Bad Bunny entrou para a história no domingo (1º/2) ao se tornar o primeiro artista a vencer a categoria Álbum do Ano — a principal do Grammy Awards — com um trabalho totalmente em espanhol. No cinema, a trajetória recente também é inédita: Wagner Moura se consagrou como o primeiro ator brasileiro a disputar a categoria de Melhor Ator no Oscar 2026 por O Agente Secreto, filme que disputa quatro categorias no Oscar deste ano.
Embora ocorram em universos distintos, os dois feitos ajudam a ilustrar um mesmo movimento: a crescente visibilidade — e disputa por reconhecimento — da cultura latino-americana nas grandes premiações internacionais. O assunto ganha mais força desde 2025 com o sucesso de Ainda Estou Aqui e a reação negativa de artistas e do público latino ao filme Emília Pérez, acusado de se apropriar de elementos culturais sem representatividade legítima.
A guerra com Emília Pérez
- O longa causou irritação por seu elenco e sua nacionalidade. Concorrendo ao Oscar em categorias de filme internacional como representante da França — nacionalidade do diretor do filme —, a produção é falada em espanhol e inglês e se passa principalmente no México.
- Vale destacar que boa parte do núcleo principal do longa é nascido nos Estados Unidos. Com exceção de Karla Sofía Gascón, natural na Espanha, Zoë Saldaña e Selena Gomez são americanas. A primeira é de Nova Jersey, enquanto a segunda nasceu no Texas.
- O filme também é acusado de não dar devida atenção aos detalhes e a cultura mexicana. Foi construído um “cenário mexicano autêntico” na França para melhor “liberdade criativa” de Audiard.
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Apesar do destaque recente, especialistas apontam que a presença latina em premiações internacionais não é um fenômeno novo — ainda que só agora venha ganhando maior centralidade. No cinema, por exemplo, Democracia em Vertigem, documentário da cineasta brasileira Petra Costa, concorreu ao Oscar em 2020. Antes disso, o diretor mexicano Guillermo del Toro consolidou seu espaço em Hollywood, enquanto Fernanda Montenegro parou o Brasil, em 1999, ao ser indicada ao Oscar por Central do Brasil.
“As premiações dos Estados Unidos têm percebido, ainda que em alguns casos pontuais, que é importante se abrir a outras culturas do mundo. E a comunidade latina é muito forte no país, o que faz com que muitos artistas consigam ter destaque lá e que seja estratégico reconhecer seus talentos”, afirma Felipe Lopes, professor do curso de cinema e audiovisual da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Miriam Spritzer, integrante da Hollywood Creative Alliance, aponta que, apesar de ambas as premiações serem internacionais, a régua que mede o sucesso dos conteúdos é diferente do Grammy para o Oscar.
“O que acontece no Grammy é muito separado do que acontece no Oscar. O Bad Bunny levar o Álbum do Ano é uma questão de construção muito longa de ritmos latinos entrando na cultura popular em geral nos Estados Unidos. No Oscar é diferente. As premiações de cinema tem um hype. Quando um produto de um país funciona muito, a gente fica curiosa para ver o que mais tem. O fenômeno de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto vai do agora”, opina.
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Pôster de Ainda Estou Aqui (2024)
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Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui
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Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui
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Ainda Estou Aqui
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Universo musical
Muito antes de Bad Bunny se tornar um hitmaker, o porto-riquenho Ricky Martin garantiu um espaço significativo na indústria musical, vencendo a categoria Gravação do Ano do Grammy em 2000 por Livin’ la Vida Loca. “A gente tem um Bad Bunny hoje porque tivemos Jennifer Lopez, tivemos Shakira”, pontua Miriam.
“O Bad Bunny vai fazer um show no Super Bowl, mas tivemos em 2020 o show da Shakira e da Jennifer Lopez, que celebrou a cultura latina. Antes do Bad Bunny tinha um Despacito [canção de Luis Fonsi] e antes disso uma Shakira e antes disso o Ricky Martin e antes disso Glória Estefan. Os elementos da música latina sempre estiveram incorporados e tudo isso vai se culminando até criar um Bad Bunny”, analisa a especialista.
No quesito brasileiros, a situação é a mesma: Caetano Veloso e Maria Bethânia venceram a categoria Melhor Álbum de Música Global no Grammy deste ano, mas o próprio Caetano ganhou duas das cinco vezes em que foi indicado. Rodrigo Faour pontua que, apesar do sucesso momentâneo causado pelo Grammy, a premiação internacional nunca teve impacto significativo para os nossos artistas.
“O Grammy, salvo na época do álbum Getz/Gilberto, em 1965, que foi um marco mundial para a bossa nova e a música brasileira, nunca teve um impacto maior sobre nossos artistas. Pode gerar uma curiosidade mundial momentânea, para quem não os conhece, mas para se fazer uma carreira internacional possante é preciso muita dedicação”, afirma.
“Buscamos que nossa cultura ocupe um espaço que nos é negado. Até em nosso país, vemos dificuldade de nossa arte ter espaço frente a uma concorrência predatória dos produtos americanos. É reconfortante ver que, aos poucos, conseguimos mostrar que nossos filmes e nossa arte em geral é única e de excelência, e quebrar falácias sobre a qualidade do que fazemos com reconhecimento em diferentes espaços”, finaliza Lopes.

