O que acontece depois que um cometa ‘desaparece’ do céu? Estudo tem uma teoria

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Cinco anos após sua fragmentação no sistema solar interno, o cometa C/2019 Y4 ATLAS ainda levanta dúvidas entre astrônomos. Embora observações recentes não tenham identificado vestígios claros do objeto, pesquisadores não descartam a possibilidade de que um fragmento com menos de meio quilômetro de diâmetro continue em órbita, afastando-se novamente em direção às regiões mais frias e distantes do Sistema Solar.

O C/2019 Y4 foi descoberto em dezembro de 2019 pelo Sistema de Alerta Final de Impacto Terrestre de Asteroides e rapidamente chamou a atenção da comunidade científica. No início de 2020, à medida que avançava rumo ao interior do Sistema Solar, o cometa aumentou de brilho e chegou a ser apontado como possível espetáculo visível a olho nu.

A expectativa era que ele passasse a cerca de 37,5 milhões de quilômetros do Sol – aproximadamente um quarto da distância entre a Terra e a estrela.

Mas o cenário mudou abruptamente no fim de abril de 2020, quando o núcleo do cometa começou a se despedaçar. Em poucas semanas, o objeto se fragmentou em dezenas de partes. Observações do Telescópio Espacial Hubble e de outros instrumentos revelaram quatro principais aglomerados de detritos. Posteriormente, um deles foi descartado como erro de dados e outro se dissipou em poucos dias, restando dois conjuntos identificados como fragmento A e fragmento B.

A última detecção confirmada do cometa ocorreu em 8 de junho de 2020, por meio de imagens da sonda STEREO, da NASA, poucos dias após o periélio – o ponto de maior aproximação do Sol. Na ocasião, os registros indicavam que o núcleo parecia completamente destruído.

Ainda assim, o destino final dos fragmentos permaneceu incerto.

O fragmento A provavelmente se transformou em uma nuvem de gás e poeira. Nos primeiros dias após a ruptura, estima-se que tenha perdido cerca de 70% de sua massa, resultado do processo de sublimação acelerado pelo calor solar. Já o fragmento B, que pouco antes do periélio tinha cerca de 1,2 quilômetro de largura, também apresentou sinais de desintegração significativa nas semanas seguintes.

Na tentativa de esclarecer o que restou do C/2019 Y4, uma equipe liderada por Salvatore A. Cordova Quijano, da Universidade de Boston, realizou novas buscas em agosto e outubro de 2020. Utilizando o Telescópio Lowell Discovery, no Arizona, e dados do Zwicky Transient Facility – que varre regularmente o céu do hemisfério norte em busca de objetos transitórios -, os pesquisadores não encontraram qualquer evidência visível dos fragmentos.

A ausência de detecção, no entanto, não significa necessariamente o desaparecimento total do cometa.

cometa C/2019 Y4 ATLAS
C/2019 Y4 ATLAS registrado pelo Zwicky Transient Facility (Imagem: The Astronomical Journal)

Segundo o estudo publicado no The Astronomical Journal, é possível que o que restou tenha dimensões inferiores ao limite de sensibilidade dos telescópios utilizados, estimado em cerca de meio quilômetro. Em outras palavras, um núcleo reduzido e inativo pode ainda existir, mas pequeno demais para ser observado com os instrumentos empregados na época.

Além de tentar solucionar o enigma específico do C/2019 Y4, a pesquisa contribui para um debate mais amplo: quantos cometas considerados “desintegrados” realmente desaparecem por completo? Casos documentados de fragmentação são raros – apenas três confirmados e quatro suspeitos até agora – e, em vários deles, faltaram observações posteriores capazes de determinar se algum fragmento sobreviveu.

Os autores defendem que, após a conjunção solar – quando o cometa reaparece do outro lado do Sol em relação à Terra -, campanhas de observação mais profundas poderiam confirmar de forma definitiva o destino desses objetos. No caso do C/2019 Y4, uma busca mais detalhada logo após sua reaparição, em meados de 2020, poderia ter esclarecido se ainda existia um remanescente sólido.

Embora já seja tarde para realizar esse acompanhamento específico, o episódio serve como alerta para futuras ocorrências. A fragmentação do C/2019 Y4 ofereceu uma rara oportunidade de estudar em tempo real a desintegração de um cometa sob intenso aquecimento solar. Se um pequeno fragmento ainda estiver percorrendo silenciosamente sua órbita, ele pode ajudar a responder uma questão fundamental sobre a vida e a morte desses antigos viajantes gelados do Sistema Solar.