Paraíso turístico sob domínio do crime: a face oculta de Porto de Galinhas

Paisagens de cartão-postal, mar transparente, gastronomia à base de peixes e camarões e vilas que parecem viver em ritmo lento. Esse é o retrato vendido ao Brasil e ao mundo por destinos como Porto de Galinhas, em Pernambuco; Pipa, no Rio Grande do Norte; e Jericoacoara, no Ceará. Fora do enquadramento turístico, porém, essas mesmas praias convivem com uma realidade marcada pelo domínio de facções criminosas, violência extrema e um cotidiano regulado por regras impostas pelo crime organizado.

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Apesar da aparência pacífica que agrada visitantes, esses locais funcionam sob uma lógica paralela de poder. O tráfico de drogas acontece em áreas centrais, há vigilância permanente feita por olheiros e a circulação de moradores e comerciantes segue códigos informais. O objetivo é manter a sensação de ordem e evitar crimes contra turistas, fundamentais para sustentar a economia local — e, indiretamente, os próprios negócios ilícitos.

Para quem vive nessas regiões, a presença das facções é explícita. Moradores relatam ameaças constantes, punições violentas, execuções e até decapitações como instrumentos de controle social. Pontos de venda de drogas operam abertamente e conflitos internos são resolvidos sem qualquer intervenção do Estado, que aparece de forma esporádica e geralmente repressiva.

Além desses três destinos, há registros semelhantes em outros polos turísticos do Nordeste, como São Miguel dos Milagres, em Alagoas, e áreas de Trancoso e Caraíva, no sul da Bahia. O avanço do crime acompanha a expansão nacional das facções, que deixaram de atuar apenas em grandes centros urbanos e passaram a ocupar regiões com alto fluxo de dinheiro, turismo constante e estrutura pública limitada.

Essas vilas reúnem características ideais para esse tipo de domínio: circulação intensa de pessoas, festas frequentes, consumo recreativo de drogas durante todo o ano e policiamento insuficiente. O resultado é um ambiente lucrativo e de baixo risco operacional para o tráfico. Em Porto de Galinhas, por exemplo, investigações policiais apontaram movimentações milionárias anuais a partir da venda de drogas em uma única área da praia.

Casos de grande repercussão ajudaram a revelar esse cenário ao país. Em Jericoacoara, a morte de um adolescente turista, confundido com integrante de uma facção rival, expôs o grau de paranoia e violência que rege a lógica desses grupos. Em Pipa, um triplo homicídio ocorrido em plena rua principal da vila, próximo à delegacia local, foi consequência direta de disputas entre organizações criminosas. Já em Porto de Galinhas, ordens de fechamento do comércio e bloqueio de vias mostraram o poder de mobilização das facções após uma operação policial terminar com a morte de uma criança.

Em Porto de Galinhas, o controle territorial é exercido principalmente por uma facção que também atua em outras cidades do litoral sul de Pernambuco. Comunidades onde vivem trabalhadores do turismo são monitoradas por câmeras instaladas ilegalmente, moradores são proibidos de acionar a polícia e agentes públicos só entram mediante identificação prévia. Crimes comuns, como furtos e brigas, são proibidos por regras internas, enquanto conflitos mais graves são julgados por tribunais clandestinos do próprio grupo.

A ausência de disputas entre facções reduziu estatísticas oficiais de homicídios, mas isso não significa segurança. Pelo contrário: a queda nos números reflete a consolidação de um único grupo dominante, o que silencia conflitos visíveis, mas mantém a violência estrutural. Há registros de cemitérios clandestinos em áreas de mangue, usados para ocultar corpos de pessoas executadas por descumprirem ordens internas.

Especialistas apontam que fatores econômicos também contribuíram para esse avanço. Grandes obras e empreendimentos na região, como o Porto de Suape, aumentaram a circulação de dinheiro e de trabalhadores, sem que isso se traduzisse em melhorias sociais. Ipojuca, município onde fica Porto de Galinhas, tem um dos maiores PIBs per capita de Pernambuco, mas índices sociais baixos, especialmente em educação.

Esse desequilíbrio cria terreno fértil para o aliciamento de jovens, que encontram no tráfico uma alternativa rápida diante da falta de perspectivas. Projetos sociais tentam conter esse fluxo, mas enfrentam limitações diante da força financeira e territorial das facções.

Operações policiais frequentes resultaram em centenas de prisões ao longo dos últimos anos, mas investigadores reconhecem um efeito colateral recorrente: ao desarticular grupos menores ou rivais, o Estado acaba fortalecendo ainda mais a facção dominante. Enquanto isso, a população local segue vivendo entre o silêncio, o medo e a necessidade de preservar a imagem de paraíso que mantém o turismo vivo.

O contraste entre a beleza natural e a violência invisível transforma essas praias em símbolos de um problema mais amplo: a dificuldade do poder público em disputar território, renda e influência com o crime organizado em regiões onde o turismo mascara uma realidade profundamente desigual.

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