Mãos que transformam a floresta: artesanato acreano fatura R$ 1,2 milhão

Sementes, borracha e madeira ganham vida nas mãos de guardiões da cultura que preservam técnicas ancestrais e conquistam o Brasil

Mãos que transformam a floresta: artesanato acreano fatura R$ 1,2 milhão
Biojoias e objetos em marchetaria: o uso de matérias-primas como jarina e madeira reaproveitada conquista mercados nacionais/ Foto Dhárcules Pinheiro/Secom

Neste 19 de março, enquanto o calendário religioso celebra São José, o padroeiro dos carpinteiros, o Acre rende homenagens a outros operários da criatividade: os artesãos. Muito além do valor estético, o artesanato acreano consolidou-se como uma potência econômica silenciosa, movimentando mais de R$ 1,2 milhão em 2025, entre vendas diretas na Casa do Artesanato Acreano e participações em grandes feiras nacionais, como a Fenearte (PE) e o Salão do Artesanato (SP).

Casa do Artesanato Acreano, localizada no icônico Calçadão da Gameleira, é o termômetro desse sucesso. O faturamento no espaço saltou de R$ 174 mil, em 2024, para expressivos R$ 443 mil no ano passado. O segredo? A transformação de resíduos da floresta como sementes de açaí, jarina, paxiúba e restos de madeira em biojoias e objetos de luxo que carregam a alma da Amazônia.

Peças que carregam a identidade amazônica/ Foto: Bruno Moraes/Sete

A Voz da Experiência: O Legado de Socorro Souza

Entre os 131 expositores da Casa, destaca-se Socorro Souza. Com cinco décadas dedicadas ao ofício, ela quebrou barreiras em um setor antes dominado por homens. “Fui a primeira mulher no Acre a trabalhar com o beneficiamento de sementes”, relembra a artesã, que define sua profissão como a “âncora” de sua vida. Para Socorro, cada peça moldada é um ato de cuidado que atravessa gerações, um saber que ela agora convoca os jovens a preservar.

Políticas Públicas e Independência Feminina

O crescimento do setor não é obra do acaso. Sob a coordenação da Secretaria de Estado de Turismo e Empreendedorismo (Sete), o Acre atingiu a marca de 2.356 artesãos ativos em janeiro de 2026. Somente no último ano, 420 novos profissionais foram inseridos no sistema nacional (Sicab), garantindo acesso a benefícios e viagens para feiras em todo o país.

Mãos que transformam a floresta: artesanato acreano fatura R$ 1,2 milhão

Atualmente, o Acre conta com mais de 2.300 artesãos ativos, fortalecendo a economia criativa e a independência financeira de famílias/ Foto: Marcos Rocha/Sete

Patrícia Parente, diretora de Empreendedorismo da Sete, destaca que o impacto é, sobretudo, social. “Quando uma mulher cria com as próprias mãos, ela constrói autonomia e dignidade para sua família”, afirma. O artesanato feminino no Acre é hoje um dos principais caminhos para a independência financeira e a inclusão social no interior do estado.

Identidade que Ganha o Mundo

Do trançado das cestarias à precisão da marchetaria e ao simbolismo dos cocares indígenas, o artesanato local é o maior embaixador da cultura acreana. Para o secretário Marcelo Messias, a qualidade das peças é o que diferencia o estado no cenário nacional. “Temos um artesanato de valor, com história. Nosso foco é valorizar quem transforma matéria-prima em arte”, pontua.

Neste dia 19, a celebração é um chamado à valorização. Ao adquirir uma peça artesanal, o consumidor não leva apenas um objeto decorativo, mas horas de dedicação de mãos que, com paciência e talento, mantêm viva a história viva do Acre.