A nova série da Netflix sobre o desastre do Césio-137 em Goiânia mergulha na dimensão humana de uma das maiores tragédias radiológicas do mundo. A produção reconstrói o impacto imediato da contaminação, o sofrimento das vítimas e o trabalho de cientistas e profissionais de saúde que atuaram para conter a crise.
Mas, por causa do recorte narrativo, parte importante dessa história fica fora da tela: o que aconteceu com as vítimas e com os rejeitos radioativos depois que o país virou a página da tragédia.
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O acidente ocorreu em 13 de setembro de 1987, quando catadores encontraram um aparelho de radioterapia abandonado em uma clínica desativada em Goiânia. Dentro da máquina havia uma cápsula com Césio‑137, material altamente radioativo que emitia um pó azul brilhante.
A curiosidade e o fascínio diante do brilho acabaram espalhando a substância entre familiares, vizinhos e moradores do bairro. A contaminação se alastrou rapidamente.
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Manchete do Jornal do Brasil sobre a tragédia
Reprodução
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Demolição do Ferro Velho onde cápsula de Césio-137 foi aberta pela 1ª vez
Reprodução/Agência Internacional de Energia Atómica
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Demolição de casas contaminadas pelo Césio-137
Reprodução/Agência Internacional de Energia Atómica
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Leide das Neves, que inspirou a história de Celeste, personagem de Emergência Radioativa. Ela morreu cerca de 1 mês após contato com o Césio-137
Reprodução/TV Anhanguera
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Menina de 6 anos foi uma das quatro pessoas que morreram por causa da contaminação com o material radioativo, há quase 40 anos, em Goiânia
Reprodução/TV Anhanguera
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Cápsula de onde saiu o Césio-137 que causou desastre em Goiânia
Reprodução/Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)
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Assim como mostrado na série, recipiente com Césio-137 ficou dias em uma cadeira na Vigilância Sanitária
Reprodução/Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)
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Maria Gabriela, tia de Leide e esposa de Devair Alves Ferreira, dono do ferro velho onde a cápsula de Césio foi aberta
Arquivo/Polícia Federal
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Velório das vítimas
Reprodução/Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)
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Local onde rejeitos do Césio foram depositados
Reprodução/Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)
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Leide das Neves Ferreira tornou-se a vítima símbolo da tragédia. Ela tinha apenas 6 anos de idade
Vinícius Schmidt/Metrópoles
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Israel Batista trabalhava no ferro velho de Devair e manuseou, no local, a cápsula de Césio
Vinícius Schmidt/Metrópoles
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Maria Gabriela, tia de Leide das Neves, também morreu. Ela e a sobrinha foram enterradas no mesmo dia, em Goiânia
Vinícius Schmidt/Metrópoles
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Vítimas que morreram foram enterradas em túmulos especiais, com concreto reforçado
Vinícius Schmidt/Metrópoles
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Segundo lote concretado, no Setor Aeroporto, em Goiânia, onde ficava o ferro velho do Devair, que comprou as peças do aparelho que continha Césio
Vinícius Schmidt/Metrópoles
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Técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) fazem monitoramento periódico no local
Vinícius Schmidt/Metrópoles
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Atualmente o terreno pertence ao estado e é monitorado para que não haja qualquer intervenção no local
Vinícius Schmidt/Metrópoles
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Terreno isolado por concreto especial, no centro de Goiânia, onde ficava a casa de um dos atingidos pelo Césio-137
Vinícius Schmidt/Metrópoles
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Lote na Rua 57, no Centro de Goiânia, onde ficava a casa de um dos homens que coletou o aparelho abandonando contendo a cápsula de Césio em 13 de setembro de 1987
Vinícius Schmidt/Metrópoles
O que aconteceu depois da tragédia
Após semanas de descontaminação, toneladas de entulho, solo, roupas e objetos contaminados foram recolhidos e armazenados em um depósito construído em Abadia de Goiás, na região metropolitana da capital.
Ali, tonéis com material radioativo foram encapsulados em estruturas de concreto, formando um complexo que permanece sob monitoramento permanente até hoje.
A área virou o destino final de tudo o que entrou em contato com o césio: casas demolidas, móveis, utensílios e até pertences pessoais das famílias afetadas.
Embora a série destaque o drama vivido pelas vítimas nos dias seguintes ao acidente, a vida de muitas delas continuou marcada pela tragédia por décadas.
Sequelas que persistem
Registros oficiais apontam quatro mortes diretamente relacionadas à radiação. Mas a Associação de Vítimas do Césio-137 afirma que o número de óbitos pode chegar a 60 ao longo dos anos. Além disso, cerca de 1,6 mil pessoas foram afetadas diretamente pela contaminação.
Com o passar do tempo, muitos passaram a enfrentar tumores, doenças crônicas e problemas de saúde associados à exposição à radiação.
Reconhecimentos oficiais também demoraram a acontecer. Apenas em 2000 o Ministério da Saúde passou a reconhecer novas vítimas além das registradas inicialmente. Até 2002, mais de 800 pessoas haviam sido oficialmente consideradas atingidas pelo acidente.
A luta por reparação
Décadas depois, a batalha por indenização e assistência continua. Uma lei estadual criada em 2002 instituiu pensões especiais para pessoas irradiadas, trabalhadores que atuaram na descontaminação e profissionais de saúde que atenderam as vítimas. O benefício também se estendeu a descendentes de vítimas falecidas.
Mesmo assim, o valor pago pelo governo estadual para parte das vítimas ainda é alvo de críticas: R$ 954.
Entre eles está Lourdes das Neves Ferreira, mãe de Leide das Neves Ferreira, menina de 6 anos que se tornou símbolo da tragédia após morrer dias depois de entrar em contato com o material radioativo.
Além da filha, Lourdes perdeu o marido, a casa e todos os bens que possuía. O imóvel onde vivia precisou ser demolido por causa da contaminação.
Hoje ela vive em Aparecida de Goiânia e depende de doações para complementar a renda e comprar medicamentos. “Eu não quero nada de luxo. Só quero ter um final de vida digno”, disse, em entrevista ao Metrópoles no ano passado.

