Análise de seis anos de observações de 669 milhões de galáxias unifica quatro métodos de investigação pela primeira vez

A Colaboração do Levantamento de Energia Escura coletou informações sobre centenas de milhões de galáxias em todo o Universo usando a Câmera de Energia Escura (Imagem: Divulgação)

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A mais ambiciosa e precisa investigação sobre a energia escura — a força misteriosa que acelera a expansão do Universo — acaba de divulgar seus resultados. Após analisar seis anos de dados coletados pela câmera de 570 megapixels Dark Energy Camera (DECam), no Chile, uma colaboração internacional de cientistas conseguiu medir a estrutura cósmica com uma precisão sem precedentes, ao mesmo tempo que revelou uma intrigante discrepância em relação aos modelos teóricos atuais.

O Dark Energy Survey (DES) observou, entre 2013 e 2019, cerca de 669 milhões de galáxias distantes, mapeando um oitavo do céu noturno. O marco da nova análise foi a combinação, pela primeira vez, dos quatro principais métodos usados para estudar a energia escura: a observação de supernovas (que revelaram o fenômeno em 1998), o efeito de lentes gravitacionais fracas, o agrupamento de galáxias e as oscilações acústicas bariônicas — “ondas congeladas” de densidade do universo primordial. A pesquisa foi submetida à revista Physical Review D e está disponível no repositório arXiv.

“É uma sensação incrível ver esses resultados com base em todos os dados e com todas as quatro sondas que o DES havia planejado”, disse Yuanyuan Zhang, pesquisador do NOIRLab, em comunicado. A força das conclusões sobre a influência da energia escura dobrou em relação a estudos anteriores.

Expansão do Universo tem sido explicada com a energia escura
Imagem: Dark Energy Survey/DOE/FNAL/DECam/CTIO/NOIRLab/NSF/AURA

Energia escura é força misteriosa do Universo

A energia escura, que constitui cerca de 68% do conteúdo do cosmos, é responsável pela aceleração da expansão universal, um efeito que passou a dominar sobre a gravidade há bilhões de anos. Os novos dados se encaixam bem no modelo cosmológico padrão (ΛCDM), que considera a energia escura constante. No entanto, os cientistas descobriram um desvio persistente e agora mais evidente: a maneira como a matéria se agrupa no universo atual não corresponde às previsões feitas com base nas condições do cosmos primitivo.

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Essa inconsistência — onde galáxias modernas parecem menos aglomeradas do que o esperado — sugere que mesmo os modelos teóricos mais avançados ainda podem estar incompletos. “Esses resultados do DES lançam nova luz sobre nossa compreensão do universo e sua expansão”, afirmou Regina Rameika, do Departamento de Energia dos EUA.

Ilustração de energia escura no Universo
(Imagem: Color4260/Shutterstock)

O futuro da busca pela energia escura passa pelo Observatório Vera C. Rubin, que iniciará em breve um levantamento de uma década. A combinação dos dados do DES com observações de 20 bilhões de galáxias pelo Rubin promete refinar ainda mais nossa visão da história cósmica e, talvez, finalmente desvendar a natureza dessa força que molda o destino de tudo o que existe.

Lucas Soares é jornalista formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e atualmente é editor de ciência e espaço do Olhar Digital.