Superlotação, falta de banheiros químicos e descaracterização de uma das festas populares mais famosas do mundo. No Carnaval de 2026, os Megablocos deram o que falar nas ruas e nas redes sociais, reunindo grandes atrações, milhares de foliões nas maiores capitais do país e uma série de críticas dos carnavalescos apaixonados, que afirmam que o modelo põe em risco uma das celebrações mais amadas do país.
Ao Metrópoles, especialistas e organizadores do Carnaval dizem que carnavalesco nenhum se opõe à realização destes grandes eventos. A pauta em discussão é que este modelo não tome espaço dos tradicionais blocos de rua, muito menos receba tratamento privilegiado nas rodadas de negociações com o poder público.

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Devido a lotação a espera da apresentação de Calvin Harris, foliões derrubaram a grade da Escola Paulista de Magistratura na rua da Consolação, 8 de fevereiro de 2026.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

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Bloco Acadêmcos do Baixo Augusta desfila no centro de São Paulo
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

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Bloco Acadêmicos do Baixo Augusta desfila no centro de São Paulo
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

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DJ Calvin Harris estreou no Carnaval de SP
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

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Público do Calvin Harris, durante sua apresentação no bloco, na rua da Consolação, nesta tarde de domingo, 8 de fevereiro de 2026
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

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Devido a lotação a espera da apresentação de Calvin Harris, foliões derrubaram a grade da Escola Paulista de Magistratura na rua da Consolação, 8 de fevereiro de 2026.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles
Há uma semana, dois grandes Megablocos passaram por São Paulo: o da cantora Ivete Sangalo, que levou a artista baiana pela primeira vez ao Carnaval paulista; e o do DJ Calvin Harris, que levou o artista internacional para uma apresentação gratuita na capital paulista. Em ambos, o Metrópoles noticiou casos de foliões passando mal, interrupção da música devido à incapacidade do trio de continuar em movimento e danos ao patrimônio público, tudo consequência da superlotação dos eventos.
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José Cury Filho, coordenador do Fórum Aberto dos Blocos de Carnaval de São Paulo, argumenta que a situação vai além de um despreparo da organização dos eventos ou da Prefeitura. Para o carnavalesco, essa seria uma demonstração de que os Megablocos são eventos à parte, que existem paralelamente à folia, mas tomam espaço dos tradicionais blocos de rua da cidade.
“Esses Megablocos não têm existência cultural durante o ano, mas aparecem para um mega desfile com artistas e com grandes marcas patrocinando. E esse padrão de Carnaval acaba recebendo preferência da Prefeitura”, explica.
Ele detalha que existia um número de banheiros contratados para o Carnaval de São Paulo deste ano. No entanto, não existia a previsão de que Ivete e Harris se apresentassem na cidade. “Então todos os outros blocos que ficaram sem banheiro na periferia da cidade ou no centro expandido perderam seus banheiros para o [artista] estrangeiro, onde não podia ter reclamação de falta de banheiro”, pontua.

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Cantora Ivete Sangalo
Danilo M. Yoshioka / Especial Metrópoles

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Carnaval em São Paulo
Divulgação/ Prefeitura de São Paulo

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Ivete Sangalo em São Paulo
Danilo M. Yoshioka / Especial Metrópoles

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Baixo Augusta e Calvin Harris: os principais blocos deste domingo (8)
Frâncio de Holanda

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Ivete Sangalo se apresentará em um trio elétrico do bloco Quem Pede, Pede no circuito do Parque Ibirapuera, zona sul da cidade
Danilo M. Yoshioka / Especial Metrópoles

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Público lora o Ibirapuera para o primeiro show de Ivete Sangalo em um bloco de rua, em São Paulo
Danilo M. Yoshioka / Especial Metrópoles
Estudioso do Carnaval, o professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e autor do livro Direito à Folia, Guilherme Varella, explica que o debate vai além de uma simples “rivalidade” entre os Megablocos e os blocos de rua. Afinal, Megablocos como o Cordão da Bola Preta, Bloco da Favorita ou até o Bloco da Anitta, do Carnaval carioca, existem há mais de 10 anos e se tornaram parte da cultura dos foliões da cidade maravilhosa.
“A grande questão é que esses Megablocos, na verdade, são megablocos empresariais, cujo intuito é menos cultural e carnavalesco e muito mais mercadológico. Pode ser a Anitta, pode ser a Ivete Sangalo, pode ser a Shakira, pode ser a Madonna, pode ser qualquer um dos grandes cantores e cantoras do Brasil, porque vai importar pouco, porque o formato é o mesmo. E qual é o formato? É uma hiperestrutura que aproveita o período carnavalesco da cidade, a estrutura que a própria prefeitura disponibiliza, as condições de público que estão ali para ativar marcas e as empresas ganharem em cima dessa imagem“, avalia.
“Isso é menos manifestação cultural carnavalesca e muito mais um grande modelo de negócio através dessas plataformas de entretenimento que são os Megablocos. Então a grande questão que se coloca hoje é que o Carnaval não é sinônimo de Megablocos. Isso também pode fazer parte do Carnaval, desde que se estabeleça uma relação sadia desses megablocos com a cidade e que se estabeleça um equilíbrio para que os demais blocos, que são 90% do Carnaval, também saiam”, acredita.
Diálogo com o Poder Público
Desde que o clima de folia começou a tomar conta do país, o Metrópoles mostrou que os carnavalescos enfrentaram dificuldades em acertar com o poder público para colocar o trio nas ruas das capitais. Em Brasília (DF), por exemplo, organizadores questionam a transparência e o impacto da burocracia no processo de escolha do Governo do Distrito Federal (GDF) para o Carnaval brasiliense, que deixou de fora da folia vários blocos tradicionais e periféricos.
Em São Paulo (SP), a falta de diálogo está aliada a um processo de sucateamento da infraestrutura, mostra a apuração do colunista do Metrópoles Demétrio Vecchioli. De 2025 para 2026, o governo Ricardo Nunes (MDB-SP) gastou os mesmos R$ 42 milhões para a folia paulista. A gestão, no entanto, preferiu reduzir a quantidade de banheiros químicos em 37% e aumentar a contratação de guias bilíngues em mais de 1800%.
Outro ponto que foi motivo de polêmica foi a ameaça do prefeito de acionar a Polícia Militar e a Guarda Civil para impedir que blocos que não se inscreveram junto à SPTuris, classificados como informais, saiam às ruas neste Carnaval — leia aqui a resposta da prefeitura.
O Fórum dos Blocos de SP denuncia estes como exemplos de como a falta de diálogo com o poder público e a preferência pelos grandes patrocinadores podem prejudicar o Carnaval de rua em todo o país. “Conforme você tira a capacidade dos bloquinhos de funcionarem e se financiarem de uma maneira justa, você mingua a atividade cultural de blocos territoriais”, diz José Cury.
“Porque é difícil fazer uma festa. O gestor que é o animado do bairro, que poderia puxar um bloquinho, ele não anima, porque ‘vai ser difícil, então melhor não’. Nós mesmos que temos acesso a algum patrocínio, a gente desanima. Porque hoje a prefeitura trabalha a favor de um padrão que não é o do Carnaval. A maioria de quem vai nos Megablocos não vai pular o Carnaval, para eles é só um show de um artista que acontece enquanto acontece a folia tradicional, com fantasias, com festa e soberania popular”, conclui.
