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Há cerca de 200 milhões de anos, no início do período Jurássico, o supercontinente Pangeia começou a se fragmentar, marcando uma das maiores transformações geológicas da Terra. Grandes massas de solo se afastaram, oceanos se abriram e, lentamente, surgiu a configuração continental atual. A separação se deu ao longo de milhões de anos, impulsionada por forças internas que atuam abaixo da crosta terrestre.
Durante muito tempo, a explicação mais aceita para essa ruptura foi o chamado “isolamento térmico”. Segundo essa hipótese, a união de quase todos os continentes em um único bloco teria dificultado a saída de calor do interior da Terra. O supercontinente funcionaria como um grande cobertor, retendo energia no manto, a espessa camada situada entre a crosta e o núcleo.
Com o passar de dezenas de milhões de anos, esse calor acumulado teria elevado significativamente a temperatura do manto. Quando as placas tectônicas começaram a se esticar, o excesso térmico teria facilitado a abertura de fraturas. O resultado seria a formação de nova crosta oceânica, além de intensa atividade vulcânica associada ao rompimento continental.

Um dos exemplos frequentemente associados a essa ideia é a Província Magmática do Atlântico Central. Essa imensa região de rochas vulcânicas se formou aproximadamente no mesmo período em que o Atlântico começou a se abrir. Para muitos pesquisadores, o evento era visto como evidência de um manto extremamente aquecido sob o antigo supercontinente.
No entanto, um estudo recente publicado na revista Earth and Planetary Science Letters apresenta uma interpretação diferente. Em vez de assumir um superaquecimento global, os cientistas analisaram dados concretos sobre a espessura das primeiras crostas oceânicas formadas após a fragmentação. Essas rochas funcionam como registros indiretos das condições térmicas do passado.
Pangeia não reteve calor de forma homogênea
Como o manto não pode ser medido diretamente, os pesquisadores utilizam indicadores geológicos. Um dos principais é a espessura da crosta oceânica criada quando as placas tectônicas se afastam. Quanto mais quente o manto, maior o volume de magma gerado. Ao se solidificar, esse magma forma uma crosta mais espessa.
Atualmente, a crosta oceânica nas dorsais meso-oceânicas possui espessura média de cerca de 6,1 km. Se o manto sob a Pangeia estivesse muito mais quente, seria esperado encontrar crostas iniciais bem mais espessas. No entanto, os resultados mostram diferenças relativamente pequenas.
Os dados revelam dois grupos principais de espessura nas crostas formadas nos estágios iniciais da abertura dos oceanos Atlântico e Índico. Um grupo apresenta média próxima de 5,5 km, abaixo do padrão atual. O outro gira em torno de 6,7 km, levemente acima da média contemporânea.
No Atlântico Equatorial, a crosta inicial era relativamente fina, sugerindo que o manto naquela região não estava superaquecido. Já no Atlântico Central, algumas áreas registraram crostas um pouco mais espessas, indicando aumento térmico moderado. As estimativas apontam elevação de apenas 9 a 15°C em muitos casos.
Mesmo nos locais com maior espessura, o aquecimento máximo calculado chega a cerca de 60°C. Para os autores do estudo, esses valores não sustentam a hipótese de um superaquecimento generalizado sob todo o supercontinente. Em vez disso, apontam para variações regionais mais sutis.
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Terra manteve resfriamento gradual ao longo do tempo
O estudo também analisou a relação entre a idade da crosta oceânica e sua espessura. Os resultados indicam um aumento discreto de aproximadamente 1,5 metro por milhão de anos. Aos 150 milhões de anos, a crosta teria alcançado espessura média próxima de 6,3 quilômetros, apenas 0,2 km acima da média atual.
Se essa diferença fosse explicada apenas por temperaturas mais altas no passado, isso indicaria um resfriamento muito lento ao longo dos últimos 180 milhões de anos. As estimativas sugerem queda entre 0,04 e 0,06°C por milhão de anos, valor compatível com o resfriamento natural do planeta ao longo de bilhões de anos.
Esse processo, conhecido como resfriamento secular, ocorre porque a Terra libera calor gradualmente para o espaço. Assim, o comportamento térmico observado parece refletir a evolução normal do planeta, e não um evento extraordinário provocado exclusivamente pela existência da Pangeia.
Diante dessas evidências, os pesquisadores concluem que a fragmentação do supercontinente não foi causada apenas pelo acúmulo de calor. Outros fatores tectônicos provavelmente tiveram papel importante. Tensões nas placas, antigas zonas de fraqueza na litosfera e diferenças na composição das rochas podem ter facilitado o rompimento.
Algumas regiões podem ter sido naturalmente mais propensas ao rifteamento por já apresentarem falhas antigas. Em outras áreas, pequenas ascensões de material mais quente do manto podem ter contribuído localmente. Ainda assim, não há sinais de um aquecimento extremo generalizado.
Compreender como os supercontinentes se formaram e se fragmentaram é essencial para entender a dinâmica da Terra. A disposição dos continentes influencia correntes oceânicas, padrões climáticos e níveis do mar, além de afetar processos que regulam o dióxido de carbono atmosférico.
Ao combinar medições de espessura da crosta e estimativas quantitativas de temperatura, o novo estudo apresenta uma visão mais equilibrada do passado geológico. A separação da Pangeia parece ter resultado da interação entre forças tectônicas e variações térmicas moderadas no interior do planeta, mostrando que grandes transformações podem surgir de mudanças graduais nas profundezas da Terra.