Países do Golfo testam sistemas de defesa aérea diante de ondas de armas iranianas

Siga o Olhar Digital no Google Discover

Nos últimos dias, moradores de diversos países do Golfo observaram mísseis e drones cruzando o céu noturno, muitas vezes seguidos por clarões provocados por sistemas de defesa aérea que interceptavam os projéteis.

Em cidades, como Dubai e Abu Dhabi, ambas nos Emirados Árabes Unidos, vídeos dessas interceptações circularam rapidamente nas redes sociais, tornando visível uma infraestrutura de segurança que normalmente opera longe dos olhos do público.

Autoridades da região, porém, pediram que a população evite filmar ou compartilhar imagens de interceptações ou atividades militares. Segundo os governos, esse tipo de conteúdo pode revelar informações sensíveis sobre as operações de defesa.

A escalada recente começou após o Irã lançar ondas de mísseis e drones contra vários países do Golfo em retaliação a ataques dos Estados Unidos e de Israel que mataram o líder supremo iraniano, Ali Khamenei. Os ataques desencadearam respostas de defesa aérea em toda a região.

Governos de países, como Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Bahrein, afirmaram ter detectado ou interceptado centenas de mísseis e drones direcionados ao espaço aéreo, instalações militares e infraestrutura crítica.

A seguir, saiba como cada país do Golfo vem se defendendo dessa ofensiva.

Emirados Árabes Unidos

Os Emirados Árabes Unidos operam uma rede de defesa aérea em camadas, projetada para interceptar ameaças em diferentes etapas do voo.

No nível mais alto está o sistema Terminal High Altitude Area Defense (THAAD), desenvolvido pela Lockheed Martin. Ele é capaz de interceptar mísseis balísticos na fase final de descida utilizando o método “atingir-para-destruir”, que destrói o alvo por impacto direto em vez de usar uma ogiva explosiva.

Mais próximo do solo, baterias do sistema Patriot, desenvolvidas pela Raytheon, fornecem outra camada de proteção contra mísseis e outras ameaças aéreas. Redes de radar detectam lançamentos a centenas de quilômetros de distância, permitindo calcular trajetórias e lançar interceptadores em poucos minutos.

Desde o início da escalada, em 28 de fevereiro, o Ministério da Defesa dos Emirados informou que 196 mísseis balísticos foram detectados em direção ao país. Desses, 181 foram destruídos pelos sistemas de defesa aérea, 13 caíram no mar e dois atingiram o território do país.

Os ataques deixaram três mortos e 78 feridos — a maioria devido a destroços que caíram após interceptações, e não por impacto direto de mísseis. A infraestrutura digital também foi afetada. Instalações da Amazon Web Services (AWS) nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein foram atingidas diretamente, causando danos estruturais e interrupções de energia.

Segundo Andreas Krieg, professor associado do Departamento de Estudos de Defesa do King’s College London (Reino Unido), os resultados mostram tanto a eficiência quanto as limitações desses sistemas.

“Eu avaliaria o desempenho da defesa antimíssil do Golfo como taticamente capaz, mas estrategicamente pressionado. A verdadeira questão desta escalada não é se o Golfo consegue interceptar os ataques, mas sim se consegue manter essa capacidade no ritmo imposto por esses ataques”, disse à WIRED.

Krieg destaca que a defesa contra mísseis tornou-se uma disputa não apenas tecnológica, mas, também, de resistência. Interceptadores podem custar milhões de dólares, enquanto muitos drones utilizados nos ataques têm custo muito menor.

“Quando se trata de ataques repetidos, salvas mistas e pressão prolongada de drones, o fator limitante passa a ser a capacidade do carregador, a velocidade de reabastecimento e a viabilidade econômica de usar interceptores muito caros contra ameaças baratas e persistentes,” disse.

Os Emirados Árabes Unidos investem há mais de uma década na construção dessa arquitetura de defesa, integrando sistemas como THAAD e Patriot a redes regionais de radar e alerta antecipado.

Arábia Saudita

A Arábia Saudita opera uma das maiores redes de defesa aérea do Oriente Médio, moldada por anos de ataques com mísseis e drones contra cidades e infraestrutura energética.

O país depende fortemente do sistema Patriot, apoiado por redes de radar e outros ativos de defesa aérea destinados a proteger grandes centros populacionais e instalações petrolíferas. O reino também utiliza o interceptador PAC-3 MSE, uma versão avançada do Patriot desenvolvida pela Lockheed Martin para destruir mísseis balísticos por impacto direto.

Autoridades sauditas informaram ter interceptado múltiplos mísseis e drones que entraram no espaço aéreo do país. Em um incidente recente, nove drones foram destruídos pouco após cruzarem a fronteira. Também foram interceptados dois mísseis de cruzeiro na província de Al-Kharj Governorate.

Alguns ataques miraram infraestrutura energética crítica. Drones que se aproximavam da refinaria de petróleo de Ras Tanura oil refinery foram interceptados, mas destroços provocaram um pequeno incêndio rapidamente controlado.

Dias depois, o complexo de Ras Tanura voltou a ser atingido por um projétil não identificado, segundo fontes citadas pela Reuters, mostrando os riscos persistentes para instalações energéticas do país.

