A seleção natural continua a desempenhar um papel ativo na evolução humana, mesmo após o surgimento da agricultura e das primeiras sociedades sedentárias. Um novo estudo revela que esse processo não apenas persistiu nos últimos dez mil anos, como pode ter se intensificado nesse período, moldando centenas de genes em populações da Eurásia Ocidental.
Continua após a publicidade
A pesquisa, publicada na Nature, foi conduzida por uma equipe liderada por cientistas da Harvard University (EUA), que analisaram quase 16 mil genomas antigos extraídos de esqueletos encontrados em diferentes regiões da Europa e partes do Oriente Médio. Esse conjunto, descrito como uma “quantidade sem precedentes de dados genômicos antigos”, foi combinado com mais de 6,4 mil genomas modernos.
Os dados foram processados por um algoritmo capaz de rastrear a disseminação e o declínio de variantes genéticas ao longo do tempo. A metodologia permitiu identificar quais mudanças foram resultado direto da seleção natural — conhecida como seleção direcional —, descartando influências de outros fatores, como migrações humanas, mistura entre populações e flutuações genéticas aleatórias comuns em grupos pequenos.
Esse conjunto foi combinado com mais de 6,4 mil genomas modernos – Imagem: ZCOOL HelloRF/Shutterstock
Como resultado, os cientistas identificaram pelo menos 479 variantes genéticas — também chamadas de alelos — que sofreram forte seleção positiva ou negativa na Eurásia Ocidental ao longo dos últimos dez milênios. Antes desse estudo, apenas algumas dezenas de variantes recentes haviam sido associadas a esse tipo de processo evolutivo.
Os resultados também indicam que a taxa de seleção natural aumentou após a transição das sociedades humanas de caçadoras-coletoras para agrícolas, ocorrida depois do fim da última era glacial.
“Com essas novas técnicas e grande quantidade de dados genômicos antigos, agora, podemos observar como a seleção moldou a biologia em tempo real”, afirmou Ali Akbari, primeiro autor do estudo e cientista sênior no laboratório do geneticista David Reich, em comunicado. “Em vez de procurar pelas marcas deixadas pela seleção natural em genomas atuais usando modelos simples e suposições, podemos deixar que os dados falem por si.”
O que mais o estudo sobre a seleção natural identificou
Segundo o estudo, mais de 60% dessas variantes relativamente recentes ainda estão associadas a características observadas nas populações atuais;
Entre elas estão pele mais clara, cabelo ruivo, maior imunidade à infecção por HIV e resistência à hanseníase, menor probabilidade de calvície masculina, redução no risco de artrite reumatoide e alcoolismo, presença do tipo sanguíneo B, menor risco de transtornos, como bipolaridade e esquizofrenia, além de índices mais baixos de gordura corporal, relação cintura-quadril e índice de massa corporal. Também foi observada menor suscetibilidade ao tabagismo;
Essas evidências indicam que tais características não surgiram ao acaso, mas foram moldadas ativamente pela seleção natural em determinadas populações da Eurásia Ocidental;
O estudo destaca que todas essas mudanças ocorreram em um período relativamente recente da história humana, após o advento da agricultura e a formação das primeiras comunidades sedentárias;
Embora esse novo estilo de vida tenha reduzido ameaças, como predadores, fome extrema e exposição ao clima, novas pressões evolutivas surgiram, como dietas diferentes, maior densidade populacional e o contato com doenças desconhecidas.
Leia mais:
Continua após a publicidade
Como usar integrações do ChatGPT: conecte Canva, Booking e outros apps ao chatbot
Bateria em 80%? Por que o limite de carga pode ser uma “armadilha” para seu celular
IA japonesa usa princípios de Darwin para melhorar e evoluir; entenda
Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que muitas dessas transformações são complexas e nem sempre intuitivas. Um exemplo é a relação entre genética e suscetibilidade ao tabaco: como a planta é originária das Américas e só foi introduzida na Eurásia no século XVI, as variantes associadas a esse comportamento devem ter sido selecionadas por outros fatores, não pelo consumo de tabaco em si.
Outro caso intrigante é o desenvolvimento de predisposição à doença celíaca após a domesticação do trigo. Para os cientistas, isso demonstra que, embora uma variante genética possa hoje influenciar determinada característica, isso não significa que essa característica tenha sido a razão original de sua seleção.
Continua após a publicidade
“Este trabalho mostra como a seleção pode ser complexa e oferece uma oportunidade de considerar a riqueza da variação nas populações humanas”, explicou David Reich, autor sênior do estudo e professor de biologia evolutiva humana.
Segundo estudo, mais de 60% dessas variantes relativamente recentes ainda estão associadas a características observadas nas populações atuais – Imagem: ART STOCK CREATIVE/Shutterstock
Método pode impulsionar pesquisas semelhantes
A pesquisa utilizou um método computacional inovador, ainda não aplicado em larga escala à genômica humana. Como próximo passo, a equipe pretende expandir a análise para outras regiões do mundo, investigando se padrões semelhantes podem ser observados em populações do Leste Asiático, da África Oriental e entre povos indígenas das Américas.
“Até que ponto veremos padrões semelhantes no Leste Asiático, na África Oriental ou entre nativos da Mesoamérica e dos Andes centrais? Se não podemos usar DNA antigo para estudar o período mais importante da evolução humana, entre um milhão e dois milhões de anos atrás, ao menos podemos investigar as pressões seletivas em períodos mais recentes e aprender princípios mais amplos”, disse Reich.
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.
Ver todos os artigos →
Tags:
Seleção Natural
seres humanos
Conteúdo reproduzido originalmente em: Olhar Digital por Rodrigo Mozelli
