Interior do Maranhão é marcado por desaparecimentos de crianças e história de horror; relembre

O Maranhão tem um histórico doloroso de desaparecimentos e mortes de crianças, marcado pelo caso dos “meninos emasculados”, ocorrido entre 1991 e 2003. Naquele período, crianças e adolescentes desapareceram ou foram encontrados mortos em municípios da Grande São Luís e Codó, interior do estado, alguns com sinais de mutilação. 

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Os casos vieram à tona com o desaparecimento de Jonnathan Silva Vieira, de 15 anos, em dezembro de 2003, na periferia de São José de Ribamar, na Região Metropolitana de São Luís.

A partir desse evento, a polícia começou a traçar uma investigação que culminou na identificação de um assassino em série responsável por dezenas de mortes de crianças e adolescentes entre 1991 e 2003 — muitos deles com sinais de mutilação genital, caso em que foram encontrados emasculados.

Inicialmente, o caso foi associado a práticas de rituais religiosos. Porém, o responsável foi Francisco das Chagas Rodrigues de Brito, um mecânico natural de Caxias (MA), que confessou ter matado dezenas de meninos no Maranhão e no Pará, e que acabou preso preventivamente em 2004. A prisão ocorreu após provas contundentes, incluindo a descoberta de ossadas humanas e fragmentos de vítimas em sua própria residência.

Relatórios policiais mostram que a investigação começou quando familiares de Jonnathan relataram que ele havia saído para colher juçara com um conhecido, Chagas — até então visto como “prestativo” pela vizinhança. A partir de cartazes de crianças desaparecidas e cruzamento de informações, os delegados perceberam um padrão de crimes semelhantes em várias localidades.

Serial killer

Estima-se que Francisco das Chagas tenha confessado a morte de cerca de 30 crianças no Maranhão e mais 12 no Pará, num total de 42 vítimas, muitas delas meninos de família em situação de vulnerabilidade social.

O caso chegou a ser discutido em audiências públicas na Câmara dos Deputados e foi objeto de denúncia internacional — o estado brasileiro chegou a ser questionado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) pelas dificuldades iniciais de investigação.

Crianças desaparecidas em Bacabal

No início deste ano, o desaparecimento de três crianças na zona rural de Bacabal reacendeu esse histórico e antigas narrativas sobre violência infantil no estado.

As crianças desapareceram enquanto brincavam próximas a uma área de mata na comunidade quilombola São Sebastião dos Pretos. Quatro dias depois, um menino de 8 anos foi encontrado com vida. As buscas continuam pelas duas menores.

Os investigadores trabalham com hipóteses comuns a desaparecimentos em áreas rurais, como desorientação em mata fechada, dificuldades de locomoção e fatores ambientais. A região possui vegetação densa, rios e lagoas, o que dificulta as buscas e aumenta o tempo de resposta. 

Peso da religiosidade no imaginário popular

Outra cidade do interior do Maranhão e também palco do caso dos “meninos emasculados”, Codó é reconhecida nacionalmente como um dos principais centros de religiões de matriz africana do Maranhão, com forte presença do Terecô, do Tambor de Mina e da Umbanda. A projeção da cidade se consolidou ao longo do século 20, especialmente a partir da atuação de líderes religiosos conhecidos, como Bita do Barão, figura que atraiu fiéis de várias partes do país.

Essa visibilidade cultural, no entanto, também contribuiu para a construção de estigmas. Ao longo dos anos, Codó passou a ser retratada, muitas vezes de forma sensacionalista, como uma “cidade mística”, rótulo que frequentemente surge em momentos de comoção social ou crises envolvendo violência.

Pesquisadores e estudiosos da religiosidade maranhense afirmam que essas tradições não envolvem práticas violentas nem sacrifícios humanos, e que a associação com crimes é resultado de preconceito religioso e desinformação.

Alerta para boatos

Enquanto as buscas continuam em Bacabal, autoridades reforçam o pedido para que informações concretas sejam repassadas à polícia e alertam para os riscos da disseminação de boatos. Até o momento, não há qualquer confirmação de que rituais religiosos estejam por trás dos desaparecimentos, seja em Bacabal ou em Codó.

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