A organização criminosa Tren de Aragua, nascida na Venezuela — país que protagonizou recente episódio internacional envolvendo os presidentes Donald Trump (Estados Unidos) e Nicolás Maduro –, já fincou bases no Brasil e passou a operar em conexão com grupos locais, em especial o Primeiro Comando da Capital (PCC). A expansão se dá por meio de acordos de interesse no tráfico de drogas, controle territorial e exploração de rotas.
Como já mostrado pelo Metrópoles, o Tren de Aragua avançou para ao menos seis estados brasileiros, incluindo São Paulo, utilizando estruturas flexíveis e alianças pontuais. O grupo criminoso venezuelano se vale de redes de logística e proteção para internalizar drogas, além de explorar atividades paralelas, como o tráfico de mulheres venezuelanas para fins de prostituição no país.
A estratégia combina violência seletiva, intimidação e cooptação de operadores locais, o que facilita a inserção em mercados já dominados por facções brasileiras.
Parceria transnacional
Nesse movimento, o PCC surge como parceiro circunstancial. A aproximação é pragmática, pois o Tren de Aragua agrega acesso a rotas internacionais e mão de obra, enquanto o PCC oferece capilaridade, domínio territorial e expertise na gestão do varejo do tráfico.
O resultado é uma engrenagem que amplia a circulação de cocaína, majoritariamente, com reflexos diretos na dinâmica criminal de fronteiras e capitais, rendendo bilhões de dólares aos grupos criminosos.
A conexão aparece também em processos judiciais a que a reportagem teve acesso a trechos. Em um deles, de Roraima, é mostrado que Pedro José Odreman Brito e Moisés Rafael Martinez Peinado foram presos em 14 de junho de 2025, por volta das 11h40. O flagrante ocorreu no bairro Cidade Satélite, perto de um posto de combustível.
Segundo a acusação, Pedro José foi detido por trazer consigo entorpecentes, enquanto Moisés Rafael foi preso por manter em depósito e por vender drogas em benefício do Tren de Aragua, organização da qual fariam parte.
Garantia da ordem pública
Na ação, foram apreendidos 755,33 gramas de cocaína em pó e 49,39 gramas de crack. Em audiência de custódia, a prisão em flagrante foi homologada e convertida em preventiva para garantia da ordem pública, diante da gravidade dos fatos e do risco concreto apontado pela Justiça. Esse entendimento embasou a renovação da prisão preventiva de ambos no âmbito do Judiciário roraimense.
A movimentação processual mais recente obtida pela reportagem, referente a dezembro do ano passado, indica que o caso avançou sem sobressaltos. Houve audiência de instrução por videoconferência no dia 1º. Nos dias seguintes, foram juntados laudos e apresentadas alegações finais, com comunicações encaminhadas ao Diário de Justiça Eletrônico Nacional. No dia 20, constou o fim do prazo para a manifestação dos dois réus da Venezuela, que não foi feita.
O processo, ainda em curso, ilustra como a facção venezuelana, ao se associar a estruturas já consolidadas como o PCC, deixou de ser um fenômeno externo para se materializar em investigações e condenações no Brasil.
Passando-se por refugiados
Ao Metrópoles, em abril do ano passado, o delegado Wesley Costa Oliveira, titular da Delegacia de Repressão às Organizações Criminosas (Draco) de Roraima, afirmou que, em um primeiro momento, criminosos da Venezuela chegaram mais timidamente à capital Boa Vista, passando-se por refugiados.
Gradativamente, foram aumentando em número e confiança suficientes para disputar territórios na cidade, com outras facções, provocando aumento em casos de homicídio. Dados oficiais mostram que os assassinatos saltaram de 90, em 2020, para 127, no ano seguinte, quando o bando conquistou pontos para vender cocaína.
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Conexões
Já com territórios estabelecidos, o Tren de Aragua passou a criar conexões com o PCC e o Comando Vermelho (CV), tornando-se o principal fornecedor de armas para as facções brasileiras, para as quais também garante o transporte de cargas de cocaína, vindas da Colômbia, por meio do território venezuelano.
Segundo investigação da Draco, já há membros “diplomáticos” do Tren de Aragua ao menos em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
“Eles não disputam territórios nessas regiões, ainda, porque não contam com estrutura e força necessárias para entrar em confronto com os grupos criminosos locais”, explicou o titular da Draco.
Tráfico humano
Como revelado pelo Metrópoles, além do tráfico de armas e de drogas, o Tren de Aragua conta com um sofisticado esquema de tráfico de mulheres.
“A preponderância dos alvos são venezuelanas, que passam fome. Os criminosos falam para virem ao Brasil, onde terão condições melhores de vida e, por fim, são exploradas pelo Tren de Aragua, que controla casas de prostituição, onde cobram taxas das vítimas”, explicou o delegado Wesley Costa Oliveira.
Em decorrência da vida difícil, algumas das vítimas acabam se viciando em drogas, aumentando ainda mais a dívida com os criminosos. “Mas, em alguns casos, a conta não fecha, e as mulheres são mortas, para dar exemplo para outras”, acrescentou o policial.
Na véspera do Natal de 2024, a Polícia Civil de Roraima localizou um cemitério clandestino do Tren de Aragua, em Boa Vista, capital do estado, no qual foram encontrados 10 corpos. Entre eles, segundo o titular da Draco, havia cinco mulheres com indícios de desmembramentos, da mesma forma que as outras vítimas enterradas.






