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Há dezenas de milhares de anos, neandertais e humanos modernos se encontraram, se misturaram e, como resultado, a maioria das pessoas vivas hoje carrega um pequeno fragmento de DNA neandertal em seu genoma. Agora, uma nova pesquisa revelou como isso aconteceu: nossos ancestrais não se acasalaram ao acaso. Eles tinham preferências — e fortes.
Um estudo publicado na quinta-feira (26) na revista Science por uma equipe de geneticistas liderada por Alexander Platt, da Universidade da Pensilvânia, apresenta evidências de que homens com alta ancestralidade neandertal e mulheres com alta ancestralidade humana moderna demonstravam uma atração recíproca e intensa.
“Descobrimos um padrão que indica uma tendência sexual: o fluxo gênico ocorreu predominantemente entre machos neandertais e fêmeas humanas anatomicamente modernas”, diz Platt em comunicado.
O mistério do cromossomo X
A descoberta começou com uma observação curiosa: o cromossomo X dos humanos modernos carrega muito menos DNA neandertal do que os outros cromossomos. A equipe de Platt queria entender por quê. A hipótese inicial era que genes neandertais no cromossomo X poderiam ser prejudiciais, levando à sua eliminação ao longo das gerações.
Mas, ao examinar o lado oposto da equação — o DNA humano moderno presente em neandertais — os pesquisadores encontraram exatamente o contrário. Nos neandertais, o cromossomo X estava repleto de material genético humano, muito mais do que os demais cromossomos.

A única explicação plausível, concluíram, é que homens neandertais sentiam uma forte atração por mulheres com ancestralidade humana moderna. Essas mulheres, ao se reproduzirem, transmitiam seus cromossomos X para a população neandertal, enriquecendo-a com genes humanos. O processo, repetido ao longo de gerações, teria deixado a assinatura genética que os cientistas observam hoje.
Como as fêmeas possuem dois cromossomos X e os machos apenas um, a direção do acasalamento é importante. Se os machos neandertais se acasalassem com mais frequência com fêmeas humanas modernas, menos cromossomos X neandertais entrariam no conjunto genético humano e mais cromossomos X humanos entrariam nas populações neandertais.
O efeito inverso ocorreu nas sociedades de humanos modernos que deixaram a África há cerca de 46 mil anos. Lá, mulheres podem ter preferido homens com ascendência neandertal — mas esses homens só transmitiam o cromossomo X neandertal para metade de seus descendentes, em média. O resultado foi a progressiva diluição do DNA neandertal no cromossomo X humano.
História é antiga e complexa
A história por trás desses números é complexa. Humanos e neandertais descendem de uma população comum que viveu na África há cerca de um milhão de anos. Por volta de 600 mil anos atrás, os neandertais se separaram e migraram para a Eurásia, enquanto os humanos modernos permaneceram na África.
Há aproximadamente 250 mil anos, um pequeno grupo de humanos deixou o continente e encontrou os neandertais. Os filhos desses encontros foram criados em sociedades neandertais, transmitindo seus genes adiante. Fósseis de neandertais tardios ainda carregam vestígios dessa primeira onda de miscigenação.
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Mas foi há cerca de 46 mil anos que o encontro decisivo ocorreu. Uma nova leva de humanos modernos expandiu-se para fora da África, cruzou com os neandertais e, desta vez, prosperou. Foram esses humanos que povoaram o mundo, levando consigo fragmentos de DNA neandertal que persistem até hoje em pessoas com ascendência não africana.
“O que descobrimos foi um desequilíbrio impressionante”, diz Daniel Harris , pesquisador associado no laboratório de Tishkoff e coautor principal. “Enquanto os humanos modernos não possuem cromossomos X neandertais, os neandertais tinham um excesso de 62% de DNA humano moderno em seus cromossomos X em comparação com seus outros cromossomos.”

Ainda existem dúvidas sobre como essa relação aconteceu
Apesar da clareza dos padrões genéticos, os pesquisadores alertam que o estudo não pode determinar a natureza exata dessas preferências. Seriam os homens neandertais que invadiam grupos rivais em busca de mulheres? Ou seriam as mulheres, como “sexo seletivo” na maioria das espécies, que escolhiam parceiros com características específicas?
Com o “quem” e o “como” desses encontros amorosos ancestrais estabelecidos, a equipe agora volta sua atenção para o “porquê”, investigando se comparações genéticas semelhantes — especificamente a proporção de diversidade entre os cromossomos X e os autossomos — podem revelar a dinâmica de gênero da sociedade neandertal, como, por exemplo, se as mulheres permaneciam com suas famílias de origem enquanto os homens migravam para novos grupos.
Se confirmadas, as descobertas acrescentam uma camada fascinante à nossa compreensão dos neandertais — não mais como brutos primitivos, mas como criaturas sociais com preferências, gostos e, quem sabe, até mesmo afetos.
