O dicionário do crime é tradicionalmente visto dentro dos presídios brasileiros, marcado por códigos próprios de comunicação criados por facções criminosas. As gírias, muitas vezes desconhecidas do público em geral, funcionam como instrumentos de organização interna, disciplina e identificação entre os integrantes, além de dificultarem a compreensão por agentes penitenciários e grupos rivais, como uma espécie de criptografia da língua.
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Essas expressões surgem e se transformam conforme o contexto do sistema prisional e variam de acordo com o estado, a facção e o período. O vocabulário não é apenas informal, mas carrega significados específicos ligados à hierarquia e às regras internas.
Dicionário do crime
O uso dessas gírias vai além da comunicação cotidiana e cumpre papel central no controle social exercido pelas facções dentro das unidades prisionais. Além disso, parte desse vocabulário ultrapassa os muros das prisões e passa a ser utilizada nas ruas, em comunidades sob influência do crime organizado, mostrando como o sistema prisional e o ambiente externo estão interligados.
Compreender o significado dessas expressões ajuda a entender a dinâmica interna dos presídios e a forma como as facções mantêm sua organização, mesmo em ambientes de vigilância constante.
(Foto: Gláucio Dettmar)
Cada facção um ‘dicionário’
O uso de gírias é uma prática comum entre diferentes facções que atuam dentro do sistema prisional, mas isso não significa uniformidade. Cada grupo desenvolve seu próprio vocabulário, com expressões que podem até parecer semelhantes, mas que ganham sentidos específicos conforme a facção, o estado e o contexto em que são usadas.
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Mesmo assim, há uma lógica compartilhada entre elas. As gírias funcionam como uma linguagem interna que facilita a identificação entre integrantes e ajuda a diferenciar quem pertence ao grupo de quem está fora dele, reforçando a noção de pertencimento e hierarquia.
Termos como irmão/parceiro, usados para se referir a membros do mesmo grupo, batizado, que indica o ingresso formal de um preso na facção, e X-9/cagueta, usadas para identificar delatores e informantes, considerado grave no ambiente prisional, são algumas das gírias mais comuns, vistas com unanimidade entre as organizações criminosas.
Organização mediante comunicação criptografada
A principal função de uma linguagem própria é garantir comunicação interna com maior sigilo. Ao utilizar termos que não fazem parte do vocabulário comum, os integrantes dificultam a compreensão por agentes penitenciários, presos de grupos rivais e pessoas externas ao ambiente prisional.
Além disso, essa linguagem atua como ferramenta de controle social. As palavras carregam significados ligados a regras, punições, cargos e comportamentos esperados, ajudando a manter a disciplina e a organização mesmo em um ambiente marcado pela vigilância constante.
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(Foto: Gláucio Dettmar)
Transformação constante
As gírias utilizadas pelas facções são mutáveis e passam por constantes transformações. Termos podem surgir, mudar de significado ou cair em desuso conforme se tornam conhecidos fora do grupo, especialmente quando passam a ser identificados por autoridades ou pela imprensa.
Não existe um sistema formal que preserve essa linguagem ao longo do tempo. A principal forma de proteção é justamente a adaptação contínua. A mudança frequente do vocabulário funciona como um mecanismo natural de renovação, mantendo o caráter cifrado da comunicação.
Comunicação nas ruas funciona da mesma forma?
A comunicação dos faccionados que estão em liberdade costuma se basear em parte no mesmo vocabulário usado dentro dos presídios, principalmente em termos ligados à hierarquia, lealdade e regras internas. Isso ocorre porque muitas decisões e orientações têm origem no sistema prisional.
No entanto, há diferenças importantes. Fora das prisões, a linguagem tende a ser mais flexível e adaptada ao cotidiano das ruas, incorporando gírias locais e expressões populares. Ainda assim, o núcleo da linguagem permanece conectado ao ambiente prisional, reforçando a ligação entre o que acontece dentro e fora das unidades.
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Confira os principais termos do ‘Dicionário do Crime’
Espaços e estrutura do presídio
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Barraco/Xis: Cela, local de dormir
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Tranca: Fechamento das celas
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Boi/Abacataré: Vaso sanitário ou local de necessidades
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Tatu: Túnel ou buraco para fuga
Itens levados por familiares e mantimentos
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Jumbo/Sacola: Alimentos, produtos de higiene e roupas levados pelos familiares
Cargos, hierarquia e organização interna
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Disciplina: integrante responsável por cobrar o cumprimento das regras
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Sintonia: funções de liderança ou áreas de atuação (comunicação, organização interna)
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Torre: Liderança responsável por passar ordens (salves)
Comunicação e mensagens
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Salve: mensagens oficiais, que podem conter orientações, avisos ou determinações aos membros
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Falante/Papagaio: Rádio
Regras, punições e conflitos
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Cobrança: advertências ou até punições mais severas
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Vacilão: Alguém que comete erros, falha com a disciplina
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Testar a febre: Provocar briga ou ira
Situação penal e movimentações
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Bonde/Viagem: Transferência de presos entre unidades
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Puxar cadeia: Cumprir a pena
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Cair: Ser preso
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Pedir Seguro: Solicitar isolamento por ameaça dos outros presos
Relações pessoais e convivência
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Cunhada: Esposa ou companheira de outro preso
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Talarico: Aquele que se envolve com a mulher/homem de outro preso
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Tia: Forma carinhosa de chamar uma visita feminina ou familiar
Condutas internas e atitudes
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Abraçar: Assumir a culpa de outro preso
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Rasgar a peita/Tirar a camisa: Pedir desligamento da facção
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Corre: Atividade, correria para ganhar dinheiro ou movimentar algo
Situações e informações sensíveis
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Fita: situações delicadas ou assuntos considerados importantes
Informantes e segurança
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Boneco: Informante ou boneco de segurança
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Cagueta/X9: Delator, informante
Objetos do cotidiano
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Areia: Açúcar
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Giz: Cigarro
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Dragão: Isqueiro
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Bombador: Aquecedor de água artesanal
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Lupa: Óculos
Estado e expectativa
- Lili: Liberdade
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