Enfrentando sérios problemas de saúde e convivendo com a perda total da visão, o professor Paulo Onofre Lopes Craveiro, de 60 anos, tomou uma decisão pouco comum: providenciou a construção do próprio túmulo ainda em vida, no município de Tarauacá, no interior do Acre. Segundo ele, a iniciativa teve como principal objetivo evitar despesas e preocupações futuras para a família.

Natural de Tarauacá, Paulo mudou-se para Cruzeiro do Sul em 2020: Foto/Reprodução
Diagnosticado com deficiência visual desde 2023 e em tratamento de hemodiálise há aproximadamente seis anos, Paulo contou que o agravamento do seu estado de saúde o levou a refletir de forma mais profunda sobre a finitude da vida. A partir dessas reflexões, decidiu antecipar os preparativos relacionados ao sepultamento.
A sepultura foi erguida no Cemitério São João Batista, o único da cidade, e finalizada em 2025. A obra levou cerca de uma semana para ser concluída e teve custo aproximado de R$ 6 mil, incluindo materiais e mão de obra. A ideia, segundo o professor, começou a ser amadurecida há cerca de cinco anos, quando passou a enfrentar de forma mais intensa as limitações impostas pela doença.
A sepultura foi erguida no Cemitério São João Batista, o único da cidade: Foto/Reprodução
O túmulo foi projetado pelo próprio Paulo e conta com uma única gaveta. O espaço é revestido com porcelanato preto, possui detalhes em dourado e uma cruz de ferro com asas, inspirada no Salmo 91 da Bíblia. Cada elemento foi escolhido com um significado específico: o preto simboliza o luto, enquanto o dourado representa a luz.
Natural de Tarauacá, Paulo mudou-se para Cruzeiro do Sul em 2020, após perder a função renal e passar a necessitar de sessões regulares de hemodiálise, tratamento disponível em uma das poucas clínicas especializadas do interior do estado. Complicações decorrentes da diabetes levaram à perda total da visão entre 2022 e 2023. Todo o tratamento é realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Para o filho, Luã Silva Craveiro, de 35 anos, enfermeiro residente no Mato Grosso, a decisão do pai reflete uma personalidade marcada pela autonomia. Ele avalia que a iniciativa foi uma forma de manter o controle sobre a própria vida, mesmo diante das limitações físicas.
Paulo também explicou que sempre desejou ser sepultado em Tarauacá, onde construiu sua história e onde estão enterrados outros familiares. No entanto, a superlotação do cemitério municipal tem dificultado novos sepultamentos, com casos de sepulturas sendo feitas sobre outras já existentes.
Apesar dos desafios impostos pela saúde, o professor mantém uma rotina ativa. Ele vive com a mãe, de 82 anos, em um apartamento adaptado com recursos de acessibilidade e, nos dias em que não realiza tratamento, frequenta balneários e acompanha conteúdos informativos.
Ao falar sobre o tema, Paulo reflete que a vida é passageira e que a morte, embora inevitável, ainda é tratada como tabu por muitas pessoas.
A situação do Cemitério São João Batista é agravada pela demora na implantação de um novo espaço funerário no município. A Prefeitura de Tarauacá informou que o novo cemitério já foi licitado e contratado, e que as obras de acesso e pavimentação estão em andamento para permitir o avanço dos trabalhos durante o período de verão. Em anos anteriores, o projeto enfrentou entraves relacionados ao licenciamento ambiental.
Com informações do site Zero Hora.