Brasileiros que vivem nos EUA relatam medo em meio às ações do ICE

Milhares de brasileiros continuam chegando aos Estados Unidos todos os meses em busca de melhores condições de vida, trabalho e renda. Parte desses imigrantes entra no país por rotas irregulares, como o chamado “cai-cai”, quando a pessoa se entrega ou é detida por agentes de fronteira ao cruzar a divisa. 

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Esse fluxo ocorre em meio a um cenário de endurecimento das políticas migratórias, que tem provocado medo e insegurança entre comunidades estrangeiras,  incluindo a brasileira.

Atualmente, os Estados Unidos concentram a maior comunidade brasileira fora do país, com cerca de 2,8 milhões de pessoas, segundo dados do Itamaraty. As maiores concentrações estão na Flórida, em cidades como Miami e Orlando, e em Massachusetts, especialmente na região da Grande Boston e em municípios como Framingham. 

Apesar do tamanho da comunidade, uma parcela significativa vive em situação irregular. Até 2022, ao menos 230 mil brasileiros estavam sem documentação legal nos Estados Unidos, de acordo com o Pew Research Center, um aumento de 130% em relação a 2012,  ficando atrás apenas de México, El Salvador, Índia, Guatemala e Honduras. 

Foto: Bacci Notícias.

Embora não haja dados mais recentes específicos, o instituto avalia que, de forma geral, a população de imigrantes não autorizados no país cresceu nos últimos anos.

Esse grupo está diretamente impactado pelas ações do ICE, tanto por políticas federais que priorizam a detenção de quem não está legalizado quanto por operações que extrapolam fronteiras estaduais e entram em áreas urbanas densamente povoadas..

Desde a posse do presidente Donald Trump, operações de fiscalização migratória aumentaram e ganharam maior visibilidade, reforçando um discurso de combate à imigração irregular. 

Isso impacta pessoas que estão no país sem documentação, mas também causa ansiedade em integrantes da comunidade com situação legal precária ou em processo de regularização.

O papel do ICE e como ele atua

O Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) é uma das maiores e mais visíveis agências federais de aplicação da lei no país, vinculada ao Departamento de Segurança Interna (Department of Homeland Security). A missão oficial é proteger a segurança nacional, aplicar as leis de imigração e combater crimes transnacionais que ameaçam a segurança e a economia americanas.

A estrutura do ICE é dividida em duas grandes frentes:

  1. Enforcement and Removal Operations (ERO): Essa divisão é responsável diretamente pela identificação, detenção e deportação de estrangeiros que violam a lei de imigração nos EUA, incluindo quem está no país sem autorização, quem reentrou após deportação ou quem teve ordens finais de remoção expedidas por um juiz. O ERO gerencia todo o processo de custódia migratória, desde a prisão até a remoção física para o país de origem.

  2. Homeland Security Investigations (HSI): Enquanto o ERO lida com detenções e deportações, o HSI é a ala investigativa do ICE, com foco em crimes transnacionais e violações que possam envolver imigração ou fronteiras, como tráfico de pessoas, contrabando de drogas, fraudes documentais, crimes cibernéticos e exploração de trabalho imigrante.

Foto: Robert F. Bukaty.

O trabalho do ICE não se limita a prisões de pessoas sem documentação: o órgão também investiga redes criminosas que lucram com a imigração irregular e atividades ilícitas que estejam associadas a ela.

No entanto, sua presença no interior dos EUA,  em cidades, residências e comunidades, é frequentemente percebida por imigrantes como fiscalização direta à permanência de estrangeiros no país.

A atuação do ICE deixou de ser exclusiva de investigações técnicas e passou a ganhar enorme visibilidade pública com operações em larga escala em várias cidades americanas, que incluem batidas em áreas urbanas e cumprimento de ordens de deportação, ampliadas no atual governo. 

Essas ações têm gerado reações diversas, incluindo protestos populares, críticas de defensores dos direitos humanos e até questionamentos legais sobre a forma como agentes entram em casas ou utilizam autoridades administrativas para cumprir mandados.

O debate sobre o papel do ICE ficou ainda mais intenso nos últimos meses com notícias sobre programas de vigilância e uso de tecnologia para rastrear imigrantes pelo país e críticas quanto à expansão de poderes investigativos e de detenção, em meio a questionamentos sobre privacidade e direitos civis.

Medo que altera a rotina

Entre os brasileiros que permanecem no país, o sentimento é de alerta constante. O receio de ser abordado por agentes do ICE tem mudado hábitos simples do cotidiano, como sair de casa, utilizar transporte público, frequentar eventos ou circular em regiões com maior presença policial. 

Em muitos casos, o medo não se restringe apenas a quem está sem documentos, mas também a pessoas com processos migratórios em andamento ou com situação legal regularizada.

Esse é o caso de uma brasileira de 27 anos, que vive na Califórnia desde setembro de 2022 e pediu para não ser identificada. Ela chegou aos Estados Unidos por meio de um programa de intercâmbio como au pair, que garantia trabalho, estudo e permanência legal por até dois anos. Segundo ela, a experiência inicial trouxe uma sensação de segurança.

“No começo, o intercâmbio me deu tranquilidade. Quando a gente chega em um país novo, o que mais procura é segurança”, relata.

Durante o governo de Joe Biden, segundo a estudante, embora houvesse deportações, o clima era menos hostil. 

“As coisas aconteciam, mas não de forma tão radical ou autoritária. Existia uma expectativa de regularização para quem pagava impostos e contribuía”, afirma, citando o uso do ITIN, número fiscal que permite que imigrantes sem Social Security recolham tributos.

A mudança no cenário, segundo ela, veio com a troca de governo. Mesmo estando hoje em situação legal, matriculada em uma universidade da Califórnia, a brasileira diz que o medo aumentou. 

“É um governo extremista. Existe receio até de se identificar, porque qualquer coisa, inclusive comentários em redes sociais, pode virar motivo para cancelamento de visto”, diz.

A estudante relata que a apreensão se intensificou após ações federais em universidades e estados considerados santuários. 

“Quando começaram a falar em revogar o status de estudantes imigrantes, principalmente em faculdades tradicionais, foi um choque. Não é só perder o visto, é perder tudo o que foi investido”, conta.

Ela também informa que abordagens consideradas agressivas e a sensação de que a fiscalização não distingue quem está regularizado. 

“Não querem saber se você tem documento. Querem saber se você é americano. Se não for, já é motivo de medo”, lamenta.

Apesar da Califórnia manter políticas contrárias às diretrizes federais e de o governo estadual se posicionar publicamente contra o endurecimento migratório, a presença do ICE ainda gera insegurança.

Mesmo assim, ela pretende concluir a graduação e retornar ao Brasil. 

Foto: Freepik.

“Quero terminar a faculdade, levar esse conhecimento comigo e voltar. Minha família tem muito medo, pergunta o tempo todo como estão as coisas aqui.”

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