Presidente do ICMBio esclarece objetivos da ação contra desmatamento na Reserva Chico Mendes

Ele ressaltou que, durante muitos anos, o ICMBio enfrentou impedimentos para realizar fiscalizações na área, o que facilitou a expansão irregular das ocupações

A Operação Suçuarana, realizada na Reserva Extrativista Chico Mendes, em Xapuri, tem sido alvo de informações equivocadas e campanhas de desinformação, conforme declarou Mauro Oliveira Pires, presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O principal objetivo da ação é combater a criação ilegal de gado dentro desta unidade federal de conservação, que há 35 anos protege o modo de vida de aproximadamente 3 mil famílias extrativistas. Segundo Pires, há uma tentativa de vincular essa operação a eventos que não ocorreram no Acre. “Muitas notícias falsas estão circulando, associando nossa operação a fatos que sequer aconteceram aqui. Situações ocorridas no Amazonas, por exemplo, estão sendo usadas para confundir a população do Acre”, explicou.

O presidente do ICMBio deu entrevista ao Gazeta Entrevista/Foto:Valter Campanato/Agência Brasil

Ele ressaltou que, durante muitos anos, o ICMBio enfrentou impedimentos para realizar fiscalizações na área, o que facilitou a expansão irregular das ocupações. “Muitas terras públicas federais foram vendidas de maneira ilegal. Pessoas compraram achando que estavam fazendo um bom negócio, mas na verdade não estavam, pois quem vendeu não tinha autorização para isso”, acrescentou. As informações foram dadas durante uma entrevista no programa Gazeta Entrevista, na sexta-feira (20).

O presidente enfatizou que a missão da reserva é preservar a floresta e assegurar a subsistência das comunidades tradicionais, que dependem da coleta de castanha e látex. No entanto, a presença de fazendas com centenas de cabeças de gado tem gerado impactos negativos ambientais e sociais. “Achamos áreas com até 300 animais. Isso é incompatível com uma reserva extrativista, que tem como finalidade conservar a floresta”, afirmou. “Essa operação atende às determinações judiciais, do Ministério Público Federal e ao compromisso que temos com a sociedade.”

De acordo com Pires, a ação está focada nos casos mais graves e reincidentes, onde há desmatamento registrado desde 2011. “Apesar das múltiplas notificações e multas, os responsáveis continuaram a desmatar. A retirada do gado é a última medida que estamos adotando.” Ele afirmou ainda que cerca de 91% da reserva permanece intacta, graças ao trabalho das comunidades extrativistas, mas ressaltou que as invasões e a pecuária extensiva ameaçam esses esforços e provocam conflitos e ameaças aos moradores locais. “Famílias foram ameaçadas e lideranças perseguidas. Precisamos assegurar o direito dessas pessoas de viverem dignamente na floresta, como sempre foi”, destacou.

Mauro Pires também denunciou ações ilegais para impedir as fiscalizações. “Obstruir fiscalização é crime federal. Já tivemos casos em que entraram em frigoríficos durante a madrugada, arrombaram cadeados e quebraram muros para liberar gado apreendido.” A operação conta com o suporte da Força Nacional, do Exército e da Polícia Rodoviária Federal.

Além do combate aos crimes ambientais, o ICMBio tem promovido iniciativas de educação ambiental e fortalecimento das cadeias produtivas sustentáveis. “O Acre é um grande produtor de castanha, fonte de renda que mantém a floresta de pé. A pecuária extensiva não combina com os objetivos dessa reserva”, afirmou.

Ele concluiu ressaltando que a preservação do meio ambiente traz benefícios diretos à população. “Sem a Reserva Extrativista, as enchentes e dificuldades enfrentadas anualmente no Acre seriam muito piores. A floresta é fundamental para o clima, a qualidade da água e a agricultura.”

Por fim, o presidente reforçou que a maioria das famílias da reserva age de forma correta. “Cerca de 95% a 98% das pessoas que vivem lá são trabalhadores honestos, que cuidam do próprio sustento e protegem a floresta. Seguiremos combatendo quem desrespeita a lei, pois defender a Amazônia e seus habitantes é nosso dever.”