Há cerca de quatro anos, a designer Ligia Emanuel da Silva abriu um pequeno negócio em um território potiguara, na cidade de Rio Tinto, litoral norte da Paraíba. Foi durante a pandemia da covid-19 que ela teve a ideia de produzir e vender acessórios e adornos baseados na cultura, estética e ancestralidade africanas.

A partir de uma maleta de miçangas da mãe, nasceram as primeiras peças do Entorno Acessórios.
“Eu já fazia para mim e passei a fazer para adornar outros corpos”, revelou à Agência Brasil.
“Os adornos se fundamentam em saberes tradicionais, especialmente com o trabalho manual, com as miçangas e com os arames”, descreve.
>> Siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp
Com um perfil na rede social para fazer divulgação de seu negócio, a paraibana trabalha sozinha e, além de motivação econômica, enxerga na atividade empreendedora um fator cultural que resulta em um ato político.
![]()
Ligia Emanuel da Silva abriu um pequeno negócio em Rio Tinto, litoral norte da Paraíba – Foto: Ligia Emanuele/Arquivo pessoal
“Quando a gente se adorna com os nossos símbolos, nossos elementos estéticos-culturais, a gente articula um discurso sobre quem somos e de onde viemos”, define.
Marco da pandemia
Ligia ilustra um dado presente em uma pesquisa sobre empreendimentos que funcionam nas favelas brasileiras: 56% dos negócios começaram a funcionar a partir de fevereiro de 2020, quando a pandemia da covid-19 deu sinais pelo Brasil.
O levantamento aponta que 12% dos negócios foram abertos entre fevereiro de 2020 e abril de 2022, período que engloba os momentos mais críticos da crise sanitária. E 44% foram estabelecidos a partir de maio de 2022, quando terminou o estado de emergência em saúde.
A pesquisa foi realizada pelo instituto Data Favela, ligado à Central Única das Favelas (Cufa), uma organização sem fins lucrativos. O levantamento foi encomendado pela VR, empresa de serviços financeiros e benefícios em alimentação.
Para Cleo Santana, uma das responsáveis do Data Favela, o fato de a maioria dos negócios terem sido iniciados após o surgimento da pandemia tem a ver com a crise econômica vivenciada no momento.
“Muitas pessoas perderam seus empregos e precisaram se reinventar e buscar novas formas de manter as necessidades básicas próprias e de sua família”, disse à Agência Brasil.
“Por que não tornar aquela torta que era feita nas festas de família em um produto cuja venda traz renda para dentro de casa?”, exemplifica.
“É a capacidade de se reinventar”, completa.
Perfil dos negócios
O Data Favela entrevistou 1 mil empreendedores de favelas em todo o Brasil, em outubro e novembro de 2025, para traçar um perfil dos donos de negócios das comunidades do país.
O levantamento identificou que 23% tinham faturamento de até um salário mínimo da época (R$ 1.518), enquanto 28% arrecadavam entre um e dois mínimos, no máximo. Ou seja, praticamente metade (51%) faturava até R$ 3.040. Na outra ponta, apenas 5% tinham receita superior a R$ 15,2 mil.
O mundo da contabilidade evidencia que faturamento não é sinônimo de lucro. A pesquisa revela que 57% dos estabelecimentos gastam até R$ 3.040 por mês para manter o negócio.
De acordo com o Data Favela, “leva a supor que os gastos são equivalentes ao que essas pessoas faturam mensalmente”.
![]()
Data Favela entrevistou 1 mil empreendedores de favelas em todo o Brasil – Foto: Lucas Costa/Divulgação
Investimento de partida
Os pesquisadores identificaram que 37% dos empreendedores de favelas precisaram de capital inicial de até R$ 1.520 para abrir o negócio. Para 23%, o valor chegou no máximo a R$ 3.040. Apenas 9% dos entrevistados citaram recursos financeiros superiores a R$ 15,2 mil.
Na hora de saber de onde veio o capital inicial, mais da metade (57%) citou economias pessoais ou da família. Outras fontes comuns sinalizadas são indenização trabalhista (14%), dinheiro extra (14%) e empréstimo em banco (13%).
Administração
Praticamente seis em cada dez (59%) empreendedores de favelas administram o negócio apenas com anotações em um caderno, 13% simplesmente não registram nada, 24% utilizam planilhas e 4% algum outro meio.
Na hora de promover o produto ou serviço, 58% o fazem pelo WhatsApp; 75%, pelo Instagram, como a Lígia; e 41%, pelo Facebook, e 3% estão no iFood. Os pesquisadores identificaram que 34% dependem exclusivamente da propaganda boca a boca.
As principais áreas de negócios dos estabelecimentos em favelas são alimentação e bebidas (45%), moda (12%) e beleza (13%) e artesanato (8%).
Motivação
O Data Favela perguntou aos empreendedores o que levou a abrir o próprio negócio. No topo das respostas figuram desejo de independência (45%), seguido por necessidade econômica (29%), falta de emprego (26%), oportunidade (18%) e tradição familiar (7%).
Para a diretora de Marketing da VR, Karina Meyer, a pesquisa mostra que “para muitos, empreender não foi uma escolha planejada, mas uma necessidade imposta pela falta de oportunidades no mercado formal de trabalho ou pela urgência de gerar renda”.
![]()
Na hora de promover o produto ou serviço, 58% o fazem pelo WhatsApp e 75%, pelo Instagram – Foto: entorno_acessorios/Instagram
Os pesquisadores buscaram informações sobre os principais desafios enfrentados pelos empreendedores de favela. A maioria citou falta de capital (51%) e dificuldade de acesso ao crédito (25%).
Karina Meyer, da VR, assinala que “ferramentas como crédito, soluções de gestão de negócio e digitalização de processos são primordiais para construir uma economia mais forte e sustentável nas favelas”.
Mais destaques da pesquisa:
- 5% dos donos de negócios em favela moram no “asfalto”, ou seja, fora de comunidade
- 21% recebem o programa assistência Bolsa Família
- 5% são aposentados
- 19% conciliam o negócio com algum emprego, sendo 9% com carteira assinada
- 40% são formalizados, sendo 36% microempreendedor individual (MEI)
- o meio de recebimento mais comum é o pix (91%), seguido de perto pelo dinheiro em espécie (85%)
- parcela dos que aceitam cartões não chega a 30%, sendo o cartão de crédito (28%) à frente do de débito (25%)
- 22% aceitam vender fiado
Economia das favelas
De acordo com o Data Favela, as comunidades brasileiras movimentam R$ 300 bilhões por ano.
Cleo Santana, do Data Favela, destaca o papel dos negócios nas comunidades para desenvolver esses territórios.
“Conforme um negócio nasce, surgem oportunidades locais de emprego, mesmo que informais, ajudando a movimentar a economia local”, explica.
“Pequenos empreendedores tendem a comprar no local, fortalecendo outros pequenos empreendedores”, enfatiza.

Empreendedores das favelas e periferias movimentam R$ 300 bilhões por ano – Foto: Tânia Rego/Agência Brasil
Censo
O Censo 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que 8% dos brasileiros moram em favelas. Eram 16,4 milhões de pessoas de um universo de 203 milhões de habitantes, quatro anos atrás.
O IBGE apontou 12.348 favelas em 656 municípios Brasil afora.
Os pretos (16,1%) e os pardos (56,8%) representam 72,9% dos moradores de comunidades. As mulheres são 51,7% das habitantes dessas áreas.
