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O legado de Ronaldo Mourão: da descoberta de asteroides à criação do Dia do Céu no Brasil

Existem cientistas que ampliam as fronteiras do conhecimento com importantes descobertas. Outros dedicam a vida a construir instituições científicas. Alguns possuem o dom ensinar, transformando informações complexas em algo compreensível aos alunos. E há casos raros de pessoas que fazem tudo isso ao mesmo tempo, ajudando não apenas a produzir ciência, mas também a criar uma cultura científica em um país inteiro. No Brasil, um dos nomes mais importantes da astronomia e um raro exemplo de cientista capaz de reunir todas essas qualidades foi Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. 

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Para muita gente, ele foi a primeira voz da astronomia brasileira, explicando o que ocorre no cosmos de maneira clara e apaixonada. E talvez justamente por isso, o 25 de maio, data do seu aniversário, acabou se tornando o “Dia do Mourão”, dedicado à observação do céu e à popularização da astronomia no país.

[ Ronaldo Rogério de Freitas Mourão – Foto reconstituída por IA (ChatGPT) ]

Mourão nasceu em 1935, no Rio de Janeiro e o seu interesse pela ciência começou muito cedo. Sua mãe costumava falar com muito entusiasmo sobre ter visto o Cometa Halley em 1910. Isso o deixou tão fascinado que ele ligava frequentemente para o Observatório Nacional em busca de notícias astronômicas. Foi assim que aos sete anos, ele viveu experiência semelhante ao observar o cometa Whipple–Fedtke–Tevzadze. O impacto dessa observação consolidou seu fascínio pelo Cosmos. Aos 12, o pequeno Mourão construiu sua própria luneta para observar o Eclipse de Bocaiuva.

Seus pais o apoiavam até o dia em que ele disse que queria ser astrônomo. “Meu filho, astrônomo não ganha dinheiro”, diziam eles. Para agradá-los, Mourão chegou a prestar vestibular para outra área, mas sua verdadeira vocação acabou prevalecendo quando ingressou na física e na astronomia. 

Antes mesmo de entrar para a faculdade, Mourão começou a trabalhar como auxiliar de astrônomo no Observatório Nacional do Rio de Janeiro. A falta de livros especializados em português, levou Mourão a aprender francês e inglês, e o tornaria um dos maiores autores na área da astronomia, com centenas artigos em revistas e jornais, atlas astronômicos, anuários e quase cem livros publicados. 

Nos anos 60, ele partiu para a Europa para se aprofundar nos estudos. Por lá, estudou estrelas duplas e corpos distantes do Sistema Solar, trabalhando no Observatório de Paris e no Pic du Midi, na França. Em 1967 ele retorna ao Brasil, com o título de doutor pela Universidade de Paris e, de volta ao Observatório Nacional, se torna “Chefe da Divisão de Equatoriais”. 

[ Observatório Pic du Midi, na França, onde Ronaldo Mourão trabalhou nos anos 1960 – Créditos: Nicolas Bourgeois ]

Na Europa, Mourão percebeu o imenso valor dado aos instrumentos antigos. Ao retornar ao Brasil e ver arquivos científicos importantes sendo descartados em sebos, ele lutou ativamente para preservar o patrimônio histórico do Observatório Nacional. Essa militância culminou na fundação do MAST, o Museu de Astronomia e Ciências Afins, dedicado ao estudo e divulgação da história da ciência e da tecnologia no país.

Sua formação acabou misturando observação astronômica, pesquisa e uma enorme capacidade de comunicação, o que fez de Mourão um dos primeiros grandes divulgadores da astronomia no Brasil, muito antes da internet e das redes sociais. Ele chegava ao público através de seus artigos em revistas e jornais, através da TV e também do rádio. Era uma espécie de “Sacani analógico”, capaz de transformar estudos avançados, cálculos complexos e dados técnicos em uma linguagem simples e acessível à população.

