Um artigo publicado na revista PLOS One sugere como o degelo do permafrost em Svalbard, no Oceano Ártico, está revelando restos humanos enterrados entre 200 e 400 anos atrás. Conhecido como “Ponta dos Cadáveres”, o local expõe esqueletos de baleeiros europeus, ajudando pesquisadores a entender a vida desses trabalhadores e os efeitos da crise climática na preservação arqueológica.
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O interesse europeu pelo arquipélago de Svalbard começou ainda no fim do século XVI. Em 1596, o explorador holandês Willem Barentsz avistou Spitsbergen, a maior ilha da região. Pouco depois, a área passou a atrair atenção devido à abundância de baleias, animais valorizados principalmente pela gordura, usada na produção de óleo para iluminação e como lubrificante.
Estação baleeira da Câmara de Amsterdã da Companhia do Norte em Smeerenburg, por Cornelis de Man, 1639 – Crédito: Rijksmuseum / Domínio Público.
A caça às baleias também estava ligada a produtos de alto valor na época, como o âmbar-gris, substância formada no sistema digestivo desses animais. Pesquisadores ressaltam que essa atividade deve ser entendida dentro do contexto do período histórico, quando o óleo de baleia era essencial para iluminação e lubrificação, além de outras partes do animal serem usadas na indústria têxtil.
A exploração comercial na região começou de forma mais organizada em 1612. Em poucas décadas, a caça se expandiu rapidamente pelo Atlântico Norte, envolvendo embarcações de várias nações europeias. As baleias passaram a evitar áreas costeiras, forçando os caçadores a migrar para águas mais distantes. No auge da atividade, centenas de navios operavam simultaneamente na região durante o verão ártico.
Baleeiros eram enterrados em cemitérios improvisados
Esse crescimento levou à criação de assentamentos temporários em Svalbard. Um dos mais conhecidos foi Smeerenburg, fundado em 1619, cujo nome significa “Cidade da Gordura”. Outro local importante é Likneset, a “Ponta dos Cadáveres”, uma área costeira onde baleeiros mortos eram enterrados. Com o tempo, esses espaços tornaram-se cemitérios improvisados, marcados pelas condições extremas do Ártico.
A antropóloga forense Elin T. Brødholt analisa material esquelético das sepulturas de baleeiros em Likneset. – Crédito: Lise Loktu / NIKU
Com o avanço do aquecimento global, o degelo do permafrost passou a expor esses sepultamentos. Ossadas que permaneceram preservadas por séculos agora vêm sendo descobertas pela erosão costeira. Esse processo permitiu que pesquisadores como a arqueóloga Lise Loktu, do Instituto Norueguês de Pesquisa do Patrimônio Cultural (NIKU), e a antropóloga forense Elin Therese Brødholt, do Hospital Universitário de Oslo, estudassem diretamente os restos humanos e reconstruíssem aspectos da vida e da morte desses trabalhadores.
A análise dos esqueletos revelou um padrão surpreendente. Todos os indivíduos eram homens jovens, com idades em torno de 20 a 25 anos no momento da morte. Além disso, muitos apresentavam sinais de fragilidade física e doenças anteriores ao óbito. Os pesquisadores concluíram que esses homens enfrentavam condições extremas antes mesmo de chegar ao Ártico.
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Caçadores de baleia tinham escorbuto
Uma das doenças mais comuns identificadas foi o escorbuto. Segundo o estudo, 18 dos 19 esqueletos analisados apresentavam sinais dessa condição, causada pela falta de vitamina C. O escorbuto provoca sangramentos nas gengivas, fadiga intensa, dores e a reabertura de feridas antigas. No registro ósseo, ele deixa marcas visíveis, especialmente nos ossos longos do corpo.
Além do escorbuto, foram identificados casos de raquitismo e sinais de desnutrição na infância. Essas condições indicam que muitos desses jovens já tinham uma saúde comprometida antes de ingressar na indústria baleeira. A combinação de má alimentação e trabalho extremo contribuiu para um quadro geral de vulnerabilidade física.
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Outro achado importante foi o alto índice de doenças degenerativas nas articulações. Mesmo sendo jovens, a maioria apresentava sinais de osteoartrite, condição normalmente associada à velhice. As lesões estavam concentradas principalmente na parte superior do corpo, indicando esforço repetitivo intenso, possivelmente ligado às atividades pesadas da caça e do processamento das baleias.
Vestimentas excepcionalmente preservadas em sepultamentos. Apesar da erosão, as condições locais permitiram conservar itens como gorros de lã, jaquetas, calças, meias e lenços de seda. As peças, compostas majoritariamente por lã e restos de linho, oferecem um registro detalhado do vestuário da época. – Crédito: Dag Nævestad, Museu Tromsø (AB) e Lise Loktu, NIKU (CH)
Os pesquisadores também observaram fraturas antigas e lesões na coluna já cicatrizadas. Esses indícios sugerem que as mortes não ocorreram por eventos isolados, mas sim pelo acúmulo de desgaste físico ao longo do tempo. O conjunto de evidências revela um cenário de trabalho extremo, com impactos profundos na saúde desses homens.
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Por fim, o estudo faz um alerta. O degelo acelerado do Ártico está destruindo sítios arqueológicos preservados há séculos. Isso significa que não apenas o clima está mudando, mas também a memória histórica da região está sendo perdida. Para os cientistas, é urgente ampliar o monitoramento e a documentação desses locais antes que registros insubstituíveis desapareçam completamente.
Flavia Correia
Flávia Correia é jornalista do Olhar Digital, cobrindo Ciência e Espaço.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: Olhar Digital por Flavia Correia

