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Andrea Ghez, a mulher que enxergou o invisível aos olhos

Andrea Ghez, a mulher que enxergou o invisível aos olhos

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A Astronomia existe porque a luz das estrelas despertou a curiosidade de nossos ancestrais mais remotos. Por milênios, ampliamos nosso conhecimento sobre o Universo observando o brilho de estrelas, nebulosas e galáxias. Mas alguns dos objetos mais fascinantes do cosmos são justamente aqueles que não emitem absolutamente nenhuma luz. Buracos negros estão entre os fenômenos mais extremos previstos pela física: regiões onde a gravidade se torna tão intensa que nada, nem mesmo a luz, consegue escapar.

Durante muito tempo eles foram considerados quase entidades teóricas, inferidas principalmente por cálculos. Torná-los observáveis exigiu uma combinação rara de paciência, genialidade e coragem científica. Foi exatamente esse desafio que guiou a carreira de Andrea Ghez, a astrônoma que dedicou décadas de sua vida para encontrar algo que, por definição, não pode ser visto: o buraco negro supermassivo no centro da nossa galáxia.

Andrea Ghez em 2019 – Créditos: Ezra Ekman

Ghez nasceu em 1965, em Nova York, e desde jovem demonstrou fascínio pelo espaço. O auge das missões do Programa Apollo inspirou aquela menina que sonhava em ser astronauta. Sua mãe incentivou essa curiosidade comprando-lhe um telescópio, e o interesse pelo céu acabou se transformando em carreira científica. Durante sua formação acadêmica — primeiro no MIT e depois no doutorado no Caltech — ela passou a se interessar por um dos maiores mistérios da astrofísica: os buracos negros gigantes que poderiam existir no centro das galáxias.

Desde meados do século XX os astrônomos já suspeitavam que muitas galáxias poderiam abrigar esses objetos colossais. No caso da nossa própria galáxia, havia uma fonte compacta de rádio localizada na direção da constelação de Sagitário, conhecida como Sagittarius A*. As evidências eram intrigantes, mas havia um problema fundamental: como comprovar a existência de algo que não pode ser observado diretamente?

Buracos negros são objetos extremamente compactos, onde uma grande quantidade de massa está comprimida em uma região muito pequena do espaço. Nessas condições, forma-se ao redor deles uma região chamada horizonte de eventos, além da qual nada pode escapar. Como consequência, eles não refletem nem emitem luz. A única maneira de detectá-los é observar seus efeitos gravitacionais sobre o ambiente ao redor, afetando a órbita de estrelas próximas.

Só que medir isso não é nada simples. O centro da Via Láctea está escondido atrás de densas nuvens de poeira interestelar que bloqueiam a luz visível. Além disso, a região onde essas estrelas se movem é extremamente pequena no céu, exigindo imagens com altíssima resolução que nossos telescópios não alcançavam.

Superar esses obstáculos foi o desafio que Andrea Ghez decidiu enfrentar.

Para enxergar através da poeira interestelar, é necessário observar no infravermelho, um tipo de radiação invisível aos nossos olhos, mas capaz de atravessar essas nuvens. Ainda assim havia outro obstáculo importante: a atmosfera da Terra. Até mesmo em nossos melhores telescópios, a turbulência da atmosfera distorce as imagens captadas. Ou melhor, distorciam!

Centro da Via Láctea (acima e à esquerda) registrado por um telescópio infravermelho 2MASS – Créditos: 2MASS/G. Kopan, R. Hurt

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Utilizando os telescópios gigantes do Observatório Keck, no Havaí, Ghez e sua equipe ajudaram a desenvolver e aplicar técnicas avançadas de óptica adaptativa. Esse sistema utiliza espelhos deformáveis que se ajustam centenas de vezes por segundo para compensar as distorções da atmosfera, permitindo obter imagens muito mais nítidas do céu.

Par de telescópios do Observatório Keck, no Hawaii, apontando para o centro da Via Láctea – Créditos: Sean Goebel

Com essa tecnologia, começou um projeto que exigiria algo raro na ciência moderna: paciência de décadas. Em vez de fazer observações isoladas, a equipe passou a monitorar continuamente as estrelas próximas ao centro da galáxia. Ano após ano, registravam suas posições com precisão, construindo um verdadeiro filme do movimento dessas estrelas.

E foi esse filme que revelou a resposta.

Algumas dessas estrelas exibem órbitas extremamente rápidas ao redor de um ponto aparentemente vazio. Uma delas, chamada S-02, chega a atingir velocidade superior a sete mil quilômetros por segundo. Para que uma estrela se mova dessa forma, é necessário que exista uma enorme concentração de massa naquele local,  cerca de quatro milhões de vezes a massa do Sol, comprimida em um volume relativamente pequeno. 

Trajetórias das estrelas no centro da Via Láctea entre 1995 e 2012 que revelaram a presença de um buraco negro supermassivo – Créditos: Keck Observatory / UCLA Galactic Center Group

Nenhum aglomerado de estrelas ou nuvem de matéria poderia permanecer estável nessas condições. A única explicação consistente com as leis da física era a presença de um buraco negro supermassivo.

Assim, observando cuidadosamente o movimento das estrelas, Andrea Ghez conseguiu demonstrar empiricamente a existência do monstro cósmico no centro da nossa galáxia. Não vendo o objeto em si, mas observando a dança gravitacional que ele impõe às estrelas ao seu redor.

Resultados semelhantes foram obtidos de forma independente pela equipe liderada por Reinhard Genzel. Juntos, esses trabalhos estabeleceram uma das evidências mais sólidas da existência de buracos negros supermassivos. Em 2020, Ghez e Genzel foram laureados com o Nobel em Física por essa descoberta — e ela se tornou apenas a quarta mulher na história a receber esse prêmio.

Mas o caminho até esse reconhecimento não foi simples. A astronomia observacional, especialmente nas décadas de 1980 e 1990, ainda era um ambiente dominado por homens. Ghez frequentemente relata que precisou enfrentar expectativas reduzidas e a falta de modelos femininos na área. Em vez de aceitar essas limitações, decidiu concentrar sua energia na curiosidade científica que a motivava.

Seu trabalho também ilustra algo fundamental sobre como a ciência realmente funciona. Grandes descobertas raramente surgem de um único experimento espetacular. Muitas vezes elas são construídas lentamente, com medições cuidadosas repetidas ao longo de anos ou décadas. 

Graças a esse trabalho, hoje sabemos que praticamente todas as grandes galáxias podem abrigar buracos negros supermassivos em seus centros, desempenhando um papel importante na evolução galáctica. Mas essa compreensão começou com observações detalhadas de um pequeno grupo de estrelas orbitando um ponto invisível no céu.

A trajetória de Andrea Ghez mostra que, às vezes, a ciência precisa da persistência, da coragem e da genialidade de uma mulher para enxergar aquilo que é invisível aos olhos. Mostra ainda, que a evolução do conhecimento humano depende dos avanços, não apenas tecnológicos, mas também culturais.

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