O Acre registrou em 2025 uma situação considerada rara na série histórica: duas grandes alagações no mesmo ano, fenômeno que não ocorria havia cerca de 50 anos, desde 1975. Em Rio Branco, o cenário foi impulsionado por volumes de chuva muito acima do normal, especialmente no mês de dezembro, o que levou especialistas a analisar as causas do evento extremo.

O professor explicou causas possíveis para a enchente/Foto: Reprodução
Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a capital acreana acumulou mais de 543 milímetros de chuva ao longo de dezembro de 2025, com registros que, em alguns pontos da cidade, podem ter alcançado até 600 milímetros. O volume representa mais que o dobro da média histórica esperada para o mês.
Para o professor doutor Anderson Azevedo Mesquita, da Universidade Federal do Acre (Ufac), o episódio exige uma análise cuidadosa.
“Nós queríamos tentar entender o porquê algo tão incomum aconteceu esse ano”, afirmou. Segundo ele, “choveu duas vezes mais do que o normal registrado nos últimos 30 anos”, superando com folga as previsões iniciais da meteorologia, que indicavam entre 300 e 330 milímetros até novembro.
O professor explica que o aumento das chuvas no fim do ano faz parte do ciclo climático da região. “Primeiro, é preciso destacar que o aumento dos volumes precipitados a partir de dezembro é normal para a cidade de Rio Branco”, disse. De acordo com Mesquita, isso ocorre “por conta da nossa posição geográfica e da proximidade com o Equador”, além da atuação da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). “É uma extensa e persistente faixa de nuvens que se desloca do oceano próximo ao Equador em direção às terras acreanas”, explicou.
Outro fator citado é a grande quantidade de umidade proveniente da Amazônia. “Esse volume colossal de umidade acaba sendo aprisionado na chamada ‘curva dos Andes’”, destacou. Fenômenos oceânicos como El Niño e La Niña também influenciam o regime de chuvas na região, mas, segundo o pesquisador, não explicam sozinhos o que ocorreu em 2025. “Mesmo em situação de La Niña, que costuma contribuir com mais chuvas, não se pode dizer que esse foi o motivo pelos quase 600 milímetros em 30 dias”, afirmou. Ele ressaltou que “o La Niña atual é super enfraquecido” e que “é pouco provável que tivesse força para justificar esse evento”.
O professor revela ainda que o La Niña não teve influencia direta na segunda enchente de 2025/Foto: Cedida
Ao abordar as causas mais amplas, Mesquita enfatiza as mudanças climáticas. “Prever ou explicar tais eventos não é tarefa fácil”, disse. “Os fenômenos atmosféricos são imprevisíveis e envolvem muitos mecanismos que até hoje não são conhecidos pela ciência.” Ainda assim, ele aponta um consenso científico. “Ao menos nas três últimas décadas, algo se tornou consenso: o planeta está mais quente.”
Segundo o professor, esse aquecimento global favorece a ocorrência de eventos extremos. “O que ocorre dentro de um planeta mais quente é exatamente o que estamos presenciando em Rio Branco”, afirmou. “O dobro do volume precipitado em dezembro de 2025, com chuvas de até 160 milímetros em menos de 24 horas, é o cenário mais claro do caos que já estamos vivendo”, completou, alertando que esse tipo de episódio “infelizmente será intensificado nos próximos anos”.
Mesquita também chamou atenção para o aspecto social dos desastres. “Na ciência do risco, os desastres não podem ser considerados apenas naturais, mas socioambientais”, explicou. Para ele, “grande parte do caos está relacionada ao evento excepcional de chuvas”, mas há outros fatores envolvidos. “Não se pode omitir o despreparo institucional para planejar e gerir o meio ambiente de forma racional e sustentável”, disse, ao citar a falta de “diretrizes de infraestrutura urbana adaptada e resiliente”.
A segunda alagação registrada no Acre em 2025 reforça o alerta de especialistas sobre a necessidade de planejamento urbano, adaptação climática e políticas públicas voltadas à prevenção de riscos, diante de um cenário climático cada vez mais extremo.