Um ano após o caso que chocou o Acre, a morte de Yara Paulino continua cercada de perguntas sem resposta. O episódio, que começou a partir de um boato e terminou em um linchamento violento, completa um ano nesta terça-feira (24). Apesar das investigações terem avançado, um mistério central permanece: o paradeiro da bebê ligada à história.
Yara Paulino, foi alvo de uma suspeita que rapidamente se espalhou entre moradores de que teria matado a própria filha: Foto/Reprodução
Para relembrar o caso, a reportagem conversou com o delegado Alcino Ferreira, um dos responsáveis pelas investigações. Segundo ele, o trabalho da polícia enfrenta uma dificuldade crucial: não há qualquer registro oficial da criança.
O início da tragédia
Yara Paulino, de 27 anos, foi alvo de uma suspeita que rapidamente se espalhou entre moradores: a de que teria matado a própria filha recém-nascida. A informação, no entanto, nunca foi confirmada naquele momento. A situação se agravou após a descoberta de uma sacola contendo restos mortais.
Diante disso, a jovem foi violentamente agredida em via pública até a morte, em um crime que ocorreu na presença de várias pessoas. De acordo com o Ministério Público do Acre (MPAC), dois filhos de Yara teriam presenciado a cena.
Horas depois, veio a revelação que mudou completamente o rumo do caso: os restos encontrados não eram humanos, mas de um animal.
A bebê sem registros
As investigações apontam que a filha de Yara, chamada informalmente de Cristina Maria, teria nascido no final de 2024, mas nunca foi registrada oficialmente. Essa ausência de documentação tornou praticamente inexistente qualquer rastro formal da criança.
“Você tinha um recém-nascido, mas não tinha um nome, não tinha alguém, uma pessoa. Isso já demonstra a vulnerabilidade social daquele momento”, afirmou o delegado.
As investigações apontam que a filha de Yara, chamada informalmente de Cristina Maria, teria nascido no final de 2024: Foto/Reprodução
A polícia só conseguiu confirmar de forma mais concreta a existência da bebê após a morte de Yara. Segundo Alcino, há um intervalo estimado de duas a três semanas entre o desaparecimento da criança e o linchamento da mãe. “Supostamente por conta da acusação de que ela teria matado a própria filha”, complementa.
Contradições e falta de colaboração
Um dos pontos que mais chama atenção na investigação é o fato de que a motivação do crime pode ter sido baseada em uma informação falsa, já que os restos mortais não pertenciam a um ser humano.
Além disso, a postura de familiares tem dificultado o avanço das buscas. De acordo com a polícia, o pai da criança não tem colaborado com as investigações.
“As pessoas que teoricamente teriam interesse em achar essa criança são as mesmas que não colaboram com as buscas. O próprio pai é sempre evasivo quando o assunto é a criança”, afirmou Alcino.
O delegado também confirmou a participação do pai de Cristina Maria no episódio que resultou na morte de Yara. “Ele esteve no dia, viu o início do espancamento e teria incentivado o que aconteceu junto com o irmão”, esclarece.
Os dois foram presos em abril de 2025, durante uma operação que também resultou na detenção de outras seis pessoas.
Suspeita de rede criminosa
Durante as apurações, a polícia identificou indícios de que o caso pode estar inserido em um cenário mais amplo. Há sinais de um possível padrão envolvendo mulheres em situação de vulnerabilidade e o desaparecimento de recém-nascidos.
“A gente acaba descobrindo que não é uma situação isolada. Há um perfil de mulheres em situação de drogadição cujas crianças ou são prometidas para famílias ou podem ser levadas por organizações criminosas”, explicou o delegado, que não descarta hipóteses como tráfico ou venda de bebês.
A criança foi incluída no sistema Amber Alert, mecanismo de emergência que divulga informações sobre menores desaparecidos em situações de risco, ampliando as buscas por meio das redes sociais em um raio de até 160 quilômetros do último local onde foi vista.
Mistério continua
Mesmo com prisões, diligências e diversas linhas de investigação, não há confirmação sobre o destino da criança. Uma das possibilidades é que ela esteja viva, mas fora de qualquer registro oficial.
“Se você me perguntar hoje se essa criança está viva ou morta, eu não saberia dizer. A gente não conseguiu fazer esse rastreio”, afirmou Alcino.
Caso segue em aberto
Para o delegado, o trabalho ainda está longe de terminar. “Eu ainda tenho esperança de que surja algum elemento que nos leve até essa criança”, disse.
Ele também revelou o impacto pessoal que o caso provocou. “É um caso que me impacta muito. Muitas vezes me pego pensando sobre isso. Quando a própria família não demonstra interesse, a gente também se sente impotente”.
Atualmente, oito pessoas estão presas, incluindo o ex-companheiro de Yara, que é pai da criança, e o irmão dele. Ainda assim, várias perguntas permanecem sem resposta: o que motivou tamanha violência? Há mais envolvidos? E, principalmente, onde está Cristina Maria?
Yara Paulino está entre as 14 vítimas de feminicídio registradas no Acre em 2025. Sua história, marcada por vulnerabilidade e violência, evidencia não apenas a brutalidade do crime, mas também a necessidade de reflexão sobre a forma como vidas em situação de fragilidade são tratadas.