A 75ª edição do Festival de Berlim, realizado em fevereiro, terminou sob a sombra de um debate importante sobre mudanças no cinema mundial. O evento, historicamente conhecido como o “mais político do mundo”, adotou uma postura mais cautelosa ao se referir a conflitos internacionais e ao próprio debate sobre se a arte é, ou não, política.
Tudo começou com a declaração do presidente do júri, o cineasta alemão Wim Wenders, de que o cinema deveria ficar “fora da política”. A fala repercutiu e ganhou ainda mais força diante do silêncio de vários artistas quando questionados sobre temas sensíveis durante o Festival, especialmente sobre os confrontos na Faixa de Gaza e as políticas de imigração dos Estados Unidos. Diante desse cenário, o festival passou a adotar um tom mais contido.
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O presidente do júri, Wim Wenders do 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale)
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A diretora da 76ª edição da Berlinale, Tricia Tuttle
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Atores sobem ao palco carregando a bandeira palestina no 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale)
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Os prêmios Urso de Ouro e Urso de Prata da 76ª edição da Berlinale
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A Fabulosa Máquina do Tempo será exibido no Festival de Berlim
Divulgação
A diretora da 76ª Berlinale, Tricia Tuttle, divulgou uma nota em defesa de cineastas e jurados na qual afirmou que os artistas “são livres para exercer seu direito à liberdade de expressão da forma que desejarem” e não devem “ser obrigados a se pronunciar sobre toda questão política que seja apresentada, a menos que queiram”.
A manifestação chamou atenção justamente por partir de um Festival com uma identidade que sempre esteve associada ao enfrentamento público de temas sensíveis. Para parte do meio cinematográfico, a postura levantou questionamentos sobre até que ponto se trata de um reposicionamento do Festival ou apenas de um gesto pontual.
Para a coordenadora do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM, Gisele Jordão, a questão precisa ser analisada à luz da origem do próprio Festival. Segundo ela, “a própria origem da Berlinale já a condena a ser política”, lembrando que o evento surgiu em uma Berlim dividida após a Segunda Guerra Mundial e funcionou durante décadas como vitrine simbólica.
A especialista ressalta que essa marca histórica foi além da questão geográfica do período em que ele surgiu, já que, do ponto de vista curatorial, o Festival sempre privilegiou filmes sobre ditaduras, guerra, desigualdade e fronteiras.
“O microfone sempre esteve disponível e, muitas vezes, estimulado, para que artistas se pronunciassem sobre conflitos do seu tempo”, afirma. Nesse contexto, a postura adotada na edição de 2026 representou, para a pesquisadora, uma mudança de tom.
O professor do departamento de audiovisual da Universidade de Brasília (UnB), João Lanari Bo, no entanto, vê a ruptura tradicional sob um outro olhar. Para ele, a fala de Wenders teve caráter provocativo e cumpriu a função de recolocar o debate do Festival em evidência. No entendimento do professor, é “evidente que o cinema é sempre político” em sentido amplo e que Wenders sabe disso.
“Essa nossa época vive uma crise sem precedentes, duas guerras, Gaza e Ucrânia, que se arrastam, líderes em sua maioria enlouquecidos ou irresponsáveis, ou os dois. Acho que dizer que ‘artistas não são obrigados a se manifestar’ é, de novo, provocar e trazer para o primeiro plano uma discussão política”.
Discursos “isentos’” têm sido frequentes
O discurso cauteloso apareceu ainda no Bafta 2026, quando o diretor Paul Thomas Anderson afirmou que não era um político e sim cineasta. A declaração se somou a outras falas de artistas que figuram entre as principais premiações em 2026 e sugere que essa cautela não é exclusiva do festival alemão.
Para Lanari, declarações como “não sou político, sou cineasta” não suspendem o caráter político da atuação pública, ao contrário, configuram uma tomada de posição. “Afirmar ‘não sou político, sou cineasta’ é também um ato político, agora e no passado”.
Já Jordão identifica três fatores que ajudam a explicar essa postura: o clima de polarização extrema, a dependência econômica de mercados diversos, sejam eles autoritários ou conservadores, e um certo esgotamento dos discursos performáticos em premiações. Em contextos de guerra cultural, afirma, muitos artistas temem que uma frase pese mais do que a própria obra.
Fora do eixo hollywoodiano, no entanto, a relação entre arte e política tende a ser menos abstrata. Jordão observa que, em países como o Brasil, essa conexão não é apenas teórica, mas experiência concreta. É o caso, por exemplo, de brasileiros como Wagner Moura e Kléber Mendonça Filho, que vêm fazendo discursos atrelando a arte à política com frequência durante a temporada de premiações.
“Para um cineasta brasileiro, dizer que ‘arte e política sempre estiveram misturadas’ não é uma tese acadêmica, é uma constatação biográfica.” Em contextos onde decisões institucionais afetam financiamento, censura e até a sobrevivência profissional, a separação entre arte e política se torna artificial.
Já Lanari observa, contudo, que essa discussão não é, necessariamente, protagonizada apenas por pessoas fora do eixo hollywoodiano. “Um dos filmes mais políticos do ano, Uma Batalha Após a Outra, veio do coração hollywoodiano, e é o favorito para o Oscar”, frisou.
Em meio a este debate e à percepção de mudança no tom associados ao Festival de Berlim, muito se especulou se, de fato, pode existir algum tipo de mudança, a longo prazo, nos ideais que sempre pautaram o evento.
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Jordão avalia que existe um risco simbólico caso a Berlinale passe a sinalizar preferência por um cinema menos tensionado politicamente, o que poderia diluir um diferencial histórico construído ao longo de décadas.
Lanari, por outro lado, acredita que o festival possui tradição e capacidade de ajuste suficientes para atravessar o momento sem uma mudança estrutural profunda. Para ele, a Berlinale “tem uma longa tradição, tem sempre ajustes e correções”, o que indica que a polêmica pode representar apenas um episódio e não uma guinada definitiva.

