Acredite se quiser! Essa foto é de um computador poderoso

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Pesquisadores da Universidade de Fudan, em Xangai, desenvolveram uma fibra computacional ultrafina capaz de incorporar circuitos eletrônicos complexos em um material mais fino que um fio de cabelo humano. O avanço é resultado de mais de uma década de pesquisa e marca um passo importante no mundo da eletrônica vestível.

Batizado de “chip de fibra”, o material reúne milhares de componentes eletrônicos em um espaço minúsculo. Em apenas 1 milímetro de fibra, os cientistas conseguiram integrar cerca de 10 mil transistores – número comparável ao poder de processamento de um marca-passo.

Em escala maior, um metro dessa fibra poderia abrigar milhões de transistores, alcançando desempenho semelhante ao de um computador pessoal comum.

Fio tem poder computacional semelhante a um marca-passo (Imagem: Universidade de Fudan/Nature/Reprodução)

Circuitos complexos dentro de um único fio

Diferentemente das abordagens atuais, que geralmente fixam sensores e chips na superfície dos tecidos, a equipe chinesa optou por uma arquitetura inédita. Os circuitos foram construídos em camadas espirais e incorporados diretamente no interior da fibra, permitindo que o material mantenha flexibilidade e comportamento semelhantes aos de um fio têxtil comum.

Além dos transistores, cada fio também contém resistores, capacitores e diodos, formando um sistema eletrônico completo, capaz de processar sinais digitais e analógicos. Segundo os pesquisadores, o método de fabricação é compatível com as tecnologias já usadas pela indústria de semicondutores, o que viabiliza a produção em larga escala.

Inclusive, segundo Chen Peining, pesquisador do Instituto de Materiais e Dispositivos de Fibra da Universidade de Fudan, à agência de notícias chinesa Xinhua, a equipe já conseguiu desenvolver uma maneira de fabricar esses chips em massa.

Arquitetura interna do fio (Imagem: Universidade de Fudan/Nature/Reprodução)

Roupas inteligentes e aplicações médicas

Com cerca de 50 micrômetros de diâmetro – mais fino que um fio de cabelo humano -, a fibra pode ser integrada a tecidos quase sem ser percebida. Em roupas, isso permitiria criar peças capazes de monitorar sinais vitais, responder automaticamente à temperatura ambiente, rastrear deslocamentos ou fornecer informações contextuais, como opções de transporte e serviços próximos.

Mas o potencial vai além do vestuário. Por apresentar flexibilidade semelhante à do tecido cerebral, a fibra surge como candidata promissora para aplicações médicas, incluindo implantes inteligentes e interfaces cérebro-computador. A tecnologia pode ser usada, por exemplo, no tratamento de doenças neurológicas como Parkinson, epilepsia e sequelas de AVC.

Entre as aplicações demonstradas estão luvas táteis inteligentes feitas com os chips de fibra. Elas são visualmente idênticas a um tecido comum, mas capazes de detectar e simular sensações físicas, como a dureza de diferentes materiais. Isso permitiria que cirurgiões “sentissem” tecidos humanos durante procedimentos realizados por robôs, inclusive em cirurgias remotas.

Fio foi testado em luva inteligente (Imagem: Liu Ying/Xinhua/Reprodução)

Testes de resistência

Para avaliar a viabilidade prática da tecnologia, os pesquisadores submeteram as fibras a condições extremas:

  • O material resistiu a mais de 10 mil ciclos de flexão e abrasão, suportou alongamento de até 30%, torções intensas e 100 ciclos de lavagem;
  • Também passou por testes de calor, a 100 °C, e de compressão equivalente ao peso de um caminhão de 15,6 toneladas.

Atualmente, a equipe trabalha em parceria com um hospital para adaptar o chip de fibra ao uso em cirurgias cardiovasculares. A expectativa é que, no futuro, tecidos eletrônicos baseados nessa tecnologia possam trocar informações com a mesma eficiência dos dispositivos digitais atuais, como computadores e celulares.

A pesquisa foi publicada este mês na revista Nature.