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Isso não foi apenas uma coincidência do destino. Ele buscou esse protagonismo porque percebeu algo fundamental: um país não constrói ciência apenas formando pesquisadores, mas também formando interesse público pela ciência. Ele decidiu que não esperaria mais pelas ligações das crianças interessadas nos astros. Levaria a astronomia diretamente para dentro da casa das pessoas.  

Durante décadas, explicou ao público praticamente todo grande acontecimento astronômico que chegasse ao noticiário. No final da década de 1970, Mourão produziu o programa “O Céu do Brasil”, uma série pioneira de divulgação de astronomia transmitida pelo rádio em 30 episódios. Seu jeito quase poético de falar sobre astronomia aproximou Mourão de grandes nomes da literatura brasileira, como Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector. 

[ Ronaldo Mourão no Observatório Nacional – Foto reconstituída por IA (ChatGPT) ]

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Ele conhecia o céu como ninguém. Bem antes dos sistemas automatizados ele tinha uma habilidade incrível de localizar manualmente os alvos de um telescópio. Descobriu estrelas duplas, novos asteroides e desenvolveu métodos de cálculo orbital utilizados em seus estudos. 

Em 1985, a União Astronômica Internacional deu o nome de Mourão a um asteroide em sua homenagem. Recebeu várias outras honrarias, entre prêmios, medalhas e títulos, como o de “Suprema Honra ao Mérito” oferecido por uma universidade do Japão, em reconhecimento “aos notáveis empreendimentos realizados, em prol da ciência, educação e do bem-estar da humanidade, do verdadeiro testemunho de uma vida exemplar dedicada às causas públicas e humanitárias”.

E foi justamente desse reconhecimento coletivo que nasceu, em 2013, o chamado “Dia do Mourão”. A proposta surgiu entre astrônomos amadores como uma forma simples e poderosa de homenageá-lo: fazendo exatamente aquilo ao qual ele dedicou a vida inteira. 25 de maio, tornou-se um dia para se levar telescópios para as praças, organizar observações públicas, falar sobre o céu no rádio, na televisão, nas escolas ou na internet.

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Quando Ronaldo Mourão morreu, em 2014, seu legado já havia ultrapassado livros, pesquisas e instituições. Ele ajudou a criar no Brasil algo muito mais difícil de construir: uma cultura de fascínio pelo Universo. Inspirou gerações de astrônomos amadores, professores, estudantes e divulgadores científicos que continuam repetindo, de diferentes maneiras, o mesmo gesto iniciado por ele décadas atrás: apontar para o céu e convidar outras pessoas a olhar também.

Existem cientistas lembrados por uma equação, uma descoberta ou um experimento. Mourão acabou se tornando lembrado por algo ainda mais raro: por ter ajudado um país inteiro a desenvolver intimidade com o Cosmos.

[ Dia do Mourão, um dia para se levar os telescópios para as praças e divulgar a astronomia de todas as formas – Créditos: Marcelo Zurita ]

E talvez esse seja o verdadeiro significado do “Dia do Mourão”. Não apenas homenagear um astrônomo brasileiro, mas celebrar a ideia de que o conhecimento científico só alcança plenamente seu propósito quando deixa os laboratórios, alcança as ruas e passa a fazer parte da vida das pessoas.

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Afinal, compreender o Universo nunca foi apenas aprender nomes de estrelas ou planetas. É perceber que, em algum momento da história, uma espécie surgida num pequeno planeta aprendeu a erguer os olhos para o céu, fazer perguntas e compartilhar respostas. E poucas pessoas ajudaram tanto o Brasil a participar dessa grande conversa cósmica quanto Ronaldo Rogério de Freitas Mourão.

Marcelo Zurita

Pres. Associação Paraibana de Astronomia; membro da Sociedade Astronômica Brasileira; diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros – e coordenador regional do Asteroid Day Brasil

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Conteúdo reproduzido originalmente em: Olhar Digital por Marcelo Zurita

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