“São 3 meses de tensão máxima com risco de várias inundações”, diz Defesa Civil sobre o Rio Acre

Com 90% de encharcamento do solo e manancial próximo da cota de alerta, Rio Branco entra em estágio crítico

O nível do Rio Acre na capital acreana deu sinais de trégua nesta quarta-feira (14), mantendo total estabilidade na marca de 13,32 metros desde as 9h da manhã. Embora o monitoramento da Defesa Civil Municipal tenha registrado uma leve tendência de vazante no início do dia, as leituras das 12h e 15h confirmaram que o volume de água estacionou. O manancial está a apenas 18 centímetros da cota de alerta (13,50m) e a 68 centímetros da cota de transbordo (14,00m).

Rio Acre apresentou estabilidade nesta quarta-feira/Foto: Reprodução

Apesar do alento momentâneo, o coordenador da Defesa Civil, Coronel Cláudio Falcão, alerta que o cenário para as próximas 48 a 50 horas é de preocupação. Segundo ele, uma grande massa de água proveniente de Brasileia — que subiu 3,5 metros recentemente — além das cheias em Xapuri e Capixaba, deve chegar à capital até sexta-feira, o que pode elevar drasticamente o nível do rio.

“A previsão é de que ele continue enchendo, e eu vou lhe dizer quais motivos que nos levam a essa expectativa. É porque nós tivemos uma quantidade muito grande de água lá em Brasileia. Brasileia encheu 3 metros e meio, está em vazante agora, mas encheu bastante. E aí nós temos enchente também em Xapuri e Capixaba. Então o rio está estável aqui em Rio Branco, mas nas próximas 48 horas, nas próximas 50 horas, aproximadamente, ou seja, até sexta-feira, essa água deve chegar aqui, e com isso é a elevação maior do rio Acre”, explicou o coronel.

Coronel Falcão/Foto: Reprodução

A dinâmica de transbordamento dependerá de uma possível vazante antes da chegada das águas do interior. Falcão ressalta que, se o rio permanecer estável como está agora, o transbordo será inevitável assim que o volume de Brasileia atingir Rio Branco.

“Isso vai depender exclusivamente se a gente, por exemplo, hoje, que é quarta-feira ainda, se a gente começar a ter uma vazante. O rio não está em vazante, você viu que está estável. Ele tem uma vazante mínima na madrugada de 4 centímetros e aí ele se mantém estável de 6 horas, 9 horas, meio-dia, 15 horas. Então, se ele permanecer dessa maneira, quando chegar a água lá de Brasileia, ele vai transbordar”, destacou.

O coronel ainda pondera sobre cenários mais raros: “Agora, se por acaso a gente tiver uma modificação no cenário, que o rio comece a esvaziar um pouquinho, digamos que ele tenha uma vazante até sexta-feira, que é muito raro isso acontecer, de 1 metro. É raro, mas não é impossível. E quando a água de Brasileia chegar, de Xapuri e tudo mais, a gente tem calha. E como ele não está na cota de alerta ainda, está faltando 18 centímetros, e para a cota de transbordamento ser 68 cm, se ele tiver vazante, nós temos a possibilidade de ele não transbordar. Mas se por acaso ele não tiver vazante, aí praticamente teremos esse transbordamento”.

Rio Acre pode transbordar ainda nesta semana/Foto: Reprodução

Preparo da rede de abrigos e previsão de chuvas

Diante da iminência de uma cheia, a prefeitura já estruturou a logística de acolhimento. O Parque de Exposições está limpo e conta com 74 abrigos prontos, capazes de ser ativados em cerca de 12 horas. O coronel garante que a estrutura atual é suficiente para atender desabrigados até que o rio atinja a marca de 15,50 metros.

“Eles já estão construídos. Nós temos 74 abrigos prontos, construídos, o parque de Exposições está limpo, ele está todo estruturado. Na questão do parque, para ele ser ativado, a gente consegue ativar ele em torno de 12 horas. Vou te colocar um dia. Eu quero ativar ele, amanhã eu consigo ativar. Eu levo as secretarias que faltam para dentro, a gente faz de novo uma limpeza rápida, deixa tudo pronto”, detalhou Falcão.

