Segundo a denúncia, Ribamar, indígena do Acre, foi assassinado de forma brutal por integrantes da facção Comando Vermelho, após suspeitas de que ele teria dado abrigo a dois parentes ligados ao PCC.
O promotor de Justiça Carlos Pescador detalhou a dinâmica da execução, afirmando que Ribamar morava entre a aldeia e a cidade, fazia uso de drogas e, em uma das idas à cidade para comprar mantimentos, foi abordado por dois adultos e dois adolescentes. Isso aconteceu porque ele havia recebido anteriormente parentes de Manoel Urbano, dois homens e uma mulher supostamente ligados ao PCC.
Segundo Pescador, os suspeitos começaram a questionar a identidade dessas pessoas, enviaram fotos para conhecidos e confirmaram sua ligação com a facção. Por ter dado guarida a elas, Ribamar foi levado de sua casa em 7 de janeiro de 2022.

Caso aconteceu em 2021. Indígena foi encontrado em uma cova rasa/Foto: Reprodução
Os autos indicam que a vítima foi inicialmente mantida em um local conhecido como Cantoneira, onde teria tentado negociar sua vida. Pescador relatou que Ribamar implorava: “não me matem que eu vou na aldeia matar esses dois primos”. Mesmo assim, ao tentar atravessar o rio para buscar refúgio na aldeia, ele e os sequestradores foram interceptados pelos parentes, que dispararam contra eles, obrigando o grupo a retornar à Cantoneira.
Durante a madrugada, Ribamar foi conduzido à mata por seis pessoas. O promotor descreveu o momento como especialmente cruel: “Obrigaram ele a cavar a própria cova por duas, três horas. Ele cavou, entrou, deitou na cova. Um deles atirou, mas nenhum disparo o acertou. Então entraram na cova, deram um golpe no peito e o degolaram. Foi uma cena dantesca, na frente de adolescentes, o que configura corrupção de menores”.
O Ministério Público do Acre (MPAC) denunciou os 11 acusados por homicídio qualificado, corrupção de menores e participação em organização criminosa. Parte dos réus foi absolvida do homicídio por não estar presente na execução final, mas todos receberam condenações por organização criminosa e corrupção de menores. Pescador explicou: “Alguns só participaram levando a vítima de um ponto a outro, por isso não foram condenados pelo homicídio. Mas todos foram responsabilizados por integrar a facção e por corromper adolescentes, porque essa foi uma conduta coletiva”.
Dos 11 acusados, 10 estiveram presentes no julgamento. Apenas uma mulher, a única ré feminina, foi condenada em regime semiaberto; os demais receberam penas em regime fechado.
Durante o julgamento, ocorreu um episódio paralelo envolvendo Isaquéu Sousa Oliveira, considerado peça central no crime. Ele não compareceu ao tribunal e acabou morto em Feijó enquanto o júri acontecia em Rio Branco. O promotor explicou: “Isaquéu era apontado como responsável principal. Ele começou a falar com pessoas do PCC em Envira, no Amazonas. Quando foram obrigá-lo a assumir sozinho o crime, ele se negou. Acabaram pegando o celular dele, descobriram essas conversas e o executaram da mesma forma que mataram o indígena: em uma cova rasa, com um degolado. Isso aconteceu durante o julgamento, entre os dias 1º e 2”.
O MPAC ressaltou que o caso evidencia o crescimento do poder das organizações criminosas em áreas indígenas e municípios do interior do Acre. Pescador concluiu: “Esse é um crime que levanta muitas questões sobre a entrada das facções nas aldeias. Quem está em Rio Branco talvez não tenha a dimensão, mas em municípios como Feijó, Tarauacá, Manoel Urbano e Santa Rosa o impacto é grande. É um desafio para o nosso estado lidar com essa realidade”.