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Evento climático global pode ter influenciado colapso do Antigo Egito e outras civilizações

Um evento climático ocorrido há cerca de 4,2 mil anos voltou a chamar atenção de pesquisadores por seu possível impacto sobre sociedades antigas. Evidências do chamado “evento de 4,2 quiloanos” foram identificadas em diferentes registros naturais e arqueológicos, levantando suspeitas de que ele pode ter coincidido com períodos de instabilidade em regiões como Egito e Mesopotâmia.

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A hipótese surgiu a partir de diferentes métodos usados para reconstruir o clima do passado. Cientistas analisaram, por exemplo, gases e partículas preservados em núcleos de gelo, anéis de crescimento de árvores, pólen fossilizado e outros vestígios ambientais para reconstituir condições atmosféricas e variações de temperatura ao longo da história da Terra.

Um dos primeiros indícios desse episódio climático foi encontrado no início da década de 1990, durante escavações no nordeste da Síria conduzidas pelo arqueólogo Harvey Weiss e sua equipe. No local, os pesquisadores identificaram uma camada de solo seca, poeirenta e sem sinais de atividade biológica, datada de cerca de 2200 a.C. A interpretação foi de que uma mudança abrupta no clima teria tornado a região muito mais árida durante um longo intervalo.

“Não tínhamos uma explicação para o que havia causado isso”, disse Weiss à Nature em 2022, “mas sabíamos, a partir de nossos dados locais, que havia ocorrido um evento de aridificação.”

A descoberta chamou atenção também pela proximidade temporal com o colapso do Império Acádio, que dominava a região e entrou em declínio por volta de 2150 a.C., quando cidades foram abandonadas e a estrutura imperial desapareceu. Weiss considera plausível que a deterioração ambiental tenha contribuído para esse processo.

Com o passar do tempo, sinais semelhantes começaram a aparecer em outras partes do mundo. Evidências vindas de estalagmites no Himalaia e de ruínas antigas na China sugerem que o fenômeno pode não ter sido restrito ao Oriente Médio. Em um estudo sobre vestígios arqueológicos chineses, pesquisadores encontraram uma fina camada de argila associada a eventos extremos de inundação.

“Uma fina camada de argila foi encontrada nas ruínas preservadas, o que aponta para uma possível conexão entre o declínio da civilização avançada e as cheias do rio Yangtzé ou do Mar da China Oriental. Não foram encontradas evidências de causas humanas, como conflitos bélicos”, explicou Christoph Spötl, chefe do Grupo de Pesquisa do Quaternário do Departamento de Geologia, em comunicado. Segundo ele, não foi possível chegar a conclusões definitivas do que poderia ter acontecido.

Estalactites e estalagmites de cavernas na China oferecem um vislumbre da época do colapso da cultura Liangzhu, há cerca de 4300 anos – Imagem: Haiwei Zhang

Tema não é consenso na comunidade científica

Apesar da ampliação do conjunto de evidências, o tema ainda divide a comunidade científica. Parte dos pesquisadores argumenta que os registros podem refletir crises regionais, e não necessariamente um evento climático sincronizado em escala global.

De acordo com o site IFLScience, a Comissão Internacional de Estratigrafia reconheceu mesmo assim a relevância desse período ao defini-lo como marco inicial da chamada Idade Meghalayana, uma subdivisão do Holoceno Tardio.

As causas do episódio permanecem em debate. Uma das hipóteses mais discutidas envolve alterações na Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC), sistema oceânico que influencia o clima em várias regiões do planeta. Em um estudo de 2019, pesquisadores sugeriram que uma desaceleração nesse mecanismo poderia ter desencadeado mudanças atmosféricas e oceânicas capazes de favorecer secas prolongadas.

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Mesmo sem consenso sobre sua abrangência, o evento de 4,2 mil anos é tratado como um episódio importante para compreender a relação entre mudanças climáticas e transformações sociais no passado.

Vitoria Lopes Gomez

Vitoria Lopes Gomez é jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e redatora do Olhar Digital.

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Tags:
civilizações antigas
Egito
Mesopotâmia


Conteúdo reproduzido originalmente em: Olhar Digital por Vitoria Lopes Gomez

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