Uma barragem no Estreito de Bering pode salvar uma corrente oceânica – ou piorar tudo

Uma proposta considerada extrema por cientistas voltou ao debate climático: a construção de uma barragem no Estreito de Bering, região que conecta os oceanos Pacífico e Ártico. A ideia busca preservar uma das correntes oceânicas mais importantes do planeta: a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC).

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Essa corrente desempenha um papel crucial na regulação do clima global. Ele ajuda a manter temperaturas mais amenas no norte da Europa, contribui para a estabilidade do nível do mar na costa atlântica da América do Norte e permite que os oceanos absorvam parte do dióxido de carbono da atmosfera, reduzindo o aquecimento global em cerca de 0,2 grau.

No entanto, há indícios de que a AMOC esteja enfraquecendo e possa colapsar ainda neste século.

A proposta de interferir no Estreito de Bering se baseia em evidências históricas. Em períodos passados, quando a passagem esteve naturalmente bloqueada, a circulação atlântica apresentou maior estabilidade. Isso ocorre porque a água que flui do Pacífico para o Ártico é relativamente doce, e sua presença influencia o equilíbrio salino no Atlântico Norte – fator essencial para o funcionamento da AMOC.

Para testar essa hipótese, pesquisadores da Universidade de Utrecht recorreram a simulações computacionais. Os resultados foram publicados na revista Science Advances e indicam que o bloqueio artificial do estreito poderia, de fato, ajudar a estabilizar a corrente oceânica.

Mas isso dependeria de condições específicas. Segundo o modelo, a intervenção só teria efeito positivo se fosse realizada enquanto a AMOC ainda opera em níveis considerados normais. Nesse cenário, o aumento da salinidade ao redor da Groenlândia permitiria que o gelo derretesse em maior escala sem comprometer o sistema oceânico.

A AMOC é o “motor” que regula o clima da Terra – Imagem: NOAA

Barragem pode agravar deterioração da corrente oceânica

Por outro lado, se a corrente já estiver significativamente enfraquecida, a construção da barragem poderia agravar o problema. Em vez de fortalecer a circulação, o bloqueio tenderia a aumentar a formação de gelo no Ártico, reduzindo a evaporação e tornando a água ainda menos salgada – o que prejudicaria ainda mais a AMOC.

Os pesquisadores identificaram um possível ponto crítico: se a corrente cair abaixo de 16,4 milhões de metros cúbicos por segundo (cerca de 16% abaixo de seu nível original) a intervenção deixaria de ser eficaz e passaria a ter efeito contrário. Há incertezas sobre se esse limite já foi atingido.

Apesar dos resultados promissores, os próprios cientistas destacam limitações importantes. Trata-se de um estudo baseado em modelagem, sem possibilidade de testes diretos em escala real. Além disso, a barragem não resolveria o problema por completo. O avanço do derretimento da Groenlândia, impulsionado pelas mudanças climáticas, continuaria sendo uma ameaça central, independentemente da intervenção.

Do ponto de vista técnico, o projeto também apresenta desafios relevantes. O Estreito de Bering tem cerca de 82 quilômetros de largura e profundidade média de 50 metros. Embora a construção seja teoricamente viável, exigiria uma obra de grande escala em uma região remota e de difícil acesso, além de uma estrutura capaz de suportar fortes correntes oceânicas.

Boa parte do Estreito de Bering fica na Rússia, o que levanta questões sobre propriedade da estrutura – Imagem: Wikimedia CommonsContinua após a publicidade

As barreiras geopolíticas podem ser desafios ainda maiores. Parte significativa da área necessária para a barragem está sob controle da Rússia. A possibilidade de um único país influenciar uma infraestrutura com impacto global adiciona complexidade ao projeto.

Há também preocupações ambientais. A construção de uma barragem nessa região poderia afetar espécies migratórias, como baleias, além de alterar ecossistemas sensíveis.

No fim das contas, o estudo reforça a complexidade do sistema climático e os riscos de intervenções em larga escala.

Vitoria Lopes Gomez

Vitoria Lopes Gomez é jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e redatora do Olhar Digital.

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Circulação Meridional do Atlântico
correntes oceânicas

 


Conteúdo reproduzido originalmente em: Olhar Digital por Vitoria Lopes Gomez