OVNIS? A intrigante observação solar de José Bonilla de 1883

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1883 definitivamente não foi um ano monótono. Foi o ano da inauguração da Ponte do Brooklyn, do início das viagens do lendário Expresso do Oriente, do nascimento de Franz Kafka e da morte de Karl Marx. Na Indonésia, o vulcão Krakatoa explodiu com força devastadora. E, no México, algo absolutamente fora do comum foi registrado cruzando o céu — ou melhor, cruzando o Sol.

Não foi um eclipse, não foi um planeta, nem uma mancha solar. Foram centenas de objetos escuros, envoltos por uma estranha névoa, atravessando silenciosamente o disco solar. Numerosos demais para serem ignorados e rápidos demais para serem confundidos com fenômenos solares conhecidos.

[ José Árbol y Bonilla – Imagem gerada por IA (Gemini) ]

Mas o que seria aquilo então? Um pássaro? Um avião? O Chapolin Colorado… ou os primeiros registros fotográficos de OVNIs da história? A resposta só surgiria quase 130 anos depois — e surpreenderia muita gente.

Esse intrigante fenômeno foi observado a partir de Zacatecas, no México, pelo astrônomo José Árbol y Bonilla, e desde então ocupa um lugar singular na história da observação astronômica. O observatório de Zacatecas havia sido inaugurado poucos meses antes e participou das observações do trânsito de Vênus de 1882. A astronomia vivia uma fase de transição, em que a fotografia começava a se consolidar como uma ferramenta científica revolucionária — e Bonilla fazia parte dessa vanguarda.

Nascido em 1853, Bonilla formou-se engenheiro topográfico e foi pupilo do astrônomo Francisco Díaz Covarrubias. Estudou técnicas modernas de observação e fotografia astronômica e participou da fundação do Observatório do Cerro de la Bufa, que dirigiu por vários anos. Foi ali que ele não apenas testemunhou, mas também descreveu e fotografou o estranho fenômeno.

Bonilla realizava observações solares diárias com um telescópio de 10 polegadas, acompanhando manchas e protuberâncias solares. Mas na manhã de 12 de agosto de 1883, algo quebrou completamente a rotina. Por volta das 8 horas, um objeto luminoso entrou no campo de visão. Ao cruzar o brilho intenso do Sol, transformou-se em uma silhueta escura, cercada por uma névoa e deixando um rastro difuso. Antes que o espanto passasse, o fenômeno se repetiu. E depois novamente. E outra vez.

Ao longo de dois dias, Bonilla contabilizou 447 objetos atravessando o disco solar. Não era um evento isolado, mas uma verdadeira procissão celeste. O mais intrigante é que essas passagens não foram observadas de outras cidades mexicanas com observatórios ativos, como Puebla ou a Cidade do México — um detalhe que mais tarde se mostraria fundamental.

Mesmo sem compreender a natureza do fenômeno, Bonilla fez o que se espera de um bom cientista: registrou cuidadosamente suas observações e enviou o relato, junto com uma das fotografias, para a revista L’Astronomie, uma das publicações científicas mais respeitadas da época. À frente dela estava Camille Flammarion, figura central da divulgação científica no século XIX. Graças a ele, as observações de Bonilla ganharam projeção internacional e não se perderam nos arquivos de um observatório remoto.

[ Uma das fotos feitas por Bonilla em 12 de agosto de 1883. Objeto registrado destacado com a seta – Créditos: José A. y Bonilla ]

Ainda assim, nem Flammarion nem seus contemporâneos conseguiram oferecer uma explicação convincente. As hipóteses levantadas — pássaros, insetos ou poeira diante do telescópio — pareciam frágeis diante da quantidade, da regularidade e do aspecto dos objetos. O mistério permaneceu em aberto.

Com o passar das décadas, o episódio ganhou uma nova leitura fora da astronomia acadêmica. Entusiastas da ufologia passaram a considerar as fotografias de Bonilla como os primeiros registros ufológicos da história, muito antes do termo “OVNI” existir. Objetos desconhecidos, numerosos, fotografados cruzando o Sol no século XIX: para a ufologia, o caso era simplesmente irresistível.

Mas a ciência tem seu próprio ritmo. Aquilo que outrora era apenas espanto, no século XXI tornou-se um problema físico bem definido. Em 2011, pesquisadores mexicanos revisitaram o caso, analisando com ferramentas modernas os dados originais deixados por Bonilla.

O primeiro passo foi simples: se os objetos não foram vistos de outras cidades, eles não poderiam estar muito distantes. Colocando na calculadora, para ser visto em Zacatecas e não ser visto na Cidade do México, os objetos não poderiam estar além de cerca de 65 mil quilômetros da Terra — uma distância extremamente pequena em termos astronômicos.

[ Geometria da observação de Bonilla: Z (Zacatecas), M (Cidade do México ou Puebla), O é o ponto onde os objetos foram observados e d é a distância conhecida entre as duas cidades – Créditos: Manterola, H. et al, 2011 ]

O formato irregular dos corpos e a névoa ao redor são características típicas de fragmentos cometários. Ao analisar o tempo que cada objeto levava para cruzar o disco solar — frações de segundo — e assumir velocidades compatíveis com cometas próximos da Terra, os cálculos indicam algo ainda mais inquietante: esses fragmentos podem ter passado entre 500 e 8 mil quilômetros de altitude, mais próximos do que muitos satélites artificiais atuais.

As fotografias também permitiram estimar o tamanho desses corpos. A comparação entre os fragmentos e o diâmetro do Sol revela dimensões da ordem de dezenas a centenas de metros. Objetos assim não são poeira, insetos ou ilusões ópticas. São corpos reais, com massa e potencial destrutivo significativo.

A explicação mais plausível, portanto, se impõe com força quase épica: José Árbol y Bonilla observou os fragmentos de um cometa que passou extremamente próximo da Terra, já profundamente despedaçado. Hoje sabemos que cometas podem se fragmentar de forma dramática ao se aproximarem do Sol. Casos recentes, como o do cometa 73P/Schwassmann-Wachmann, mostram que um único núcleo pode se dividir em dezenas ou centenas de pedaços.

[ Fragmentação do Cometa 73P/Schwassmann-Wachmann – Créditos: NASA/Hubble/STScI ]

No final do século XIX, porém, esse tipo de fragmentação extrema ainda era pouco conhecido. Bonilla e Flammarion estavam diante de um fenômeno real, mas à frente de seu tempo e potencialmente perturbador. Se aqueles fragmentos tivessem atingido a Terra, muitos teriam energia comparável ao evento de Tunguska, em 1908 — centenas de impactos devastadores em poucos dias. Se a hipótese estiver correta, nosso planeta passou perigosamente perto de algo muito semelhante ao impacto do Shoemaker-Levy 9 em Júpiter, em 1994.

Graças ao trabalho de José Árbol y Bonilla, o episódio de 1883 lembra que o céu está longe de ser um palco tranquilo. Ele é dinâmico, às vezes perigoso, e profundamente indiferente à nossa existência. Também nos lembra que a ciência é um processo histórico, construído aos poucos, mas fundamental para o nosso conhecimento do Cosmos e para a proteção do nosso planeta.