Parece que quanto mais se cava no terreno cultural acreano, mais se encontram verdadeiros tesouros. Impressiona o grito interno tão expressivo que o Acre possui. Para contestar esse fato, basta observar as mais variadas manifestações artísticas que surgiram ao longo das décadas e perceber a força criativa de quem resiste em um estado isolado e, muitas vezes, esquecido até pelos próprios acreanos.
Filmagens do longa-metragem Rio Torto/Foto: Cristopher Douglas
Iniciativas como a produção do longa-metragem “Rio Torto”, do cineasta acreano Ney Ricardo da Silva, precisam ser destacadas, valorizadas e aplaudidas, pois comprovam que até as paisagens naturais acreanas servem de inspiração para arte.
O projeto foi pensando a partir do curta-metragem “A Catraia”/ Foto: Cristopher Douglas
O projeto, que nasce do audiovisual independente, começou a ser desenhado a partir do curta-metragem “A Catraia”, que tinha como objetivo homenagear o Rio Acre, não apenas como cenário, mas como personagem simbólico, testemunha e cúmplice das trajetórias humanas que cruzam suas águas. Aos poucos, a ideia evoluiu e ganhou novas camadas, culminando no longa, que hoje está em fase de filmagem com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio do Governo do Estado e da Fundação Elias Mansour.
Uma história que nasce do Acre para as telas
O filme narra a trajetória de Tereza, uma mulher uma história de traumas, que decide fugir de seu marido, Carlos, saindo da cidade, embarcando – literalmente – numa jornada de libertação pelo Rio Torto. Ela vive esse trama ao lado de Pedro, um catraieiro com raízes profundas no seringal e no próprio rio que corta Rio Branco.
“Rio Torto” – nome em homenagem ao Rio Acre e suas curvas/Foto: Cristopher Douglas
“Rio Torto” – nome em homenagem ao Rio Acre e suas curvas – se propõe a falar sobre medo, violência, cura e a busca por reconexão com a natureza e com a própria história.
Além da perseguição de Carlos, Tereza enfrenta seus próprios fantasmas. O contato com comunidades tradicionais, com a força da floresta e com a espiritualidade do Santo Daime a conduz a uma experiência de cura, de ressignificação da dor e das memórias.
Tereza enfrenta seus próprios fantasmas/Foto:Foto: Cristopher Douglas
O filme constrói, com delicadeza e sem estereótipos, uma narrativa que ecoa muito além das margens do Acre.
Histórias reais inspiram ficção com sotaque acreano
O acreano, formado em história pela Universidade Federal do Acre e diretor do filme, Ney Ricardo da Silva, que já assinou obras como “Aos Trancos e Barrancos” e “Rua da Osana”, explica que sempre buscou dar voz a histórias invisibilizadas, focando em personagens que habitam os espaços mais esquecidos da Amazônia urbana e rural.
O acreano, formado em história pela Universidade Federal do Acre, Ney Ricardo da Silva, é o diretor do filme/Foto: Cristopher Douglas
— No Acre, nós continuamos sendo e tendo os maiores índices de feminicídio e violências de várias ordens sobre as mulheres. Então, estamos tratando no filme o medo que é um medo é universal, um medo que trava, um medo que congela, um medo que aprisiona e ela decide escapar desse ciclo e recorre ao rio a natureza.— conta Ney. O longa é resultado desse mesmo olhar atento e sensível, construído a muitas mãos, com uma equipe que reúne talentos do Acre e de outros estados brasileiros.
Profissionais do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Pará, Amazonas e, claro, do Acre, compõem este time/ Foto: Cristopher Douglas
O diretor de fotografia Rodrigo Graciosa, destaca que o contato com a cultura acreana tem sido enriquecedor: “Para mim, como diretor de fotografia do eixo Rio-São Paulo, é uma oportunidade muito especial poder contar uma história com elementos que não fazem parte da minha cultura. Estar em contato com a natureza e as paisagens do Acre, aprendendo sobre o modo de vida dos acreanos, é algo que enriquece muito o trabalho e reflete no resultado do filme”, disse.
Diretor de fotografia Rodrigo Graciosa (camisa do flamengo) destaca que o contato com a cultura acreana tem sido enriquecedor/Foto: Cedida
Rodrigo ainda elogiou o ambiente de trabalho e a troca proporcionada por uma equipe composta por profissionais de diferentes regiões do Brasil. “Tenho uma relação muito boa com o Ney, que abre espaço para que eu contribua na linguagem do filme. A convivência com a equipe daqui tem sido excelente, e também com quem veio de outros estados. É uma equipe plural, e essa troca é muito enriquecedora.”
Ele também ressaltou a importância da produção ser viabilizada por meio da Lei Paulo Gustavo e destacou os desafios enfrentados pelo audiovisual brasileiro. Apesar das limitações financeiras —considerado de baixíssimo orçamento —, a qualidade técnica impressiona. Segundo Ney, o envolvimento das equipes foi garantido mais pela paixão e pela potência da história do que pela verba. Profissionais do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Pará, Amazonas e, claro, do Acre, compõem um time diverso, que traz riqueza à produção.
Segundo Ney, o envolvimento das equipes foi garantido mais pela paixão e pela potência da história do que pela verba/ Foto: Cristopher Douglas
Representatividade e pertencimento
O ator acreano Écio Rogério, que interpreta o antropólogo Paulo – personagem que vive numa comunidade daimista – destaca a importância de um filme que valoriza o Acre sem estereótipos. O ator também destacou a importância do projeto, frisando que o trabalho, além de tudo, é uma denúncia contra violência.
O ator acreano Écio Rogério interpreta o antropólogo Paulo – personagem que vive numa comunidade daimista/ Foto: Cedida
— Sou acreano, tenho 61 anos e trabalho com teatro desde 1978. Fui convidado para interpretar Paulo, um antropólogo que vive numa comunidade daimista. É um personagem que tem grande influência sobre a Tereza no final do filme, pois fala sobre vida e morte — explicou Écio. Protagonismo feminino e o Acre como personagem
Didi Souza, atriz que interpreta a protagonista Tereza, veio de São Paulo especialmente para viver a personagem e afirmou que gravar no Acre tem sido uma das experiências mais marcantes da sua carreira.
Ao refletir sobre o período em que viveu no Acre para as filmagens, Didi afirma que conviver ali fez perceber a força silenciosa das mulheres da região.
Didi Souza veio de São Paulo especialmente para viver a personagem Tereza/Foto: Elias Silva
Para a atriz, a paisagem acreana tem um papel fundamental na narrativa, pois um rio que foi um verdadeiro campo de batalha de seringueiros e soldados, agora é o caminho de fuga e autoconhecimento da personagem. “A água que já levou dor também leva a redenção”, pontua.
Lançamento e expectativa
A expectativa é de que “Rio Torto” seja lançado em 2026, com possibilidades de circulação em festivais nacionais e internacionais. Mais do que isso, a expectativa é de realização de uma potência do audiovisual acreano.
Rio Torto estreia em 2026/Foto: Cedida
O filme é mais do que arte: é um manifesto contra o esquecimento e a favor do enriquecimento cultural e intelectual do Estado, com um recado claro: o Acre existe, e tem muito a dizer.
