Pesquisadores da Universidade de Bristol, no Reino Unido, demonstraram que enzimas responsáveis por copiar o DNA também conseguem criar sequências genéticas inteiramente novas sem molde. O estudo, publicado na revista Nature Communications, descreve esse processo, conhecido como doodling, e mostra que ele pode ser controlado experimentalmente, abrindo caminho para novas formas de sintetizar DNA.
Continua após a publicidade
A descoberta foi conduzida por uma equipe multidisciplinar e analisou milhares de moléculas produzidas por essas enzimas. Os resultados indicam que, ao contrário do que se pensava, o DNA gerado sem molde não é apenas aleatório, mas segue padrões estruturados e previsíveis, dependendo das condições da reação e do tipo de enzima utilizada.
Como funciona o “doodling” do DNA
Em condições normais, as DNA polimerases atuam como “copiadoras”, replicando sequências existentes. No entanto, o estudo confirma que essas enzimas também conseguem iniciar a síntese sem qualquer fita de referência, produzindo cadeias inéditas.
Essa capacidade já havia sido observada desde a década de 1960, mas era tratada como uma curiosidade. Agora, os pesquisadores conseguiram demonstrar que o processo segue regras claras. Ao analisar milhares de sequências, a equipe identificou padrões repetitivos, que variam de repetições simples a estruturas mais complexas.
Segundo o artigo, fatores como temperatura e composição química do ambiente influenciam diretamente quais “letras” do DNA são adicionadas. Esse comportamento cria um mecanismo de retroalimentação: os primeiros padrões formados tendem a se repetir ao longo da cadeia.
Produção de DNA longo em uma única etapa
Um dos principais resultados do estudo é a capacidade de gerar sequências muito mais longas do que as obtidas por métodos tradicionais. Técnicas químicas atuais enfrentam limitações e costumam produzir cadeias com poucas centenas de unidades.
Já o processo descrito no trabalho conseguiu formar fragmentos com dezenas de milhares de bases em uma única reação. Em experimentos específicos, algumas moléculas ultrapassaram 85 mil unidades.
Estudo mostra que cadeias de DNA podem ser formadas sem molde por enzimas, alcançando comprimentos muito superiores aos métodos tradicionais – Imagem: Billion Photos / Shutterstock
Essa diferença pode ser relevante para aplicações que exigem sequências extensas, como a construção de genes ou o controle de funções celulares.
Técnicas usadas para analisar as sequências
Para entender o que estava sendo produzido, os cientistas utilizaram sequenciamento por nanoporo, que permite ler cadeias completas de DNA. Esse método detecta sinais elétricos à medida que cada unidade passa por um sensor.
Além disso, a equipe aplicou microscopia de força atômica, que revelou a estrutura física das moléculas. As imagens mostraram que parte das cadeias apresenta ramificações, possivelmente formadas por interações entre regiões repetitivas.
A combinação dessas técnicas permitiu observar tanto a sequência quanto a forma do DNA, oferecendo uma visão mais detalhada do processo.
Controle experimental e padrões previsíveis
Após identificar os padrões, os pesquisadores testaram formas de influenciar o processo. Alterações simples, como mudanças de temperatura ou a limitação dos blocos de construção disponíveis, foram suficientes para modificar o resultado.
Continua após a publicidade
Quando apenas dois dos quatro componentes do DNA estavam disponíveis, as enzimas passaram a gerar sequências altamente regulares, com repetições que ultrapassaram mil unidades. Isso indica que o processo pode ser ajustado de forma previsível, em vez de totalmente aleatória.
Possíveis aplicações e limitações
Os resultados sugerem que o doodling pode se tornar uma alternativa para a produção de DNA longo de forma mais eficiente e econômica. Isso é relevante para a biotecnologia, área que depende da síntese de sequências genéticas para diferentes aplicações.
Ao mesmo tempo, o estudo aponta limitações. Nem todas as sequências geradas são úteis, já que repetições podem dominar o processo e o controle exato da ordem das bases ainda é restrito. Também há desafios relacionados a erros, distribuição de tamanho e subprodutos indesejados.
Mesmo assim, os autores indicam que o trabalho amplia a compreensão sobre o papel das DNA polimerases, mostrando que elas vão além da simples cópia de material genético e podem atuar na geração de novas sequências.
Ana Luiza Figueiredo
Ana Figueiredo é repórter de tecnologia do Olhar Digital. É formada em jornalismo pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
Ver todos os artigos →
Tags:
biotecnologia
dna
Enzimas
genética
Conteúdo reproduzido originalmente em: Olhar Digital por Ana Luiza Figueiredo

