiente rico, cheio de bactérias e de toda essa matéria orgânica, estava na verdade alimentando-os e permitindo que esse tecido cicatrizasse e crescesse”, explicou a pesquisadora sênior Rachel Sipler, do Laboratório Bigelow de Ciências Oceânicas, em comunicado.
Para comprovar o ineditismo do fenômeno, a equipe fez testes comparativos com tecidos extraídos de outras espécies de equinodermos parentes. E nenhuma outra apresentou equivalência em sobrevivência, o que confirma o caráter único do organismo estudado.
Imagem de um pedaço cortado do pé do pepino-do-mar (áreas com verde mais intenso mostram onde as células estão mais ativas e em transformação) – Imagem: Sara Jobson
“Esse achado destaca que o oceano guarda inovações biológicas profundamente inesperadas”, disse Andrea Bodnar, diretora científica do Instituto de Genômica Marinha de Gloucester, que não participou da pesquisa. “O fato de explantes de tecido de um pepino-do-mar poderem cicatrizar, se reorganizar e sobreviver independentemente por anos em água do mar natural sugere um modelo inteiramente novo de resiliência biológica e regeneração de tecidos.”
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“Não cultivamos um pepino-do-mar novo e completo ainda, mas estamos vendo um crescimento e uma diversificação de células bastante impressionantes literalmente anos após a remoção desse tecido”, disse Sipler. “É como um lagarto que perde a cauda. Sabemos que alguns lagartos podem deixar crescer novas caudas; estamos falando sobre se a cauda pode deixar crescer um novo lagarto.”
Por se tratar de um organismo invertebrado, a nova linhagem oferece uma alternativa de modelo experimental mais acessível e livre das restrições regulatórias, burocráticas e dilemas éticos que limitam o uso de células de origem humana ou de outros vertebrados.
Pedro Spadoni
Pedro Spadoni é jornalista formado pela Universidade Metodista de Piracicaba. Já escreveu para sites, revistas e jornal.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: Olhar Digital por Pedro Spadoni

