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Sabe aqueles bichinhos minúsculos e super resistentes chamados tardígrados – ou ursos d’água? Eles são tipo os ‘rockstars‘ da sobrevivência no nosso planeta. Mas, mesmo guerreiros como esses encontraram um desafio e tanto: o solo marciano simulado. Acontece que, em testes com uma mistura de minerais que imita o chão vermelho de Marte, duas espécies diferentes de tardígrados tiveram uma dificuldade enorme. A população deles despencou rapidinho, em questão de dias.
Mas, claro, a ciência sempre dá um jeito! Os pesquisadores descobriram um truque que pode mudar tudo. Quando eles lavaram esse solo marciano simulado com água, tipo um enxágue básico, os nossos amigos microscópicos se deram MUITO melhor. Essa é uma notícia animadora demais, principalmente se pensarmos em futuras “fazendas” por lá. Já pensou em horta em Marte?

Por que isso é tão importante?
A microbiologista Corien Bakermans, da Pennsylvania State University, nos Estados Unidos, explica que qualquer plano para enviar seres humanos a outros planetas, como Marte, exige a compreensão de dois pontos centrais. O primeiro é avaliar de que forma o ambiente extraterrestre pode afetar – positiva ou negativamente – a saúde e o desempenho das tripulações. O segundo é analisar o inverso: como a presença humana pode modificar esse novo ambiente. Trata-se, segundo a pesquisadora, de uma “via de mão dupla”, que precisa ser cuidadosamente estudada antes de missões de longa duração se tornarem realidade.
“Com esta pesquisa, estamos olhando para um recurso em potencial para conseguir plantar como parte do estabelecimento de uma comunidade saudável – mas também estamos observando se existem quaisquer condições inerentemente prejudiciais no regolito que poderiam ajudar a proteger contra a contaminação da Terra, o que é um objetivo da proteção planetária.”
Corien Bakermans
A equipe de Bakermans está de olho em como podemos usar a água para tornar o solo de Marte mais amigável para o plantio. Mas também, se há algo no regolito marciano que, por ser meio tóxico, pode ser bom para impedir que se leve contaminação da Terra para lá, mantendo o Planeta Vermelho livre de microrganismos indesejados do nosso mundo.
Os tardígrados como heróis de estudo
Apesar de já termos descoberto que algumas plantas conseguem crescer em solo marciano simulado (o regolito), ainda tem um universo de coisas que não sabemos sobre como os organismos terrestres reagiriam em Marte. E é aí que os tardígrados entram em cena, com seus oito bracinhos e corpinho fofo!
Na Terra, esses organismos microscópicos estão por toda parte. Adaptam-se a diferentes ambientes, espalham-se pelo planeta e exercem funções essenciais nos ecossistemas, atuando como predadores e presas. Em futuros projetos de ecossistemas em Marte, seres como os tardígrados poderão ajudar a regular e equilibrar comunidades microbianas.
Além disso, eles são considerados modelos ideais para investigar como os animais se desenvolvem e sobrevivem em condições extremas. Os tardígrados figuram entre os organismos mais resistentes do planeta. Dispõem de um notável “arsenal” biológico, que inclui proteínas capazes de proteger o DNA, a habilidade de entrar em estado de desidratação (conhecido como “tun”) em situações adversas, e mecanismos altamente eficientes de reparo celular.
Tornando Marte mais acolhedor
Com as missões tripuladas a Marte se aproximando, Bakermans e sua equipe resolveram usar os tardígrados para avaliar a habitabilidade do regolito marciano e, quem sabe, descobrir como torná-lo mais acolhedor.
“Sabemos muito sobre bactérias e fungos em regolito simulado, mas muito pouco sobre como eles impactam animais – mesmo animais microscópicos, como tardígrados,” explica Bakermans. “Nós investigamos o impacto específico e isolado do regolito nos tardígrados.”
Corien Bakermans
Os pesquisadores concentraram a análise em duas espécies: Ramazzottius cf. varieornatus, de hábito terrestre, e Hypsibius exemplaris, associada a ambientes de água doce. Grupos de ambas foram expostos a dois simuladores de regolito marciano, conhecidos como MGS-1 e OUCM-1. O monitoramento do experimento se estendeu por vários dias.

Para comparação, grupos das mesmas espécies foram mantidos em areia comum da Terra, como controle. Nos dois simuladores marcianos, a sobrevivência caiu drasticamente após quatro dias. No MGS-1, todos os indivíduos de Hypsibius exemplaris morreram em dois dias. A Ramazzottius cf. varieornatus também registrou forte queda. No OUCM-1, o impacto foi um pouco menor, mas ainda significativo, enquanto os grupos mantidos na areia terrestre permaneceram ativos e saudáveis.
Suspeitando da presença de algum composto tóxico no MGS-1, os pesquisadores lavaram o simulador antes de repetir o experimento. O resultado foi significativo: os tardígrados expostos ao material tratado sobreviveram por mais tempo e apresentaram níveis de atividade semelhantes aos observados nos grupos mantidos na areia terrestre, indicando redução do efeito nocivo.

O mistério do MGS-1 e o futuro
“Parece que há algo muito prejudicial no MGS-1 que pode se dissolver em água – talvez sais ou algum outro composto,” comenta Bakermans. Ela destacou que, apesar de inesperado, isso é bom. Significa que o “mecanismo de defesa” do regolito poderia barrar contaminantes. Ao mesmo tempo, ele pode ser lavado para ajudar no crescimento de plantas ou evitar danos aos humanos que entrarem em contato.
Ainda há questões em aberto. Os cientistas buscam identificar com precisão o elemento do MGS-1 responsável pelos efeitos nocivos. pH e salinidade já foram descartados, mas seguem sob análise hipóteses como substâncias tóxicas, minerais altamente reativos ou partículas ultrafinas capazes de interferir na mobilidade dos organismos.
O estudo foi publicado no International Journal of Astrobiology e representa mais um passo na compreensão dos desafios ambientais associados a Marte.
Fonte: sciencealert.com