Abrigos montados no Parque de Exposição/Foto: Reprodução

O coordenador explicou ainda a flexibilidade do sistema: “Então, em questão de horas, ele vai estar pronto para receber pessoas, o parque de exposição. Até o rio chegar em 15 metros e meio, digamos assim, esses 74 abrigos que nós temos lá é suficiente para as pessoas desabrigadas pelo rio Acre. Agora, se simultaneamente ao rio tiver enxurrada, aí nós não temos abrigos suficientes. Mas isso é algum problema? No, não é problema. Porque em tempo rápido, a gente consegue construir mais 50, mais 100. Então, nós estamos bem preparados para isso”.

O cenário meteorológico também não é favorável. A previsão indica chuvas diárias para Rio Branco, o que agrava o estado de encharcamento do solo, que já atinge 90%.

“Todos os dias, é. Nós temos previsão de todos os dias de chuva. Inclusive hoje, que já choveu em alguns locais. Deve chover mais ainda agora até o final da tarde em alguns locais. Mas não estou falando daquela chuva que vai chover em todos os pontos do município. Mas nós temos previsão de chuva para todos os dias. O que eu não posso precisar agora é o volume. Mas que tem possibilidade de chuva, sim. Mesmo que não seja no território total, como aconteceu segunda-feira. Mas tem previsão de chuva para todo dia”, afirmou.

O Rio Acre não transbordava em dezembro desde a década de 70/Foto: ContilNet

Risco de repetição do fenômeno de 2025

A Defesa Civil não descarta que o fenômeno raro registrado em dezembro de 2025 se repita nos primeiros meses de 2026. Com chuvas já acima da média para o período, o coronel prevê um trimestre de alta tensão, com o risco de o Rio Acre transbordar múltiplas vezes no mesmo período.

“Totalmente possível. Totalmente. Nós já temos mais chuva do que o esperamos para todo mês. É uma diferença de 2 a 3 milímetros a mais. Mas hoje é dia 14. Então, o que significa? Tudo está se encaminhando para se repetir o que aconteceu em dezembro. E também tudo está se encaminhando para repetir em fevereiro o que acontece em janeiro. Tudo está se encaminhando para acontecer em março o que acontece em fevereiro. Então, o que nós trabalhamos agora é que todo mês a gente vai ter chuvas acima da média. Então, com isso fica bem complicado”, alertou.

Falcão finaliza explicando que a população pode enfrentar um ciclo de “sobe e desce” das águas:

“Nós temos 90% de encharcamento e umidade do solo, que é outro fator que agrava. Então, por isso, a gente vai passar 3 meses de muita tensão, digamos assim. Então, são 3 meses também de risco iminente de alagação. Incluindo a possibilidade de ter uma inundação, voltar, sair da inundação e voltar de novo para a inundação. Isso pode acontecer. Então, nesses 3 meses pode acontecer de sair e voltar de alagação pelo menos 3 vezes. Eu não diria 3 vezes, mas mais de uma vez”.

O coronel concluiu reforçando a imprevisibilidade do mês de janeiro: “Porque assim, olha só, nós estamos beirando aí um transbordamento. Eu te falei que se nada acontecer de diferente, é possível que essa semana, no final de semana, início da semana, transborde. Só que nós estamos no mês de janeiro. Não existe assim um transbordamento, pelo menos não está registrado em nenhum lugar, de o rio ficar alagado 3 meses. Então, o que pode acontecer? Agora, janeiro, ele transborda, ele fica 5, 6, 10 dias transbordado, acima da cota de transbordamento. Ele vai sair dessa cota, ele vai voltar para uma outra cota de 10 metros, de 9 e tal. Só que nós temos fevereiro, março pela frente. Então, aí o que acontece? Começa a chuva e ele transborda outra vez. Então, agora eu não posso dizer para você. Pode não acontecer nada disso? Pode também, né? Mas são previsões que a gente tem. Agora, pode ser que ele transborde a segunda vez? Sim. Mas assim, nada que a gente consiga afirmar”.