Um artigo publicado nesta segunda-feira (18) na revista Nature Communications relata que cientistas identificaram, pela primeira vez, o chamado Efeito Zwan-Wolf na atmosfera de Marte. O fenômeno havia sido previsto há cerca de 50 anos e já era conhecido na Terra, mas nunca tinha sido observado em outro planeta até agora.
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A teoria foi criada pelos físicos BJ Zwan e RA Wolf nos anos 1970. Eles desenvolveram um modelo matemático para explicar como o plasma do vento solar se comprime ao longo das linhas magnéticas ao redor de um planeta. O plasma é um estado da matéria parecido com um gás, mas composto por partículas carregadas eletricamente liberadas pelo Sol.
Segundo os pesquisadores, essa compressão criaria uma região com baixa densidade de plasma próxima à magnetosfera, camada magnética que protege um planeta das partículas solares. Décadas depois, o fenômeno foi confirmado na Terra e recebeu o nome de Efeito Zwan-Wolf, passando a ser associado à forma como a magnetosfera terrestre reage ao vento solar e às tempestades espaciais.
Representação artística da sonda MAVEN, da NASA, que orbita Marte desde 2014. – Crédito: Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA.
Marte não tem campo magnético global
Enquanto a Terra possui uma magnetosfera forte e extensa, criada pelo movimento do núcleo metálico do planeta, Marte, por sua vez, não possui um campo magnético global atualmente. Mesmo assim, algumas regiões marcianas ainda apresentam vestígios magnéticos antigos, além de uma ionosfera formada pela ação da radiação solar sobre a atmosfera.
Essas interações fazem surgir um campo magnético induzido em Marte, mas muito mais instável do que o terrestre. Como ele depende diretamente da atividade solar, pode variar bastante durante tempestades solares intensas. Foi justamente durante um desses eventos que os cientistas fizeram a descoberta.
Em dezembro de 2023, uma forte tempestade solar atingiu Marte enquanto a sonda MAVEN (sigla em inglês para “Evolução da Atmosfera e dos Compostos Voláteis de Marte”), da NASA, coletava dados da atmosfera do planeta. O pesquisador Christopher Fowler, da Universidade da Virgínia Ocidental, percebeu oscilações incomuns durante a análise das medições.
Inicialmente, a equipe não conseguiu explicar o comportamento detectado. Os cientistas compararam os registros da tempestade solar com observações feitas em outros períodos e encontraram temperaturas de íons muito acima do esperado. Após eliminar várias hipóteses, concluíram que os sinais correspondiam ao Efeito Zwan-Wolf.
Sem um campo magnético global, a atmosfera de Marte é vulnerável à atividade solar. – Crédito: ESA / DLR / FUBerlin / AndreaLuck, CC BY 3.0
A descoberta surpreendeu os pesquisadores porque o fenômeno apareceu em uma região muito diferente daquela observada na Terra. A órbita da MAVEN varia entre cerca de 180 e 4.500 km acima da superfície marciana. Mesmo nas partes mais baixas da trajetória, a nave atravessou áreas de plasma comprimido na atmosfera superior do planeta.
Segundo Fowler, ninguém imaginava que esse efeito pudesse ocorrer diretamente na atmosfera de um planeta. A descoberta abre caminho para novas pesquisas sobre a influência do Sol e do clima espacial sobre Marte, especialmente em períodos de atividade solar intensa.
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Descoberta pode ajudar futuras missões humanas
Os cientistas acreditam que o Efeito Zwan-Wolf provavelmente ocorre constantemente em Marte, mas normalmente em níveis tão fracos que a MAVEN não consegue detectá-los. A tempestade solar de 2023 teria ampliado temporariamente o fenômeno, tornando possível sua identificação pelos instrumentos da missão.
A descoberta também pode ajudar futuras missões humanas ao Planeta Vermelho. Entender como tempestades solares afetam Marte é considerado essencial para a segurança de astronautas e possíveis bases no futuro. Além disso, os pesquisadores agora pretendem investigar se o mesmo fenômeno também acontece em Vênus e em Titã, maior lua de Saturno, que também possuem atmosfera.
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Embora a sonda MAVEN tenha perdido contato com a Terra em dezembro de 2025 e sua situação ainda seja incerta, os dados coletados continuam sendo analisados. Para os cientistas envolvidos, o material obtido pela missão ainda pode revelar novas informações sobre a relação entre o Sol e o comportamento da atmosfera marciana.
Flavia Correia
Flávia Correia é jornalista do Olhar Digital, cobrindo Ciência e Espaço.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: Olhar Digital por Flavia Correia