Krieg ressalta que defender grandes territórios contra ataques repetidos é um desafio significativo. “Mesmo quando as taxas de interceptação parecem boas no papel, o atacante não precisa de sucesso absoluto. Ele precisa de algumas invasões, além de medo e perturbação, para gerar efeito estratégico.”

A vasta geografia da Arábia Saudita aumenta a dificuldade, já que cidades, bases militares e instalações petrolíferas estão espalhadas por grandes distâncias.

Catar

No Catar, a estratégia de defesa aérea está fortemente conectada à arquitetura regional de segurança, especialmente por causa da base aérea Al Udeid, a maior instalação militar dos Estados Unidos no Oriente Médio.

Assim como outros países do Golfo, o Catar utiliza o sistema Patriot. Sensores e radares instalados na base — como o AN/FPS-132 — contribuem para um sistema de alerta antecipado mais amplo na região, detectando lançamentos e compartilhando dados de rastreamento com forças aliadas.

Krieg afirma que a integração regional é forte nas camadas de detecção e compartilhamento de dados. “A integração é mais forte nas camadas de ‘percepção’ e ‘compartilhamento’ — alerta antecipado, rastreamento, fusão de inteligência e coordenação operacional.”

Entretanto, a coordenação nem sempre se estende à fase de interceptação. “As lacunas persistem na camada de brotação”, disse ele, explicando que decisões de engajamento permanecem sob controle nacional.

Durante a escalada recente, o Catar informou ter interceptado 98 dos 101 mísseis balísticos lançados em direção ao país, além de três mísseis de cruzeiro e 24 drones entre os 39 detectados.

Sistema de defesa a laser
Exemplo de arma de defesa (Imagem: Divulgação/Rafael Advanced Systems)

Kuwait

O Kuwait também ativou seus sistemas de defesa aérea à medida que os ataques se espalharam pelo Golfo. Assim como a maioria de seus vizinhos, o país utiliza o sistema Patriot para interceptar mísseis balísticos e outras ameaças aéreas dirigidas a centros urbanos e infraestrutura crítica.

Autoridades kuwaitianas relataram ter interceptado vários drones e mísseis durante a escalada. Em alguns casos, destroços caídos após interceptações causaram danos e vítimas. Mesmo quando um míssil é destruído no ar, fragmentos do interceptador ou do projétil podem cair em alta velocidade, representando risco para civis e estruturas.

Leia mais:

Bahrein

O Bahrein abriga o quartel-general da US Navy Fifth Fleet, tornando-se um dos locais militares mais estratégicos da região.

O país também opera sistemas Patriot, incluindo interceptadores PAC-3, que funcionam em conjunto com redes de radar e alerta antecipado.

Desde o início dos ataques, autoridades afirmaram que os sistemas de defesa do Bahrein interceptaram 75 mísseis e 123 drones. Nem todas as ameaças, porém, foram neutralizadas. Em um incidente, um drone atingiu um prédio na capital Manama, causando uma morte e danos materiais.

Segundo o International Institute for Strategic Studies, países menores do Golfo enfrentam limitações estruturais de defesa devido ao território reduzido e menor profundidade militar. No caso do Bahrein, o tamanho da ilha deixa pouco espaço entre ameaças que chegam e áreas urbanas, fazendo com que interceptações ocorram muitas vezes próximas a zonas habitadas.

Omã

O papel de Omã na escalada é diferente do de muitos vizinhos porque o país não opera o sistema Patriot. Em vez disso, utiliza sistemas de defesa aérea de menor alcance, como o Norwegian Advanced Surface-to-Air Missile System, além de redes de radar voltadas ao monitoramento de ameaças aéreas próximas à costa e a portos estratégicos.

Durante a escalada, infraestrutura marítima também foi atingida. O porto comercial de Duqm sofreu vários ataques de drones. Autoridades omanenses também informaram que ao menos um petroleiro próximo ao porto de Khasab, no Estreito de Homus, foi alvo de ataques.

Esses incidentes mostram que os ataques na região se estenderam além de cidades e bases militares, atingindo também rotas marítimas e infraestrutura energética, pontos críticos da cadeia global de petróleo.

Jordânia

A Jordânia também ativou seus sistemas de defesa aérea durante a escalada, interceptando mísseis e drones que cruzaram ou violaram seu espaço aéreo. Segundo o Exército jordaniano, dezenas de ameaças foram engajadas, incluindo ao menos 13 mísseis balísticos e 49 drones. Destroços provocaram danos materiais, mas não houve registro de vítimas.

Devido à posição geográfica do país entre Irã e Israel, alguns mísseis lançados durante a escalada atravessaram o espaço aéreo jordaniano. As interceptações têm como objetivo principal evitar que armas ou destroços atinjam áreas habitadas. “Interceptar projéteis que cruzam seu espaço aéreo é uma prática básica de defesa territorial.” disse Krieg.

Teste real para sistemas de defesa

A sequência de ataques transformou o Golfo em um teste em tempo real para sistemas de defesa antimísseis. Redes de radar, mísseis interceptadores e arquiteturas de defesa em camadas evitaram danos muito maiores em muitos casos.

Ainda assim, os acontecimentos da última semana mostram que mesmo sistemas avançados não eliminam totalmente os riscos quando ataques ocorrem em ondas repetidas e simultâneas em vários países.