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– Foto: Perfecto Capucine/ Pexels
“Sempre que vou comprar um e-book fico indignada. Está quase o mesmo preço de um livro físico. Os livros digitais foram criados para serem mais acessíveis, mas isso não está funcionando”, reclamou uma usuária no X, reacendendo um debate antigo no mercado editorial.
Nos comentários, a dúvida se repete: se não há custo com papel nem impressão, por que os e-books não são mais baratos?
Uma busca em plataformas de venda mostra que a diferença nem sempre favorece o leitor. O best-seller devocional Café com Deus Pai – Edição 2026, por exemplo, custa R$ 41,62 na versão física, enquanto o e-book sai por R$ 49,90.
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Já Do Mil ao Milhão, de Thiago Nigro, aparece por R$ 19,90 no digital e R$ 26,50 no impresso. Entre os clássicos, a lógica também se repete: Os Miseráveis, de Victor Hugo, pode chegar a R$ 83,90 no e-commerce.
Mas afinal, o que explica o preço dos livros digitais? Eles deveriam custar menos do que os físicos? Especialistas do mercado editorial afirmam que a resposta é mais complexa do que parece e que o custo do papel está longe de ser o principal fator.
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Júnior Rostirola faz sucesso com o livro Café com Deus Pai
Imagem cedida ao Metrópoles2 de 3
A obra da editora Vélos é um devocional voltado para fiéis
Divulgação3 de 3
A literatura devocional vem fazendo sucesso e elencando o primeiro lugar de lista de mais vendidos
@cafecomdeuspai/Instagram/Reprodução
Fernando Tavares, especialista em publicação digital, explica que a precificação acompanha o mercado desde o início. Segundo ele, muita gente superestima o impacto do papel no valor final do livro.
Os custos de produção, segundo Tavares:
Na composição de preço de um livro impresso, papel, impressão e logística representam entre 20% e 25% do preço de capa. Num livro de R$ 50, isso dá uns R$ 11.
O resto vai para direitos autorais, o trabalho editorial de revisão, capa, diagramação, marketing e as margens da editora, do distribuidor e da livraria.
Quando você tira o papel, tira cerca de um quinto do custo. Não 80%, como muita gente imagina.
No caso dos e-books, o texto precisa ser revisado, a capa precisa ser feita, o conteúdo precisa ser diagramado em formato digital (ePub) e o arquivo precisa ser validado tecnicamente.
O que não existe no digital: papel, impressão, estoque, frete e devolução. Mas entra no lugar: custos de plataforma, proteção anticópia (DRM), conversão técnica e, principalmente, a comissão da loja.
“A diferença de margem entre físico e digital vem da cadeia de distribuição. No físico, distribuidores e livrarias ficam com 40% a 60% do preço de capa. No digital, as lojas retêm de 30% a 35%. A margem do editor tende a ser maior no digital. Mas só se ele precificar de forma inteligente, e não copiar o preço do impresso por comodidade”, garante ele.
Vale lembrar que, em março de 2017, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em votação unânime, que livros eletrônicos e os suportes próprios para sua leitura são alcançados pela imunidade tributária do artigo 150 da Constituição. Na prática, o e-book não paga imposto sobre livro, assim como o livro de papel.
“Do ponto de vista tributário, hoje não há uma diferença significativa que explique o preço: tanto livros físicos quanto digitais contam com imunidade de impostos no Brasil. Portanto, a diferença de preço está mais ligada à estratégia de mercado e à estrutura da cadeia do que à tributação“, explica Marcos José Zablonsky, relações públicas e professor da Escola de Belas Artes da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Democratização da leitura
Usuários do X relatam principalmente que os e-books nasceram como medida para democratização da leitura e acesso para todos. Mas até onde a afirmação é levada como verdade por quem publica? Para a autora Lis Vilas Boas, que começou a carreira publicando apenas no digital e agora é publicada pela Rocco, os leitores ficam ainda mais seletivos com o quanto pagar quando o assunto é e-book.
“O preço médio do e-book é bom para o leitor, mas pode ser duro para o escritor. Mesmo sendo mais barato de produzir que o livro físico, um e-book muito barato, como de R$ 2, demora para dar retorno. Por outro lado, aumentar o preço também pode afastar leitores e prolongar esse retorno”, explica.
Tavares e Zablonsky apontam ainda que o valor dos e-books é uma forma de proteger as vendas dos livros físicos. “Muitas editoras mantêm o preço do e-book perto do impresso exatamente para não tirar o cliente da livraria. É uma decisão comercial, não uma questão de custo”, explica o primeiro.
“O livro físico ainda tem um valor simbólico e comercial muito forte. O livro é objeto cultural, presente, item de coleção e sustenta parte importante da cadeia de livrarias. Em alguns casos, o preço do digital não é muito reduzido justamente para evitar que ele substitua completamente o impresso. É uma forma de preservar o equilíbrio entre os dois formatos”, completa o professor da PUCPR.
Para especialistas, o peso das grandes plataformas digitais, como a Amazon, também influencia diretamente os preços dos e-books. Isso porque os modelos de remuneração acabam definindo uma faixa considerada mais vantajosa para autores e editoras.
“A plataforma funciona, na prática, como uma reguladora de preços no Brasil. Ela oferece 70% de royalties apenas para livros dentro de uma faixa específica de valor. Fora desse intervalo, o percentual cai para 35%. Isso cria uma pressão para que os preços se mantenham dentro desse limite, independentemente da estratégia do editor”, explica Fernando Tavares.
O impacto desse modelo aparece no comportamento do leitor. Dados da pesquisa Panorama do Consumo de Livros 2025, da Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com a NielsenIQ BookData, mostram que 56% dos consumidores compram livros pelas redes sociais. Desse total, 28% alternam entre formatos impresso e digital, enquanto 16% consomem apenas e-books.
Além disso, a principal plataforma de venda concentra a maior parte das compras: 59,1% dos leitores afirmam já ter adquirido livros na Amazon.
Disponíveis em três versões, Kindles, da Amazon, agitam o mercado literário
“O e-book não custa caro porque ‘não ficou barato’. Ele custa caro porque o livro, no Brasil, é precificado dentro de uma cadeia pressionada por perda histórica de valor, concentração de plataformas, necessidade de preservar o impresso e risco permanente de pirataria. O digital trouxe ganhos reais de acesso e conveniência, mas ainda não transformou estruturalmente um país em que a base de leitores continua estreita e desigual”, finaliza Marcos José Zablonsky.
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O que diz a CBL?
A Câmara Brasileira dos Livros (CBL) disse ao Metrópoles, em nota, que “o livro digital não elimina os principais custos da produção editorial”.
“A maior parte do investimento está nas etapas de criação e desenvolvimento da obra, como direitos autorais, tradução, preparação, revisão e design. Além disso, somam-se os custos tecnológicos e as comissões das plataformas digitais. A impressão, portanto, representa apenas uma parte desse conjunto”, afirma.
“Dados da pesquisa Panorama do Consumo de Livros no Brasil, recentemente lançada, indicam que o livro digital ainda está em crescimento no país, com 16% dos consumidores que compram exclusivamente nesse formato, o que demonstra que a escolha do leitor não se orienta apenas pelo preço, mas também pela experiência de leitura”, finaliza o comunicado.
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Fonte: Metropoles

