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Uma equipe internacional de astrônomos descobriu que a estrela Mira A, uma gigante vermelha a cerca de 300 anos-luz da Terra, explodiu em uma nuvem de gás e poeira com contornos que lembram um coração.
Observado entre 2015 e 2023 com os telescópios Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA) e Very Large Telescope (VLT), ambos no Chile, o fenômeno ocorreu enquanto a estrela perdia massa em seus estágios finais antes de se transformar em anã branca – chamando a atenção pela escala e pela simetria incomuns.
Aceito para publicação pela revista Astronomy and Astrophysics, o estudo oferece pistas inéditas sobre como estrelas moribundas devolvem matéria ao espaço, em um achado divulgado bem a tempo do Dia Internacional dos Namorados, celebrado em diversos países do mundo neste sábado, 14 de fevereiro.

O “coração cósmico” da estrela Mira A
- O colapso a estrela Mira A expulsou uma nuvem em forma de coração, com gás no interior e poeira delineando as bordas;
- A massa ejetada equivale a cerca de sete Terras, surpreendendo os cientistas pela escala do evento;
- A iluminação da poeira varia como um “farol”, indicando que a estrela varre a nuvem de forma desigual;
- As ejeções assimétricas desafiam modelos antigos de perda de massa em gigantes vermelhas;
- Dados do ALMA e do VLT, coletados entre 2015 e 2023, mapearam a forma e a dinâmica do material.
Como a gigante vermelha esculpiu a nuvem de coração
Gigantes vermelhas costumam se expandir e desprender parte de suas camadas externas à medida que envelhecem. O que torna Mira A especial, segundo os autores do estudo, é a combinação de uma pluma altamente simétrica e uma quantidade de matéria maior que o previsto para esse tipo de estrela.
As imagens e medições de velocidade revelaram duas grandes nuvens que, vistas em conjunto, desenham a silhueta de um coração: o gás ocupa a região central e a poeira marca as bordas curvas, como se um escultor cósmico tivesse contornado a figura no espaço.

“Ficamos muito surpresos ao ver essa estrutura”, afirmou Theo Khouri, astrônomo da Universidade Chalmers e autor principal do trabalho. “Também observamos que a iluminação da poeira ao redor pela estrela varia de uma forma inesperada, o que implica que a estrela age como um farol – iluminando seu ambiente de maneira desigual.” Esse “pisca-pisca” estelar sugere mudanças no brilho ou na geometria da emissão, o que ajuda a explicar por que algumas regiões da nuvem brilham mais do que outras.
Para além do aspecto fotogênico, a observação mexe com ideias estabelecidas. “Sabemos que estrelas como Mira perdem massa com o passar dos anos, mas não esperávamos que isso acontecesse em explosões tão grandes e repentinas”, acrescentou Khouri. Na prática, isso significa que a morte das estrelas pode ser mais turbulenta e episódica do que os modelos clássicos previam, com surtos que redistribuem gás e poeira de maneira desigual pelo espaço ao redor.
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Sistema é um “casal” de estrelas
E para deixar esta descoberta ainda mais a cara do Dia dos Namorados, o sistema também é binário: a estrela companheira Mira B, uma anã branca, interage com a pluma em expansão de Mira A. “Continuaremos monitorando a nuvem ao redor de Mira A, pois ela está ficando tão grande que já começa a afetar sua companheira, Mira B”, disse Khouri. Essa troca de matéria entre as estrelas, quase como um “par” cósmico, ajuda a entender a evolução de sistemas binários e como o Universo recicla elementos que darão origem a novas estrelas e planetas.
A combinação de dados do ALMA e do VLT foi crucial para mapear não só a forma, mas também a dinâmica da pluma. Ao unir imagens em diferentes comprimentos de onda e medições de movimento do gás e da poeira, os pesquisadores montaram um retrato em 3D do coração cósmico, relacionando brilho, composição e velocidade do material.
Para o público, a imagem de um coração no céu pode parecer apenas mera curiosidade, mas, mais do que isso, ela traduz um impressionante processo cósmico. As gigantes vermelhas enriquecem o Universo com elementos que acabam incorporados a novas gerações de estrelas e mundos. Entender como e quando essas ejeções acontecem ajuda a traçar a “árvore genealógica” da matéria, inclusive dos ingredientes que, muito tempo depois, podem participar da química da vida.
